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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

Punctus Admirativus

Tipo Crônica

Iacopo Apoleio da Urbisaglia, um poeta humanista do século XV, afirma ser o inventor do ponto de exclamação. O nome original é Punctus Admirativus ou Punctus Exclamativus, uma marca gráfica que confere ao texto um alcance de perspectivas e dimensões para além do que a palavra consegue provocar. No século XVIII, os espanhóis viraram a invenção de Iacopo de cabeça pra baixo e levaram para o começo da frase, antecipando a emoção do leitor - especialmente dos que precisam ler em voz alta.

Estas informações estão explicadas em um documentário da Netflix sobre a história do ponto de exclamação. Mesmo quem vive em permanente estado de exclamar talvez não saiba o que há por trás deste desenho simples, mas que pode mudar destinos. Basta ser empregado de forma certa em um simples bilhete e uma vida se transforma.

Nos anos sessenta do século XX, mais precisamente em 1963, foi inventado o Interrobang, um cruzamento entre a pergunta e o estrondo de exclamar. É uma sobreposição dos dois sinais, possível de encontrar nos aplicativos de fontes de hoje em dia, apesar de ser pouco usado e nunca ter sido considerado marca oficial do discurso.

Na narrativa oral usamos muito o interrobang, mesmo sem saber. Aqui no Ceará é possível ouvir a expressão valha com interrobang da Feira da Parangaba à Sabiaguaba. Sempre.

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Nenhuma pontuação tem tanto poder quanto o ponto de exclamação. E nenhuma é alvo de tantas interpretações contraditórias. Na novela "O velho e o mar", de Ernest Hemingway, há somente um ponto de exclamação, da primeira à última página. Na verdade esta é uma história que caminha em um fio de forte tensão do começo ao fim. Um homem, um barco, o mar, um bicho, um tratado profundo sobre a fé e a sobrevivência. O que há para exclamar?

Para muitas pessoas, quem exclama não escreve a sério. Basta comparar "O Velho e o Mar" com um romance água com açúcar, sobre as ilusões do amor. A quantidade de exclamações é assustadoramente maior. Há quem ache, ainda, que não é muito masculino exclamar. Um amigo brasileiro recebeu uma reprimenda de sua chefe americana porque mandava mensagens com pontos de exclamação e isso parecia pouco profissional. "Eu sei que no Brasil vocês são assim, ela disse, mas estamos nos Estados Unidos da América. Aqui trabalhamos com seriedade".

A verdade é que precisamos dos sinais de pontuação para ajudar as palavras a alcançar minimamente a inesgotável capacidade de comunicação do corpo. Vírgulas são imitações da respiração, das pausas naturais para entrada e saída de ar entre uma frase e outra. O ponto de interrogação é a representação das dúvidas, essas coisas das quais a nossa alma está cheia. A exclamação é a marca da pulsão de vida.

O corpo é uma máquina comunicativa imbatível, com ou sem palavras, na voz, nos gestos. A escrita é uma invenção humana que busca estes resultados. Às vezes é impossível. Não há texto no mundo capaz de alcançar o que pode ser dito por olhos que se olham sorrindo. De minha parte, acho que a vida não pode existir sem momentos diários de exaltação, espanto, alegria, êxtase, encanto, enlevo. Não usei nenhum ponto de exclamação nesta crônica até aqui. Deixei para o final porque quero aplicar o Punctus Admirativus na palavra que mais combina com ele e da qual o meu coração anda pleno: Felicidade! Exclamar deveria ser um hábito.

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