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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

Vestido Branco

Tipo Crônica

Existem livros péssimos com títulos maravilhosos, ou livros incríveis com títulos tristes. Quando o casamento é perfeito não há leitor que resista, por isso comprei o livro "Durante aquele estranho chá", da Lygia Fagundes Telles, sem nem saber direito do que se tratava. Comprei pelo título. E por ela, uma das nossas grandes escritoras, um dos meus impactos literários de adolescência.

Foi aos quinze anos, lembro de tudo. Da sala de aula, da maioria dos colegas, da farda, do aparelho que usava nos dentes, da voz solene do prof. Sérgio, de Literatura, anunciando que leríamos o conto "Venha ver o pôr do sol". Eu acho que li mais de vinte vezes, detalhe por detalhe, para entender como se operava aquele milagre, aquela cadeia de efeitos que crescia junto com o meu medo, com o susto. Mesmo sabendo o final, eu voltava ao texto com o temor de acontecer o que inevitavelmente aconteceria.

Apesar de ter lido outros livros de Lygia Fagundes Telles ao longo da vida, esta lembrança de fascínio nunca me deixou. Foi uma luz inicial para a compreensão do conto como gênero. Não há como sair descontente de um livro da Sra. Lygia, essa dama talentosa, forte e bem humorada. De vez em quando recebo de alguém os seus vídeos ou entrevistas falando da relação com Clarice Lispector, dos conselhos que recebeu. O meu preferido é de quando Clarice notou Lygia aborrecida e sugeriu, quase ordenando: "desanuvia essa testa, veste um vestido branco".

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Pois o livro sobre o estranho chá tem este título porque foi assim, durante uma refeição inusitada, que ela esteve com Mário de Andrade. É um livro sobre encontros literários. Com Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Clarice Lispector e o meu preferido: com Jorge Luís Borges. Na conversa com Borges no Brasil, que ela intuiu ser a última, pediu que ele dissesse uma mensagem sobre a vida. Ele respondeu de pronto: "O sonho! Acreditar no sonho, entregar-se ao sonho porque só o sonho existe".

Um bom livro é quase sempre a semente de outro. Enquanto estou lendo, tenho parado para pensar nos encontros literários que vivi, nas escritoras e escritores que conheci em situações incomuns, emocionantes, engraçadas. São muitos, talvez valha mesmo a pena anotar não só pela minha memória, mas deles e de seus leitores.

Houve o dia em que entreguei um santinho do Menino Jesus de Praga para Paulo Coelho na Alemanha e fui parar em um vídeo dele - de capa de chuva e cabelo despenteado. Ou na ocasião em que viajei com João Gilberto Noll de La Paz a São Paulo, ajudando-o com os trâmites de aeroporto e da ostensiva atuação da polícia boliviana. Ainda me revolto quando lembro que eu e Margareth Atwood fomos convidadas para o mesmo evento em Suffolk, na Inglaterra, ficamos hospedadas no mesmo hotel em Aldheburg, diante do mar e não falei com ela por falta de coragem.

Roger Mello, escritor e ilustrador, foi meu companheiro na primeira visita à floresta amazônica. E com Marina Colasanti jantei de vestido branco, bordado, ouvindo suas perguntas sobre porque escrever, porque a literatura. Hoje sei que é por isso tudo, pelos encontros. Os livros me trouxeram as melhores coisas da vida. De cabeça, já tenho aqui pelo menos umas quinze crônicas inspiradas no estranho chá de Lygia Fagundes Telles. O maior desafio será alcançar um título tão bom quanto o dela.

 

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