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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

O fogo

Tipo Crônica

Os primeiros dias do ano são limpos e claros. Parece infância novamente, a invenção do calendário nos proporciona esse retorno ao tempo em que se olha adiante, pisando com leveza e cuidado no chão novo, começo de tudo. É um tempo propício aos rituais, cada um tem os seus e todos são gestos de evocação de esperança.

O meu primeiro ritual é escolher o livro que abrirá os trabalhos do ano, uma página que traga força, pelo tema ou pelo autor. Há, nesse hábito, o absoluto respeito ao poder que cada palavra desta leitura terá sobre o destino. Acredito, sim, em destino. Também acredito em casualidade, sincronicidade, telepatia, sonho, santos, fé, milagre, oração, reza, promessa, novena, quermesse, romaria, pois são todas essas coisas que se guarda no coração e como disse Guimarães Rosa, coração não é mentira.

Escolhido o livro, o primeiro do ano novo, leio em voz alta uma página. Abro ao acaso. Neste ano tive uma surpresa de não precisar escolher o livro, porque ele chegou para mim: uma edição autografada das obras completas de Raduan Nassar. Ele escreveu meu nome, deitou no papel as letras que me definem, este nome próprio-interjeição que me acompanha, este sobrenome modificado, abrasileirado que batizou a mim, que nasci no mesmo ano do Lavoura Arcaica.

Ganhei o livro autografado de presente do meu amigo e compadre, Frei Betto, que entrou na minha vida pela mão do destino e mudou completamente a rota. Talvez, sem ele, eu nem escrevesse hoje. A carta que ele me enviou na infância poderia não existir e assim não haveria a inquietação que me tomava com força de profecia: quem escreve pode fazer bem ao mundo. E eu queria isso, fazer algum bem, atravessar a vida deixando no caminho algo para os outros. Na lista de desejos do ano passado eu não pedi um livro autografado pelo imenso Raduar Nassar: é por coisas assim que acredito no invisível.

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O segundo presente do ano foi o clássico Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant, que eu sempre li emprestado e nunca tive. Quem me deu foi Andressa, uma amiga que comprova a eficácia das definições do zodíaco. Esqueci de incluir na lista que acredito nos planetas, na organização perfeita das cartas celestes e nos alinhamentos das constelações. E acredito mais ainda depois que conheci Andressa, a personificação do arquétipo virginiano, que cria a ordem perfeita das coisas.

Abri o Dicionário de Símbolos ao acaso e o verbete que me veio foi Fogo. Curioso: o segundo ritual, depois da leitura, é a escrita da lista de desejos: o gesto de anotar tudo que se quer realizar, uma declaração de amor à vida. O terceiro é acender uma vela e olhar a chama. Era exatamente disso que eu queria falar na primeira crônica do ano, do calor de existir.

No Dicionário de Símbolos estão as relações do fogo com a vitalidade, o amor, a continuidade da vida de todas as formas, o progresso, o impulso, a destruição do que precisa morrer para que o novo possa chegar. Escrever o que se deseja é acender o fogo para o ano que vem, declarar a vontade de viver, pulsão de vida, superação dos obstáculos. Somos filhos de um país que tem brasa no nome. O que nos salvará é o fogo da coragem.

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