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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

Extremoso Perpétuo

Tipo Crônica

A primeira palavra difícil que aprendi foi perpétuo. Deu trabalho, eu dizia apenas pepé quando era pequenininha. Minha avó corrigia, é o nome da minha madrinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que me salvou de morrer nos primeiros meses da vida.

Eu via a dona Pepé naquela imagem, achava bonita, não entendia nada. Ela ali tão parada, como pode ter saído do lugar para me salvar, para me curar, dar remédio quando eu nem notava, fazer alguma coisa? Fez, já que estava eu ali, diante dela, muito viva, estou aqui agora. É o infinito da fé.

Depois essa palavra só voltou para mim no conto A terceira margem do rio, do Guimarães Rosa. O pai do personagem vai embora e não vai nunca, ao mesmo tempo. O narrador diz: Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio – pondo perpétuo.

Essa palavra que nomeia tão poucas coisas na vida. Esse pai perpétuo que nunca voltará, as coisas ausentes que nunca voltarão. Só o que vale muito é perpétuo. Chega uma hora em que é preciso fazer a lista do que sempre permanece, pois não é uma dúzia e é tudo de que precisamos – ou às vezes, quando dói, é o que precisa ser jogado fora.

A literatura é perpétua. João Guimarães Rosa morreu e continua. Estamos aqui lendo esse conto antigo com o espanto das grandes descobertas. O que faz alguém ser assim, escrever com os olhos da alma, não tem quem explique nem ensine. Apenas acontece, a vida faz existir um e outro que tenham o poder de dizer tanto fazendo de conta que é outra coisa. Fingindo que é um menino e seu pai, quando somos todos nós olhando nossas saudades dentro de um barco.

O narrador desse conto diz sua vida inteira, de menino a homem feito, confessa covardia, faz pedidos pra sua morte, quer terminar no mesmo rio do pai, o que não existe mais, tentando ser perpétua a última tentativa de união.

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é a mulher santa que nunca abandona, que ajudará sempre, minha avó explicava. E eu, tão pequenininha, olhava pra ela pensando se a bichinha não tirava um tempo para brincar, descansar, tomar um picolé de frutas, cochilar na rede, se a vida dela era aquilo mesmo, ajudando aqui e ali quem precisasse. Tentei não dar mais trabalho, tive pena. Eu juro que ainda tento, mas às vezes eu peço socorro - o que não deixa de ser engraçado, pois é meu nome e acabo salvando a mim mesma.

Quem trabalha com palavras vez por outra tropeça nelas, no uso, na lida, na labuta do encaixe de umas nas outras. Pois se minha primeira pedra foi o perpétuo, a última que fez parar o tempo foi essa aqui: extremoso. Era um personagem extremoso, que fazia coisas tão bonitas. Aconteceu em uma linha da minha leitura e fiquei pensando na acepção: ser carinhoso, afetuoso, ter zelo. Quem usou foi Raduan Nassar, que assim como Guimarães Rosa parece escolher os vocábulos como um ourives escolhe os diamantes: na ponta da pinça.

Juntei as duas pontas, juntei o mundo todo e nasceu o Extremoso Perpétuo, o personagem que aprendeu a nunca desaprender o amor. Se eu ainda fosse pequeninha também não conseguiria dizer extremoso e nem importa. Reconheceria o personagem pelo olhar. Isso eu aprendi cedo, ler nos olhos dos outros. É uma das coisas perpétuas que salvam a vida.

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