Tânia Alves
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Tânia Alves é formada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Começou no O PCeará e Política. Foi ombudsman do ornal por três mandatos (2015, 2016 e 2017). Atualmente, é coordenadora de Jornalismo..

Crônica

Uma semana de grandes afetos

Semana Santa, em época de pandemia, significa tempo de lembranças colhidas pela fé e pelos afetos no Interior
Domingo de Ramos na Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Reriutaba
Domingo de Ramos na Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Reriutaba

Por esses dias, tenho tido saudades de tudo que não posso fazer. Mas rumino, especialmente, as coisas simples. Como pegar a estrada de madrugada, ver o sol raiando no horizonte e, em abril como este, mal enxergar o asfalto porque a paisagem ficava coberta de névoa. Foi assim em muitas Semanas Santas entre a Capital e o Sertão. O retorno ao Interior durante o feriado virou uma lembrança boa quando, em nome da saúde, da vida e da solidariedade, você precisa permanecer dentro de quatro paredes.

Nesta Sexta-feira da Paixão, me veio à mente, a rotina doméstica de minha tia que se foi um ano antes da pandemia, e até o último momento permaneceu na fé e esperança. De como ela vivia e amava cada pequeno momento da Páscoa. Na casa de alpendre onde morava, as imagens de santos que coloriam as paredes, permaneciam enfeitadas, ao longo dos anos, com palhas de carnaubeira em forma de cruz, benzidas na igreja no Domingo de Ramos. As folhas eram transformadas em objeto sagrado pelo meu avô. Minha tia colocava uma em cada um dos quadros da parede. Ali secavam e envelheciam criando um espaço bonito em contraste com o branco do cal que chamava atenção para os olhos de uma criança. Foi muito bom ter uma casa de avô, no meio do mato, para ir durante a infância.

Nesta Semana Santa, em segundo ano de pandemia, as lembranças fáceis são dos rituais da fé católica. Cobrir os santos durante a Quaresma, que hoje está em desuso e perdeu o sentido, o lava-pés na quinta-feira, a adoração ao Santíssimo na vigília da madrugada de quinta para sexta-feira, o ato do ajoelha/levanta para lembrar a Paixão de Cristo. Mas também são de gostos, cheiros de comida, histórias e crenças que ouvi e que também reproduzi ao longo dos meus dias.

A saudade boa vem, ainda, dos afetos durante o período. Da troca de gentilezas em forma de “esmolas” que as famílias faziam questão de mandar deixar na casa daquelas amigas ou comadres mais queridas. O queijo coalho, o milho verde, o feijão maduro ainda para debulhar, a melancia, os maxixes colhidos aos montes. Recebiam de volta a goiabada em lata, doces caseiros, macarrão, biscoitos ou um pouco daquilo que tivesse na casa. Nunca esqueço do bolo que minha outra tia fazia e que a gente deixava para comer no café da manhã do Sábado de Aleluia. Eram formas de delicadezas rotineiras, mas que vêm fortes quando a gente não pode desfrutar.

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