Logo O POVO+
Quando a língua abala
Foto de Tarcísio Matos
clique para exibir bio do colunista

Jornalista, compositor, escritor, humorista, cantor e pesquisador da cultura popular. Escreveu várias composições em parceria com Falcão. É autor do livro

Quando a língua abala

Tipo Crônica

Marcelo Vaquejada, amigo de Cedro, conta mais uma daquelas bandas de Ceará Alegre.

- Vô Abel era caba namorador, raparigueiro, e vó vivia pagando no pé. Um dia, ele chegou de madrugada dum samba e, de fininho, pra não acordar o povo de casa, dirigiu-se sorrateiro à alcova. Ocorre que vó, desconfiada, estava à espera pra tirar satisfações. E vó não deixou mais ninguém dormir. Disparou a falar, ininterruptamente, condenando a atitude do marido. Ocorre que tio Chico Velho, rede armada na sala, doido pra dormir, reclamou:

- Pai! Vê se mãe cala a boca uma coisinha!

Vô Abel respondeu, como quem diz "agora tá na casa do sem jeito"...

- Chico Véi, deixa! O 38 da tua mãe é a língua, não fere, mas é tiro pesado!

Se tarifarem o sabugo, lascou!

Procópio Strauss, ultimamente sumido, mandou notícias do mundo de lá, para regozijo nosso. Diz que um sobrinho, Neemias, no "trono", rolo de papel higiênico na mão, encara-o solene e divaga - a ponto de dormir e sonhar, enquanto fazia...

"Novinho em folha esse rolo de papel picotado - amigo íntimo. Parece que nunca vai acabar os 50m prometidos, mas acaba. E limpa suave e perfuma, mas terei de pedir o concurso de uma ducha pra completar a higiene, porquanto sempre restam rastros do que se foi. E me levanto e saio pra trabalhar (na empresa de um primo); volto vexado pra casa (prédio de 20 andares) e de novo me vejo aqui, sentado. Segurando o dito rolo de papel picotado - amigo íntimo, imagino como era no tempo de vô Cormo e de vó Chica, no Sertão Central cearense: o roçado, a firma das labutas; a morada, a casa de taipa humílima; o limpador das partes, o sabugo que desbasta e penteia. Tempo de delicadezas, aquele..."

Falando com quem entende

Novona e bonita ainda, a valorosa Neuma Fanta Uva soube por vizinhos que o marido Diomedes - pulador de cerca inveterado - estava de caso novo com uma criatura de 45 anos no Beco do Cassaco que até filhos homens prometia lhe dar. Não suportando a "arrumação do caba sem vergonha", moral lá embaixo, chama a "famiação" (filhas e genros, sobrinhos e primos, demais parentes) para dividir a novidade já nem tão nova.

Pela primeira vez, botou o marido no centro da sala, cadeiras em redor, como se vê no Roda Viva, e, num grito de socorro brando, começa cautelosamente a exposição:

- Seu Diomedes, seu Diomedes! Chamei todo mundo aqui pra dizer que eu tô sabendo!!!

- Sabendo de que, hômi?

- Dumas histórias acolá! Tô sabendo duma rapariga ali...

- Alto lá, Neuminha! Peraí! De rapariga quem sabe aqui sou eu!

A razão de quem não tem

Tinha já mais de dois anos que Jotinha devia a Machadinho perto de 10 mil contos. Todo santo dia um cobrador na porta do mau pagador. E nada de liquidação do débito. Até que, afobado, o próprio Machadinho foi ao encontro de Jotinha. O credor, aos brados, disposto a começar ali uma mão de tabefe homérica, se necessário, assaca:

- Bora, bora, bora!!! Bora vexado pagar o que me deve!

- Calma, Machadinho, calma!

- Calma?!? Vai 'interar' três anos e não vejo a cor desse dinheiro!

- Você tem razão, Machadinho!

- Eu não quero razão! Quero meu dinheiro!

- Cê tem razão, cê tem toda...

- Pois fique com a sua razão e passe pra cá meu dinheiro!

Foto do Tarcísio Matos

A soma da Literatura, das histórias cotidianas, do humor e da paixão pela escrita. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?