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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

A história se repete

"Um homem sem convicções, sem hábitos, sem tradições, sem nome, e que nem era francês, se destaca, por força do que parecem ser os acasos mais estranhos, entre todos os partidos que se agitam na França e, sem aderir a nenhum deles, é alçado a uma posição de proeminência.

A ignorância de seus camaradas, a fraqueza e a insignificância dos opositores, a sinceridade na mentira e a estreiteza mental inflamada e autoconfiante daquele homem conduziram-no ao comando do exército. (...)

Qualquer coisa que ele faça dá certo. A peste não o abala. A crueldade do assassinato dos prisioneiros não é imputada a ele. (...) Na ocasião em que, já totalmente intoxicado pelos crimes bem-sucedidos praticados por ele e pronto para representar o seu papel, ele chega a Paris sem nenhum objetivo, a decomposição do governo republicano, que o poderia ter destruído um ano antes, tinha chegado agora ao extremo, e a presença dele, um homem alheio aos partidos, agora só pode servir para a sua elevação.

Ele não tem nenhum plano; tem medo de tudo; mas os partidos se apegam a ele e exigem sua participação.

Só ele, com seu ideal de glória e de grandeza (...), com sua louca admiração por si mesmo, com sua audácia nos crimes, com sua sinceridade na mentira - só ele pode justificar aquilo que tem de acontecer.

Ele é necessário na função que o aguarda e por isso, de forma quase independente de sua vontade e apesar de sua indecisão, da ausência de um plano e de todos os erros que comete, ele se envolve numa conspiração cujo objetivo é a tomada do poder, e a conspiração alcança sucesso.

Levam-no à força para uma reunião do governo. Assustado, quer fugir, julgando-se perdido; finge ter um desmaio; fala coisas absurdas que deviam ser sua perdição. Mas os governantes da França, antes sagazes e orgulhosos, agora, sentindo que seu papel terminou, ficam ainda mais confusos do que ele e não falam as palavras que teriam de falar para manter o poder e aniquilá-lo.

O acaso, um milhão de acasos lhe dão o poder, e todas as pessoas, como que numa conspiração, colaboram para ratificar esse poder. Os acasos criam o caráter dos governantes da França de então, subordinados a ele; os acasos criam o caráter do tsar Paulo I, que reconhece a autoridade dele; o acaso cria contra ele uma conspiração que não só não o abala como reforça seu poder."

Os parágrafos acima foram retirados de Guerra e Paz (Cosac Naify, pp. 2328-31, em tradução de Rubens Figueiredo). Duvido que o(a) leitor(a) não veja a ascensão de Bonaparte em brutal similitude com o Brasil dos últimos anos... Há muitos outros pontos visionários na grande obra de Tolstói - que, óbvio, não caberiam neste texto. Cito apenas mais uma frase, boa para uma reflexão de domingo: "Vencerá a batalha quem resolver com firmeza que vai vencer." (p.1612)

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