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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

A mulher que entendeu o tempo

Hoje vou contar a história de uma mulher, uma mulher já idosa, que vive da maneira mais simples, cuidando de sua vida lentamente. Todos acreditam que ela seja assim por causa da idade e porque as dores no corpo já não deixam que se movimente com agilidade. Mas a verdade é que essa mulher há muitas décadas descobriu um segredo sobre o tempo, depois o perdeu e o recuperou de novo. Agora não deixará que ele se perca novamente.

Quando ainda era uma jovem senhora, casada e mãe de dois filhos, essa mulher um dia parou por um momento de fazer todas as atividades que estava acostumada a realizar em sequência. Ela estava sempre cuidando da casa, das crianças ou das tarefas do seu emprego. Às vezes mal lhe sobrava tempo para tomar banho, e ela passava dias sem se olhar direito no espelho, porque outras prioridades e emergências a esperavam, invariavelmente.

Mas, naquele dia, a mulher parou. Deixou de mexer a massa de bolo, sua mão ficou suspensa no ar. O filho caçula gritava no quarto com o irmão, mas ela escutou aquilo como se fosse um som muito distante. Mais perto, bem mais perto, estava o som do seu próprio coração, que ela ouvia agora, como se tivesse posto um auscultador. E ficou tão emocionada como quando ouviu o coraçãozinho dos filhos, nos exames da época em que estava grávida. Ficou mais emocionada, na verdade! Porque é certo que nunca tinha pensado no seu corpo como tendo um coração... uma vida... dentro do tempo!

A mulher passou a atentar para tudo a partir daquele instante. Paralisou diante do copo d'água, contemplando-o. Maravilhou-se com as flores meio murchas na sacada. Ouviu o canto dos pássaros da vizinhança. Tudo aquilo estava ali e ela jamais havia reparado! Ela própria estava ali - e um dia não estaria mais.

O seu estado mágico durou algum tempo, mas logo foi vencido pela rotina. A mulher teve que deixar de lado as suas descobertas, para seguir com o ritmo apressado de sempre, cuidando da casa, dos filhos, do trabalho. E então, muitos anos depois, quando se viu sozinha, aposentada e com bastante tempo livre, ela ouviu dizer que não podia descansar porque senão cairia em depressão. Precisava arrumar um emprego voluntário, fazer parte de agremiações, frequentar clubes... Era um perigo ficar à toa, pensando na solidão e na morte!

Mas o que a mulher fez foi bem diferente. Ela resgatou sua descoberta que lhe dera tanto prazer. Passou a viver com tanta lentidão que conseguia acompanhar o ritmo do próprio pulso - e se alegrava com isso. Essa mulher entendeu o tempo: entendeu que, para viver, o importante é não se distrair. 

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