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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

Deborah B.

Quando conheci o artista Francisco Brennand, sua esposa Deborah, uma importante poeta pernambucana, já havia falecido. E, ao encontrar o gênio que me trouxe a sensação de estar diante de um Monet vivente, eu ainda não sabia nada a respeito da mulher com quem ele havia se casado, muitas décadas antes. Foi somente lendo os diários de Brennand que descobri a poesia de Deborah e caí fascinada.

Os diários, em três volumes, recuperam - com reflexões sobre arte, viagens e política - as aventuras amorosas do autor. Uma lista de mulheres, apreciadas sob os mais diversos comentários (em geral machistas), circula pelas páginas, a partir do período em que Francisco - casado e pai de uma menina - passou uma estada na França. Ele estava no primeiro terço de uma longa vida, e só podemos especular sobre o tipo de acordo em que seu casamento entrou. As amantes de Francisco circulavam às claras; pelo menos a partir de certo momento, não se pode falar de engano, traição.

Quero acreditar que o tempo pacificou sofrimentos, e o casal entrou no estágio de familiaridade que exclui o ardor mas preserva o afeto. A principal pista para esta hipótese encontra-se numa carta que Deborah escreve a seu marido, a respeito de uma casa na cidade de Triunfo. Temos sua reprodução nos diários, e cito aqui o início:

"Esqueça as mulheres. Nenhuma vai suportar. Pense num rude vinho Málaga, esmagado na colheita por uma dança selvagem. Quebre na lembrança cristais e porcelanas e tome o café em caneca rústica numa mesa conventual. Use tachos. Tachos de cobre com as frutas da estação. Mangas e enormes abacates. Não pense em rosas... No máximo aqueles bredos silvestres, boas-noites e trepadeiras entremeando os tijolos vermelhos e os muros de pedras soltas tão comuns à região. O chão é rubro, parece misturado com sangue. Poderia ser uma velha casa inglesa do Yorkshire no verão ou, quem sabe, dos planaltos de Castela, ou o que é mesmo, uma casa sertaneja, sem o aconchego e sem o ordinário conforto, pois que, em se tratando dela, jamais se poderia pensar em heresias tais como: living-art-nouveau-designer-estofados. Entretanto, devido ao frio do inverno assenta-lhe bem ter pesadas mantas sobre sofás de couro e uma maneira digna de viver. A paisagem ao seu redor deixa ver a chuva rachar e as tardes cinzentas pousarem nas muralhas. É triste? Não sei. É bonito? É. É longe? Demais. (...) É casa do passado, com o sótão carcomido e arcos altos, cozinha com nichos abandonados, cavados na pedra. Casa talvez de alguém que nunca escutou a palavra arte mas que viveu no belo. Entretanto, para um desesperado, um fugitivo, um homem que viu guerras, um santo, ou um artista capaz de suportar (evidentemente por loucura) a mais profunda solidão, creio ser este o lugar."

Uma autora capaz de tamanha potência num texto, por assim dizer, caseiro, tem justificadas razões para ser conhecida. Antecipo o momento: comprei seus livros, inclusive o romance epistolar "Tantas cartas" - porque (é claro) a poesia transcende o verso.

 

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