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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

Kronski está ao lado

Por questão de coerência, a obra de Henry Miller é bem-humorada. O famoso autor da Crucificação encarnada não poderia ter escrito tantas cenas eróticas sem injetar-lhes diversão, comicidade até - pois, inspirado na vida, sabia que o sexo (quando bem feito) é festa física, um dos mais intensos modos de celebração sensorial. Mas o riso - de mistura com o sarcasmo e uma ironia finíssima - também perpassa muitos episódios assexuais em seus livros. Henry Miller tinha o dom de caracterizar personagens, destrinchá-los no caráter, revelando seus puros ossos banais. Vejam, por exemplo, como ele fala de certo médico:

"Era Kronski, o grande tipo vivaz, são, jovial, descuidado, despreocupado, que resolvia os problemas de todo mundo. Era capaz de falar durante horas... durante dias, se você tivesse ânimo para escutá-lo. Despertava falando, e em seguida submergia em argumentações rebuscadas, sempre sobre o destino do mundo, sobre sua natureza bioquímica, sua constituição astrofísica, sua configuração político-econômica. O mundo estava num estado desastroso; sabia isso porque sempre estava reunindo dados sobre a escassez de petróleo, ou fazendo investigações sobre a condição do Exército Soviético ou a condição dos nossos arsenais e fortificações. (...) Falava dos abastecimentos mundiais, como se estivesse dirigindo o mundo. Sabia mais de direito internacional que a autoridade mais famosa no tema. Não havia assunto sob o sol do qual não tivesse um conhecimento completo e exaustivo".

Parece familiar? A pessoa que lhe veio à mente pode exercer outra profissão, ou mesmo nenhuma, pode ter gênero diverso, outra aparência e idade - mas é um Kronski se arrota a primazia do conhecimento, a autoridade implacável. Como assinala Miller, "como era possível que o mundo seguisse avançando vacilante, dia após dia, sem o assessoramento do Dr. Kronski, era um mistério que nunca esclareceu. O Dr. Kronski nunca duvidava de sua análise das condições mundiais. Depressões, pânicos, inundações, revoluções, pragas, todos esses fenômenos se manifestavam simplesmente para corroborar seu juízo".

Na internet há gente que sente necessidade de falar sobre qualquer assunto - e publicizar opiniões ou crenças com fatalismo. Parece que a atual vocação da mídia é virar espaço de lições - sem que necessariamente sejam professores os que usam postagens, tutoriais e outros serviços de comunicação. Expõem cada assunto, às vezes em tom de ameaça, impositivo (talvez inventem uma palmatória virtual?) ou sedutor. Mas não me engano com os artifícios: a maior parte do conteúdo está longe de fornecer aprendizado grátis. Há um interesse subjacente, vinculado a vendas, propagandas, captura de dados... E este aspecto não é o mais grave - afinal, parece justo que exista retorno financeiro de algum modo. O problema é quando a internet, no seu uso caseiro, impõe dicas ou vereditos. Alguém generaliza, cria regras, chega a resumos topicalizados sobre a Vida. Eis Kronski bem a nosso lado.

O que Henry Miller diria?

 

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