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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

A Fugitiva

Após quinze meses de confinamento doméstico, estou obcecada: só penso em viajar. Na verdade, vai demorar para que me arrisque a entrar num avião ou num ônibus interestadual, mesmo usando máscaras - porém isso não me impede de elaborar roteiros, saborear nomes de territórios longínquos e sentir um friozinho bom de excitação, enquanto imagino paisagens remotas.

A bem dizer, a paisagem não é tão essencial quanto o movimento - ou seja, a sensação de sair do lugar, buscando aventuras, torna-se a própria noção de viagem, muito mais do que o cenário. Talvez eu deva confessar que cultivo, desde sempre, um fascínio pelos extravios. Quando criança, um depósito de achados e perdidos virou a minha síntese dos destinos cruzados, das possibilidades infinitas que o acaso produz - e na mesma época caí de amores por Houdini, o artista das fugas, que se desvencilhava de todo esforço para mantê-lo estático. O fato de que ele tenha sido também fotógrafo, contorcionista e trapezista só acrescentava motivos para eu ficar apaixonada.

Admiro os fugitivos, sejam eles criminosos ou vítimas. O gesto de escapar é uma expressão de liberdade, sob qualquer circunstância. Há muitíssimas ocasiões em que penso como posso fugir (de regras, padrões, hábitos ou pensamentos) e, embora não me sinta necessariamente oprimida por uma atividade, supor que posso abandoná-la é um salto criativo. De imediato, ganho novas perspectivas ou hipóteses.

Quanto mais essa prática é estimulada, menos se vive no piloto automático. A rotina cria armadilhas, ideias ou ações que se esvaziam na insistência. Tudo isso tem como efeito a tristeza: fazer o que se deve, e não o que se quer realmente (e que às vezes nem conseguimos formular, de tão proibido que ficou o raciocínio livre) gera uma existência amorfa.

Eu me permito perguntar: o que quero agora? - a cada assunto. Invento lacunas para interromper as reações automáticas, e esse é um modo de fugir. Desapareço dos lugares previsíveis, ainda que (na falta de uma variedade geográfica) sejam lugares mentais. Claro que, por estar imersa num sistema social, sou diariamente coagida a executar gestos obrigatórios, considerados "comuns", "normais" ou esperados. Mas não se enganem: por trás do meu tranquilo rosto de concordância, posso ter escapulido para espaços alternativos. Estarei pensando em truques de mágica, ilusionismo - ou, quem sabe, terei sumido por esferas fictícias, rumo a um refúgio temporal onde me considero, de maneira algo proustiana, uma permanente fugitiva.

 

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