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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

O céu dos pintores

1107_V&A DOM (Foto: 1107_V&A DOM)
Foto: 1107_V&A DOM 1107_V&A DOM

Eis uma opção divertida durante passeios de automóvel: adivinhar, pelo estilo das nuvens, o artista que no momento está agindo sobre aquele trecho celestial. Gênios falecidos voltam a criar nessa tela diária, embora efêmera. Com frequência identifico Magritte, os seus harmoniosos flocos brancos sobre um azul típico, embora também apareçam muitas vezes as nuvens gigantescas de Rubens, ocupando o céu de maneira tão convincente que me sinto prestes a ver outros elementos, querubins e demais figuras gorduchas, pairando bem no alto.

O problema dessa pintura é a ênfase monocromática. Contornos de Miró ou Dalí ocasionalmente são percebidos em nuvens mais ou menos estranhas - porém, o fato de que todas sejam brancas ou, no máximo, acinzentadas, prejudica um pouco a interpretação. Alguns pintores que tiveram uma vida de mártir (penso em van Gogh e Frida Kahlo) devem receber tratamento especial. Suponho que o olhar divino lhes reserva o céu durante o amanhecer ou o crepúsculo: assim, podem seguir manipulando cores, esbanjando amarelos, violetas, tons rubros, até verdes.

Em compensação, artistas que foram singularmente pérfidos amargam um castigo. Estão no céu, porque afinal suas obras trouxeram benefícios para o mundo - mas, como atravessaram a fase humana sendo vaidosos, egoístas ou violentos, foram condenados a exibir trabalhos no meio do Atlântico, sem qualquer público, ou, no extremo, produzem no céu de metrópoles, tentando em vão sensibilizar multidões que jamais levantam a cabeça curvada sobre os celulares.

Na literatura, muitos trataram desse tema nebuloso, por assim dizer - e recordo não somente os poetas simbolistas, mas duas autoras insuperáveis: Cecília Meireles, com sua crônica "Exercício nefelibata", e Lygia Fagundes Telles, cuja "Conspiração das nuvens" traz um particular efeito, hoje. Invariavelmente se fala da rapidez com que as nuvens se dissipam e assumem novas formas.

Ora, talvez o seu propósito seja a lição do desapego. As figuras, etéreas, logo se desprendem aos pedaços, viram fiapos gasosos, rasgões abstratos - ou somem num lance de mágica (basta um minuto em que se desvie o olhar). Perdi desse jeito serpentes de Chico da Silva, tempestades de Turner, silhuetas de Remedios Varo... O consolo é que sempre há alguém criando na grande tela atmosférica: num cerúleo homogêneo surge Malevich, que investe no azul sobre azul - ou quem sabe seja Yves Klein refinando a cor que um dia ele inventou.

De todos esses artistas, os geométricos são os mais raros de avistar. Mas se a matéria nebulosa dificulta o trabalho com ângulos, nem por isso os nomes clássicos deixam de ser lembrados num passeio. O estilo de Mondrian surge pelo asfalto: é comum que seus quadrados e retângulos compareçam, reproduzidos nos remendos da estrada.

 

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