Foto de Tércia Montenegro
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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

Desaprender

Em 2019, quando ainda era possível viajar sem máscaras nem medos, eu estive no Uruguai, interessada especialmente em conhecer o Centro de Fotografía de Montevideo. Visitei duas ótimas exposições no local e aproveitei também para adquirir alguns livrinhos na loja especializada. Pois agora chegou o momento de me dedicar a estes exemplares: cada volume da coleção de fotografia contemporânea uruguaia é dedicado a um(a) artista, trazendo um portfólio de sua obra e também uma entrevista. Detenho-me no livro sobre Magela Ferrero, essa autora cujas imagens me deram sensação equivalente à que tenho com as literaturas de Miranda July e Natércia Pontes.

Estamos num universo de pequenas estranhezas. Objetos cotidianos levemente deformados, perturbações mínimas que poderiam passar despercebidas, se o olhar não se detivesse ali. E é bem esse olhar que instaura o fenômeno: a arte (onde muitos poderiam achar que não há tema "suficiente" ou "digno"). O sutil se revela um terreno aberto sobre um precipício; tudo parece frágil, prestes a desabar.

Na entrevista, as palavras de Magela Ferrero confirmam o efeito que sua obra produz. Comenta que o fundamental, para ela, sempre foi uma questão de sentir: "Assim comecei a fazer as coisas, antes de ter outro motivo para fazê-las além do desejo de fazê-las". Esse impulso de agir em busca de um prazer autêntico ("Eu disse a mim mesma: Vou fazer isso sempre, e sempre serei feliz") continuou sendo o seu elemento mais importante. Ainda que o amadurecimento técnico tenha lhe aberto alguns caminhos, Ferrero considera como ele pode ser opressivo: "(...) é preciso ter cuidado com a formação, porque te ajuda em algumas coisas, mas te inibe em outras. E te inibe de tal maneira que depois não podes recuperar".

Um ser criativo é, por excelência, alguém cheio de potencialidades, livre das amarras de modelos, modismos, tendências de mercado... Nesse sentido, Ferrero confessa: "Sabes que há dias em que gostaria de não saber nada outra vez e aprender tudo de volta? Gostaria de trabalhar em desaprender, porque penso que esse momento de adquirir o conhecimento, o estado de deslumbramento, a humildade associada a descobrir algo que não sabíamos, são transcendências que temos que tentar manter vivas."

Desaprender significa abandonar as certezas, dicas e fórmulas de sucesso que andam aos montes por aí. "Às vezes a preguiça me ameaça, e a ilusão de saber de tudo ameaça o encanto. É preciso cuidar do encanto, recuperar essa fé no que não se sabe", diz a fotógrafa. Eu concordo, e repito: buscar o prazer, fazer arte, experimentar o desconhecido - eis uma maneira de se renovar, de ser feliz mesmo sob as adversidades.

 

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