Foto de Tércia Montenegro
clique para exibir bio do colunista

Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

A sombra

Tive pesadelos com as mulheres afegãs. Sonhei que era uma delas, presa debaixo de panos pretos, como um corpo submarino, disforme e reduzido ao contorno sinistro – um volume do qual só escapou uma réstia, espécie de escotilha para a visão.

A burca é o avesso da tarja: oculta tudo, exceto os olhos. Talvez seja um vestuário perversamente fotográfico, que subtrai o indivíduo inteiro, reduz uma mulher a câmera escura, pinhole na ação de eternamente observar, sem nunca ser observada. E cada registro possível cai no esquecimento. Quem se importa com o que as afegãs estão vendo ou vivendo?

A primeira vez que soube de mulheres vestidas assim – num filme do qual guardei apenas esta cena –, pensei que fossem carpideiras, figuras em luto profundo e irremediável. Toda a sua silhueta se resumia a esse coágulo ambulante, um buraco na paisagem, um vazio no lugar de uma pessoa.

Imaginei que também fossem mudas, tristíssimas com a sua não-identidade, seu esconderijo permanente, a caverna de tecidos que carregavam sobre si mesmas, para sair às ruas. Disfarçavam-se de fantasmas, até certo ponto – e eu as via furtivas, anônimas, sempre às pressas e correndo riscos, como se a qualquer instante a sua mínima concessão de movimentos, embora atrapalhada pelo excesso das vestes, pudesse acabar por completo. As mulheres congelariam, desaparecidas ou desabadas sem que alguém nem mesmo distinguisse: era um corpo aquilo, ou um amontoado de casacos, uma trouxa?

No meu pesadelo, não havia talibãs, perseguições ou tiros: somente a roupa que me obrigavam a pôr, como se um longo poço de piche escorresse da minha cabeça aos calcanhares, e assim se fixasse... como se a minha própria sombra, graças a um feitiço, desabasse por cima de mim e nunca mais saísse, como se eu virasse uma rasura, um borrão – e isso, tirando a parte da violência sangrenta, já era bastante terrível. De repente, só me restava um traje obscuro, e eu era esse traje, porque ninguém me descobriria sob ele ou viria me resgatar.

Acordei com um grito. Mas mentiria se afirmasse que realmente acordei. Uma parte de mim continua ali, sufocada pela burca. Em algum lugar do Afeganistão.

 

 

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais