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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

Uma orquestra: biblioteca pública, livros provisórios e a harmonia que ajudo a compor

Tipo Crônica
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A Bece - Biblioteca Estadual do Ceará - reabriu as portas, e isso aumenta minha qualidade de vida. Fico notavelmente mais feliz com a ideia de ter este espaço possível na cidade. Por muito que eu tenha livros em casa, distribuídos por todos os cômodos a me fazer companhia, o relacionamento com os exemplares de uma biblioteca pública traz outra perspectiva.

Para começar, os livros são provisórios, emprestados - o que desperta uma postura de delicadeza. Pego os volumes com cuidado, fico atenta para que não estraguem, vítimas de uma queda ou amassado qualquer. As obras de destino rotativo devem se manter úteis e sedutoras, para futuras mãos. Com meus próprios livros, às vezes me torno desleixada, não porque de fato queira maltratá-los - mas porque estão ali, de modo tão constante, que acabam sofrendo com a familiaridade.

Tenho o hábito de interagir com as páginas dos livros que possuo. Ponho comentários nas margens, grifo, puxo setas para acrescentar alertas... É uma prática que me ajuda na hora de extrair uma passagem para citar, por exemplo, numa aula ou artigo. Além do mais, confesso um sentimento de afeto, ao encontrar, numa época posterior, marcas que deixei de uma leitura. Comovem-me as pistas, os sinais de um trajeto (que às vezes, sequer lembro direito).

 

"Entretanto, quase tão importante quanto o acervo de uma biblioteca é o seu clima. Por causa da atmosfera de partilha intelectual, gasto horas lendo nesses locais mesmo, em vez de apenas escolher uns títulos e levar para casa"

 

Um livro público não pode ser riscado, individualizado: deve-se preservar nele a estrada de leitura limpa. Essa contenção, porém, tem o seu proveito. A ideia de que logo devolverei o exemplar me põe atentíssima, e geralmente carrego tais leituras de modo bem definitivo, na mente. Quando há um trecho imperdível, que preciso guardar comigo para sempre, simplesmente o anoto numa caderneta: fica até mais fácil de reler, mais disponível que os sublinhados nos meus livros particulares.

Entretanto, quase tão importante quanto o acervo de uma biblioteca é o seu clima. Por causa da atmosfera de partilha intelectual, gasto horas lendo nesses locais mesmo, em vez de apenas escolher uns títulos e levar para casa. Existe um ritmo cúmplice, uma espécie de música que vibra quando várias pessoas estão unidas, numa sala de leitura. É algo absolutamente distinto do ruído das ruas, onde as mentes se cruzam em barulhos díspares, angústias, pressa...

Numa biblioteca, eu me sinto alguém que ajuda a compor certa harmonia estrutural: como os demais, folheio exemplares e passeio discretamente entre as estantes, antes de selecionar o que me interessa. Então, sentada em absoluto aconchego, acontece de eu erguer os olhos para pensar melhor sobre a frase que acabei de ler. Nesse momento descubro os outros leitores, em atitudes semelhantes à minha, espalhados pela sala em silêncio. Cada qual experimenta o seu livro, como quem treina um instrumento secreto - e aí, nesse nível sutil das energias, percebo que integramos uma orquestra.

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