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Autora dos romances Turismo para cegos e Em plena luz, dentre outros títulos. É também fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Adora gatos, viagens e acredita cada vez mais no poder da arte.

Constatação

Tipo Crônica
Ilustração Carlus Campos (Foto: Carlus Campos/O POVO)
Foto: Carlus Campos/O POVO Ilustração Carlus Campos

A desgraça faz sucesso.

Quem constata o pior geralmente tem razão - e talvez seja isso o que leva tanta gente a repetir os dados negativos da realidade, com suas consequências sinistras. Os números não mentem: o planeta vai se acabar. Os cientistas já provaram que a humanidade está longe de encontrar soluções eficazes para os problemas com combustíveis fósseis, poluição, efeito estufa, degradação da biosfera...

As estatísticas apavoram.

É bom estar correto e lúcido - mas ainda melhor é ser feliz, o que só se consegue, creio, com certo grau de distância dos temas cruéis.

Entretanto, há um lance psicológico em jogo, certa aura circunspecta que envolve os comprometidos com a fatalidade: essa postura inibe aborrecimentos, solicitações. Quem tem coragem de incomodar um infeliz? Sua desolação o protege de ser requisitado, porque afinal todo assunto parece mesquinho diante das catástrofes planetárias.

Como se pode exigir um gesto cotidiano a alguém tão austero, tão preocupado com as grandiosas ameaças da política? Como se ousa perturbar os pensamentos aflitos sobre tantas desgraças mundiais, solicitando, por exemplo, que a pessoa faça um serviço doméstico, que pare de citar a crise hídrica ou o aquecimento global e em vez disso cumpra o prazo de um trabalho?

Parece quase herético pedir coisas mínimas a quem sofre em larga escala... e dessa maneira o catastrofista se exime dos atos. Já suporta o suficiente: é o que seu rosto sugere, sempre com a expressão fechada. Não lhe digam para perder tempo com bobagens - ele carrega a função de se preocupar com o mundo inteiro e lançar os alertas finais! O problema é que, de maneira bem direta, a sua atitude não serve para nada. Ou melhor, serve, sim, para mantê-lo no comodismo de evitar qualquer esforço prático - além de angariar o respeito dos que acham que ele é muito "sério" e "consciente" dos fatos...

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