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Veganismo e a cultura alimentar cearense
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Antropóloga, pesquisadora de culturas alimentares, doutoranda UFBA e Coordenadora de Cultura Alimentar e Pesquisa da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco

Vanessa Moreira gastronomia

Veganismo e a cultura alimentar cearense

|ANÁLISE e formação|
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Restuarante Mandir ofecere menu todo voltado aos veganos (Foto: JÚLIO CAESAR)
Foto: JÚLIO CAESAR Restuarante Mandir ofecere menu todo voltado aos veganos

Tem sido cada vez mais comum encontrar, nos cardápios de restaurantes, opções sem carne, sem lactose ou sem glúten. Elas respondem a restrições de saúde, escolhas de estilo de vida ou posicionamentos éticos. Com mais acesso à informação, ampliam-se as possibilidades de pensar o que se come e por quê.

O mercado acompanha essas mudanças, evidenciando que a cultura não é um conjunto fixo de hábitos. Nossas práticas alimentares herdadas se mantêm vivas justamente porque se transformam. Houve um tempo em que ostentar animais inteiros e grandes à mesa era sinal de status. Hoje, mesmo entre carnívoros, parece haver um desejo crescente de distanciar o animal daquilo que se come, revelando novas formas de relação com o alimento e sensibilidades contemporâneas.

Falar de cultura alimentar cearense costuma nos levar, quase automaticamente, às carnes que historicamente ocuparam o centro do prato, chamadas de "mistura". No entanto, esse repertório vem sendo reconfigurado. No Ceará, surgem adaptações em forma de moquecas, lasanhas, paneladas e escondidinhos vegetais, coxinhas de cogumelos, jaca, caju, grão-de-bico, além de doces preparados sem leite e ovos.

Nas minhas pesquisas, o veganismo aparece menos como uma dieta e mais como uma prática cultural, atravessada por valores, espiritualidades, preocupações ambientais e escolhas de consumo que ultrapassam o prato. Em Fortaleza, esse debate não é recente. Há décadas, o Movimento Hare Krishna introduz práticas alimentares ovolactovegetarianas, nas quais o comer se relaciona com ética, cuidado e espiritualidade. As refeições oferecidas nesses espaços alimentam o corpo, mas também expressam uma relação com o sagrado, assim como o pão e o vinho no catolicismo.

Na paisagem gastronômica de Fortaleza, os primeiros restaurantes vegetarianos, como o Mandir e o Centro Aquariano, inauguraram cardápios inteiramente sem carne de origem animal e ajudaram a formar um público interessado em uma comida associada à saúde, ao equilíbrio e à autoconsciência, muito antes de o veganismo se tornar tendência. Ainda assim, mesmo sendo a quarta maior capital do país, Fortaleza passou décadas sem ultrapassar uma dezena de restaurantes exclusivamente vegetarianos ou veganos, como Terrana, Annapurna, Pachamama, Malagueta, Le Gumes, Green Veg e Mercado Saudável.

Nos últimos anos, esse universo se ampliou. Estabelecimentos convencionais passaram a oferecer opções à base de plantas, explorando legumes, raízes, castanhas, cogumelos e fermentações. A comida feita sem ingredientes de origem animal, também chamada de plant based, passa a ser criativa e dialoga com referências dos hábitos alimentares locais.

O veganismo, nesse sentido, não elimina a cultura alimentar cearense: ele a tensiona, amplia e atualiza, ao substituir carnes e produtos de origem animal por ingredientes vegetais, sem romper com referências tradicionais e simbólicas da comida local.

É nesse contexto que a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco lança o curso de Cozinha Vegana, reafirmando sua atenção à relação entre tradição e inovação. A formação propõe uma cozinha vegetal que dialoga com a cultura alimentar local, valoriza ingredientes e saberes do território e reinventa a gastronomia e as formas de comer, incorporando questões éticas, sociais e ambientais.

Se a cultura alimentar é um espelho do nosso tempo, o crescimento da comida plant based no Ceará revela menos uma ruptura e mais um rearranjo de sentidos. Entre tradições e escolhas, surgem novos requisitos. E o que hoje parece exceção pode, em breve, ser apenas mais uma forma legítima de comer de modo saboroso, sustentável e saudável.

 

Foto do Vanessa Moreira

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