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Zenilce Vieira Bruno é psicoterapeuta de adolescente, adulto e casal, especialista em educação sexual e membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. Escritora, é autora dos livros

Zenilce Bruno comportamento

Inquietação desejante

Tipo Opinião

É paradoxal a ideia de escrever sobre o desejo, porque dele é dito que é algo sobre o qual não se sabe. Melhor dizendo, não sabemos o que desejamos.

Mesmo assim, são muitas as falas sobre o tema e não se esgotam as peripécias linguísticas para esboçar essa face humana. Escrevemos e falamos sobre algo obscuro, sobre essa força intensa que move o espírito humano.

A ânsia de escrever sobre isso, corresponde à vontade de escrutinar em nós próprios os caminhos do que ainda não alcançamos, não experienciamos, numa fome de saber e sentir o que se esconde mais além do ponto até então conhecido, vivido, experimentado.

Falamos da contingência do desejo. E é desse desejo que surgimos. Não somos filhos do necessário, mas do desejo.

Sob o signo do maravilhamento, nós enxergamos belo, grande, fantástico. Escutamos o discurso das estrelas, fazemos o gesto cósmico de apanhar a lua para oferecê-la ao ser amado, como quem oferta algo muito além de si mesmo.

Envelhecemos quando não somos mais capazes desses gestos, razão por que alguns adultos irritam-se com a mente enluarada dos adolescentes.

Ante o universo enlouquecido de emoções desencadeadas, quando duas pessoas se buscam, se atraem, se tocam, se gostam, somos tentados a exercer controles. Interrogamo-nos quais os limites do permitido e do proibido nesse avanço de toques e descobertas inevitáveis.

É preciso não impedir os gestos espontâneos do desenvolvimento, porque o importante não é tanto o que fazemos à pessoa, mas o que não lhe retiramos. O acerto em nós estará nessa capacidade de acompanhar o fenômeno da vida e evitar interferências desnecessárias.

Realizar o desejo, implica tornar realidade aquilo que está na fantasia. O que o desejo humano deseja é possuir o desejo do outro, é ser desejado ou amado pelo outro, é ser reconhecido em seu valor humano.

Por isso, quando se perde um amor, o que se perde mesmo é o desejo do outro por nós. Daí é tão intensa a ferida narcísica que a perda provoca.

Desejamos porque não nos bastamos, porque uma agonia íntima de ser só quer alívio. Acuados, buscamos esse outro, um sujeito que também não se contém em sua inquietação desejante.

É interminável o universo de reflexões que se pode tecer acerca do desejo, ilimitados são os objetos que tentam satisfazê-lo, como infinita é a ânsia do outro que ele provoca.

Fascina-me transpor o real para tentar encontrar dimensões mais reveladoras do humano. Talvez seja pouco útil meu discurso para quem busque apenas aplicações de ordem prática.

Mas penso como Bachelar: "O homem é uma criação do desejo, não uma criação do necessário".

Gosto da emoção de cascavilhar a coisa simples, complexa e fantástica que é a descoberta do sexo e do amor como alquimia, algo misturado à vida, magia da sensação que dormita a nossa pele, no aguardo do nosso próprio acordar sensório-existencial. Fascina-me dizer que a sexualidade que se ensaia no adolescente, ou esta que vivemos como adulto, será plena, e plena em sua metáfora suprema: a sedução do outro, o encontro com seu mistério, sem jamais desvendá-lo. n

 

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