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Entardecer a vida
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Zenilce Vieira Bruno é psicoterapeuta de adolescente, adulto e casal, especialista em educação sexual e membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. Escritora, é autora dos livros

Zenilce Bruno comportamento

Entardecer a vida

Como o pôr do sol, o entardecer da vida pode ter muitos encantos. A construção que fizemos nessa passagem pela vida, é que dará sustentabilidade, alegria e beleza ao amadurecer. Isso não se improvisa, a gente constrói desde a infância
Imagem mostra a Ponte dos Ingleses com o pôr do sol ao fundo  (Foto: Clemilton Barreto)
Foto: Clemilton Barreto Imagem mostra a Ponte dos Ingleses com o pôr do sol ao fundo

O pôr do sol é bonito, porque é efêmero, se fosse permanente nos cansaria. Nada permanece belo definitivamente, tudo termina, até mesmo um beijo ardente. Imaginemos por um instante, que o sol jamais vai se pôr, ou que nossa vida jamais terminará. Como nos comportaríamos, como nos sentiríamos em relação a este dia eterno e em relação à vida sem fim.

O que neles poderíamos apreciar em sua definitiva repetição? É a alternância que nos possibilita tanto o amanhecer como o anoitecer. Assim também é a vida. Ela é bela em sua diversidade e temporalidade. É nessa provisoriedade que nos esforçamos para lhe dar sentido e prazer.

Tenho pensado muito nisso, particularmente nos últimos tempos o dia tem sido curto para o tanto de vida que quero viver e para o tanto de amor que quero dar. Parece que quando ficamos mais velhos, começamos a escrever as tais cartas de amor ridículas, subimos nos telhados, contamos a todos sobre o nosso amor, pedimos ajuda, imploramos perdão, prometemos mudanças e até conseguimos muitas vezes, mas em outras o sol se põe mais cedo do que esperávamos e perdemos o que achávamos ser a nossa última chance. No entanto, para nossa grata surpresa num outro dia o sol volta a brilhar.

Como o pôr do sol, o entardecer da vida pode ter muitos encantos. A construção que fizemos nessa passagem pela vida, é que dará sustentabilidade, alegria e beleza ao amadurecer. Isso não se improvisa, a gente constrói desde a infância, porque não há alegria do nada, mas do saldo de uma construção cuidadosa do sentido de nossa vida.

O pôr do sol tem cheiro de saudade sim, mas é um privilégio ter do que sentir saudade. O que a memória ama, fica eterno, diz Adélia Prado. Fica eternizado em nossa memória, aquilo que construímos amorosa, ética e dignamente em nosso existir.

Há certa experiência de vazio em nós que só se preenche com o sentido que damos à vida. Esse sentido terá de ser dado aos pequenos fatos do cotidiano, e até mesmo ao sofrimento. É sábio compreender que ele nos transforma, possibilita-nos crescimento, beleza interna e maturidade.

Melhor que banir o sofrimento, que nem por isso se vai, seria acolhê-lo, crescer e aprender com ele. Isso seria sábio, assim como compreender e amar a vida que existe no aqui e agora, no tempo em que se vive. Na verdade, a gente só pode ser feliz agora. Ontem se foi e amanhã é talvez. A chance de ser feliz é agora ou nunca.

Sabedoria não depende de sabermos muitas coisas, mas de vivermos com intensidade, pequenas e frequentes oportunidades a que a vida nos expõe, sem deixá-las passar em branco. É possível retirar desses momentos a lição e a cota de felicidade que eles escondem. Nos fragmentos do cotidiano podem estar contidos preciosos retalhos da vida, que não temos o direito de desperdiçar. Não posso mais perder nada e nem ninguém sem amá-los e sem me deixar amar.

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