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Presente de Natal

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Rodrigo Mota, 40, perdeu pai e mãe para a Covid-19  (Foto Deisa Garcêz/Especial para O Povo) (Foto: Deisa Garcêz/Especial para O Povo)
Foto: Deisa Garcêz/Especial para O Povo Rodrigo Mota, 40, perdeu pai e mãe para a Covid-19 (Foto Deisa Garcêz/Especial para O Povo)

É um presente recíproco, acredita Rodrigo Barbosa. Onde quer que estejam, seus pais devem ter enviado o pacotinho. Mas, foi ainda em vida que Carlos Alberto Barbosa, uma das 100 mil vítimas da Covid-19, pediu à Rodrigo um neto. Sentados na praça de alimentação de um shopping da Capital, Carlos pediu o presente de Natal. Era 25 de novembro, aniversário de Maria de Fátima Mota Barbosa - mãe de Rodrigo, também vítima fatal da pandemia. Rodrigo e a esposa Roberta planejavam a criança para próximo ano. Perder os dois pais para o coronavírus o deixou mais abalado do que podia suportar, mas receber a notícia de que seria pai no meio desse contexto revelou um misto curioso de emoções.

“A expectativa é grande. Quando soube, fiquei feliz e ao mesmo tempo preocupado por causa da Covid. Meus pais queriam muito ter um neto, eram loucos por crianças. Foram eles que mandaram para a gente”, acredita Rodrigo. A história começa ainda em março, dias após seu aniversário de 40 anos, em 8 de março. Tempos depois, o pai de 76 anos foi diagnosticado com o novo coronavírus. Fátima, a mãe, ligava preocupada para os dois filhos, contando que Carlos saíra mais uma vez. “Meu pai era muito inquieto, teimoso. Ele foi internado e três dias depois foi minha mãe”, explica.

Cardiopata, Carlos já estava com a saúde debilitada. Faleceu em 19 de abril. No dia anterior, os filhos até receberam notícia de sua recuperação, mas o alívio não durou. Exatamente um mês depois, 19 de maio, Maria de Fátima, 66 anos, também faleceria. Entubada há mais tempo, morreu sem saber que o companheiro partira primeiro.

“No começo, depois que eles faleceram, até sonhei com os dois. A gente sente muita falta. Domingo agora é dia dos pais e não sei como vai ser. É também o meu primeiro”, relata Rodrigo. A família passou Ano Novo e Carnaval reunida. É o que conforta o coração do filho: saber que os últimos meses foram bem aproveitados com os pais. Viajar, inclusive, era coisa que o casal adorava fazer. “Eles eram muito extrovertidos, alegres, comunicativos, companheiros. Eram minha ponte. Agora é saudade”, descreve.

O “presente de Natal” deve chegar em fevereiro do próximo ano. Os nomes já foram escolhidos: Maria Raquel, se for menina, ou Miguel, se for menino. O pai torce para ser menina, como sua mãe também queria. “Quero estar mais unido com a família, que tenhamos mais carinho pelo outro”, pede. Com a rotina mudada pela pandemia e pela gravidez de Roberta, os dois têm dobrado os cuidados. Na próxima semana, deverão saber se esperam por Raquel ou Miguel.

Despedida confusa

O que Rodrigo Barbosa e seu irmão Rogério jamais irão esquecer, para além da dor de perder os pais, é a confusão durante a despedida de Carlos Alberto. Após o enterro pela manhã, descobriram que o hospital havia trocado os corpos. Rezaram para um desconhecido. Só de tarde conseguiram recuperar o corpo de seu pai, mas já não era a mesma coisa. “A família está revoltada. Eu nunca passei por isso na vida. Ver meu pai ser enterrado da forma que foi, sem homenagem, sem missa… A gente nem acredita”, desabafa Rodrigo. Com os pais hospitalizados, ele mal acompanhava o noticiário sobre a pandemia. Mas, saber que Carlos e Fátima são umas das 100 mil vítimas da Covid-19, reabre a ferida. “É uma dor para o resto da vida. Só espero que tudo isso acabe”, finaliza. (Gabriela Feitosa/Especial para O POVO)

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