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Com Ômicron e epidemia de Influenza, pesquisadores alertam do risco para crianças

Dos 68 casos de Influenza A H3N2 registrados no Ceará, 26,4% (18) são de crianças de zero a nove anos, conforme Painel Viral da Sesa. Faixa etária ainda não foi vacinada contra a Covid-19
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HIGIENE das mãos é uma das medidas para prevenir a Covid-19 e a Influenza (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil HIGIENE das mãos é uma das medidas para prevenir a Covid-19 e a Influenza

A introdução da variante Ômicron do coronavírus e a epidemia de Influenza A que vem sendo registrada em diversos estados brasileiros alerta para o aumento dos riscos para crianças. Apesar de não comporem grupo de risco para Covid-19, elas podem ir a óbito pela doença. Além disso, não estão vacinadas. No caso das gripes "comuns", as crianças já são consideradas grupo mais vulnerável. 

No Ceará, pelo menos 50 crianças de zero a nove anos foram diagnosticadas com o vírus Influenza A. Destas, 18 estão com o subtipo H3N2. A quantidade corresponde a 26,4% do total. Ao todo, o Estado já confirmou ao menos 271 casos de Influenza A, dos quais 68 são de H3N2. Os dados são de Painel Viral, atualizado nessa segunda-feira, 27, disponível no IntegraSUS, plataforma da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa).

No Ceará, pelo menos 129 crianças de até nove anos morreram por complicações do coronavírus. Desde o começo da pandemia, a infecção matou uma criança de cinco a 11 anos a cada dois dias no Brasil. A chegada da Ômicron faz das crianças grupo mais vulnerável para a infecção, o que já vem sendo observado em outros países.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a vacinação de crianças de cinco a 11 anos no último dia 16. A previsão é que a imunização dessa faixa etária tenha início no próximo mês de janeiro.

Conforme o infectologista pediátrico Robério Leite, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e diretor da Regional Ceará da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm-CE), como as coberturas vacinais para Influenza estão baixas também para as crianças, "o cenário é preocupante". "Se as crianças não forem protegidas para as duas doenças, teremos mais casos graves, tanto de Covid-19 como de gripe", alerta.

Ele criticou os entraves colocados à vacinação das crianças pelo Ministério da Saúde. "Lamentável que as famílias que perderam suas crianças na pandemia tenham tido que ouvir uma declaração de indescritível falta de empatia e de sensibilidade, partindo da maior autoridade de saúde pública do Brasil", disse o médico, que atua no Hospital São José de Doenças Infecciosas. 

O cenário indica que é preciso ficar em alerta para essa população, aponta a virologista Luciana Costa, professora do Instituto de Microbiologia e do Laboratório de Genética e Imunologia das Infecções Virais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Se houver aumento de circulação dos vírus, "esse é o grupo que deve ser mais monitorando porque seria, sem dúvidas, um grupo mais vulnerável". Segundo ela, cenário deixa claro que é preciso começar a vacinar "logo" as crianças contra a Covid-19. 

Michelle Pinheiro, infectopediatra do Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), pondera que "as crianças podem apresentar quadros mais brandos ou até assintomáticos da Covid-19 mas são transmissoras da doença". Com o momento de alerta para a nova variante Ômicron e o aumento dos casos de influenza, "a população em geral deve manter os cuidados para evitar disseminação viral". 

Ela destaca que os pais devem ficam alertas aos sintomas. "Em caso de criança sintomática: isolar a criança, evitar contato com os demais grupos de risco e se tiver sinal de gravidade procurar atendimento médico". Além disso, não esquecer o uso de máscara, higienização das mãos, evitar aglomeração e "manter a caderneta vacinal atualizada principalmente para influenza e Covid-19 se a faixa etária já for contemplada com a vacina".

Influenza 

Pelo menos 17 estados brasileiros estão enfrentando epidemia de gripe, como o Ceará. A H3N2 e sua variante Darwin são uma das principais preocupações com relação ao aumento de síndromes gripais. A vacina contra a gripe aplicada no Brasil protege contra três tipos de vírus: Influenza A H1N1, A H3N2 e Influenza B.

Contudo, uma nova cepa do vírus A (H3N2), que é denominada de linhagem Darwin, ainda não está na composição da vacina que foi aplicada neste ano. Ela foi recém-descoberta na Austrália e está prevista para entrar na próxima reformulação vacinal, em 2022.

Segundo a Fiocruz, embora possuam diferenças genéticas, todos os tipos de vírus Influenza citados podem provocar sintomas parecidos. São eles febre alta, tosse, garganta inflamada, dores de cabeça, no corpo e nas articulações, calafrios e fadigas. Que também podem ser confundidos com os sintomas da Covid-19.

O aumento de síndromes gripais nesse período do ano é incomum e pode estar associado à baixa adesão à campanha de vacinação desse ano, à circulação reduzida do vírus Influenza em 2020 e ao relaxamento de medidas de proteção, como uso da máscara, distanciamento social e higienização das mãos.

Aumento de casos pode resultar em coinfecção

O aumento da circulação de mais de um tipo de vírus respiratórios que aparecem majoritariamente na mesma época, não é rara a ocorrência de coinfecção. Ou seja, uma pessoa se infectar com dois ou mais vírus ao mesmo tempo. No Ceará, ainda não houve registro de coinfecção por coronavírus e Influenza ao mesmo tempo, conforme a Coordenadoria de Vigilância Epidemiológica e Prevenção em Saúde (Covep) da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).

No último dia 18, Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap) confirmou o primeiro caso de coinfecção de Sars-CoV-2 e Influenza A H3N2.

Segundo a virologista Luciana Costa, professora do Instituto de Microbiologia e do Laboratório de Genética e Imunologia das Infecções Virais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pela via de transmissão ser aérea, há possibilidade de entrar em contato com mais de um vírus a qualquer momento.

"Pode ser ao mesmo tempo ou em tempos distintos mas que vão coincidir dentro de uma janela de tempo. Se um vai ser o principal determinante dos sintomas, a gente ainda não tem como afirmar para a maior parte dos casos", explica.

Segundo a pesquisadora, a preocupação a respeito da coinfecção da Ômicron com Influenza aumenta à medida em que a circulação dos dois vírus crescer em um mesmo local ao mesmo tempo. Ela afirma que ainda não é possível definir se há risco de agravamento no quadro clínico em caso de ocorrência de infecção dupla.

"Nessa situação, temos dois agentes desafiando nosso sistema imunológico e promovendo inflamação no trato respiratório, o que tende a ser bem pior", argumenta Robério Leite, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), infectologista pediátrico do Hospital São José e diretor da Regional Ceará da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm-CE).

Na análise do médico, a preocupação é grande, sobretudo pelo fato de a cobertura vacinal contra Influenza ter sido baixa este ano e parcela significativa da população não ter se imunizado contra a Covid-19.

Só é possível identificar uma coinfecção por meio de testes laboratoriais. "Já existem painéis laboratoriais que detectam vários agentes infecciosos respiratórios simultaneamente", diz.

Os grupos de maior risco de coinfecção são crianças e idosos, por causa do Influenza. "Para Covid, os grupos de risco são muito mais abrangentes, envolvendo outros fatores como comorbidades", alerta a virologista Luciana Costa. (Ana Rute Ramires)

 

Países

Ao menos 15 Países já estão vacinando crianças contra a Covid-19. Entre eles estão: Alemanha, Argentina, Áustria, Canadá, Chile, China, Cuba, Estados Unidos, França e Portugal.

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