"Algumas pessoas podem achar estranho que o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC) esteja envolvido na criação de um curso que trata sobre produção artística dentro de uma favela. Estranho é que o Ministério dos Direitos Humanos não tenha feito isso antes".
A frase é do ministro Silvio Almeida, titular do MDHC, dita nessa quarta-feira, 3, em Fortaleza, durante a entrega do certificado de formação de 15 alunos no curso de "Introdução à produção de eventos e direção de palco". A solenidade ocorreu na sede da Central Única das Favelas (Cufa) no bairro Barroso.
O curso foi uma das capacitações ofertadas pelo projeto Estação Favela, que será desenvolvido até a metade de 2025 em parceria entre o Ministério, a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Cufa. Há outras em andamento ou já programados nas áreas de empregabilidade, liderança comunitária, acesso à tecnologia e educação financeira.
Os 15 concludentes, com idade entre 19 e 45 anos, são moradores da comunidade Poço da Draga. Após 60 horas/aula de conteúdo teórico e prático, agora estão aptos a atuarem profissionalmente na organização de eventos. O diploma é concedido pela UFC, reconhecido como extensão universitária. Há uma turma do Barroso sendo preparada no mesmo curso.
A comunidade do Barroso é a mesma onde, 12 dias atrás, houve uma tentativa de chacina. Uma mulher de 48 anos e um menino, de dez anos, foram mortos a tiros e outras oito crianças e adolescentes, entre 8 e 16 anos, ficaram feridos. O crime aconteceu no entorno da areninha do bairro. Um menino e dois adolescentes permanecem internados no Instituto Doutor José Frota (IJF), no Centro.
"Não tem política de direitos humanos sem segurança pública, só que o contrário também é verdadeiro. Não tem direitos humanos sem uma política de segurança pública que proteja de fato as pessoas", destacou Almeida. "Vocês estão aqui estudando, então vocês estão realizando o que de mais importante há na política de direitos humanos. É proteger as pessoas, é para não deixar que as pessoas sejam torturadas, sejam mortas".
"Querendo ou não, infelizmente a gente da comunidade, mesmo já trabalhando, fazendo a ativação da produção, não tem o conceito total que é um certificado. E está sendo uma diferença e uma oportunidade muito grandes ter esse certificado reconhecido", disse Thalita Silva, 26 anos, conhecida como Negritta no meio artístico e cultural. "O plano agora é conquistar o mundo. Faltava só o certificado real oficial. Hoje eu tenho, graças à Cufa e à UFC. Agora é só botar em prática mais ainda".
O pensamento é semelhante ao de Ronaldo Machado, o Roni, de 28 anos. "Ter um papel dizendo que eu posso trabalhar como produtor, para mim já diz demais. Porque a gente vive numa sociedade que tudo tem que se comprovar. Fui com o objetivo de me inserir no mercado. Observava esse mercado por fora, não por dentro. Pretendo seguir a carreira de produtor". Os alunos visitaram equipamentos culturais locais, acompanharam a produção de espetáculos, viram desde a montagem de luz e áudio ao trabalho de direção. "Vimos como o produtor tem que ficar ligado toda hora para ser solicitado", disse Roni.
As áreas ofertadas foram sugestões colhidas nas comunidades. Também estão definidos ou próximos de conclusão os de Educação e Gestão Financeira de Pequenos Negócios, Formação em Vendas, Estudo de Editais de fomento à cultura e elaboração de projetos criativos, Fotografia com celular, de artes visuais com grafite, Formação em liderança comunitária, Redes sociais, Desenvolvimento web (programadores full stack) e Agentes de crédito orientado a pequenos negócios.
A entrega dos certificados teve a presença da reitora em exercício da UFC, Diana Azevedo, e do diretor da Cufa-RJ, Preto Zezé. A atividade fez parte da agenda de dois dias do ministro no Estado. Ainda nesta quarta-feira, Sílvio Almeida, que é paulista, recebeu o título de Cidadão Cearense, em sessão na Assembleia Legislativa. Na tarde desta quinta, ele participa do ato que oficializa a adesão do Ceará no Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o programa Novo Viver sem Limite. (Colaborou: Rogeslane Nunes/Especial para O POVO)
Ministro Silvio Almeida recebe título de cidadão cearense
Em cerimônia repleta de música, poesia e referências literárias, o ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, recebeu, nesta quarta-feira, 3, o título de cidadão cearense, horaria aprovada pela Assembleia Legislativa (Alece), a partir de um requerimento de autoria dos deputados Evandro Leitão (PT), Renato Roseno (Psol) e Larissa Gaspar (PT).
O ministro se soma aos outros ministros da atual gestão de Luiz Inácio da Lula Silva (PT) que também receberam o título, como José Múcio, da Defesa, Flávio Dino, quando ainda era titular da Justiça, Alexandre Padilha, titular das Relações Institucionais e Renan Filho, dos Transportes.
Silvio ressaltou que a condecoração era "uma das maiores honrarias de sua vida" e apontou, em seu discurso, sobre os feitos de cearenses. "Aprendi com muitos amigos cearenses, que todo filho e filha dessa terra tem um orgulho danado de ser cearense. Todos que conheci têm prazer em falar e louvar sua terra", afirmou.
Em reflexão, o ministro citou o legado deixado por nomes como Capistrano de Abreu, Rachel de Queiroz, José de Alencar e Belchior na formação do País. Ele destacou ainda a participação do Ceará na história brasileira, com foco na antecipada abolição da escravatura. Sua fala também mencionou seu antecessor como ministro, Mário Mamede, titular entre 2005 e 2006.
O atual ministro agradeceu pelos esforços e mandou recados ao comentar a "exceção" de um nome. "Eu queria dizer isso, com exceção de uma pessoa, porque, na verdade, o maior trabalho que eu estou tendo hoje é para consertar aquilo que foi destruído por uma pessoa que meus ancestrais disseram para não falar", disse, em possível referência a hoje senadora Damares Alves (Republicanos-DF).