Os pombos domésticos, também chamados de pombos-comuns, viraram parte da paisagem em áreas centrais de Fortaleza, como Praça do Ferreira e Praça da Sé, além de pontos turísticos como as praias de Iracema e do Futuro.
Consideradas por muitos como “pragas urbanas”, pombos podem ser vetores de doenças. Especialistas, contudo, apontam que o problema não está exatamente na presença de pombos, mas nas condições ambientais que favorecem sua reprodução e concentração no meio urbano.
LEIA TAMBÉM | Praça do Ferreira reabre ao público após obra de requalificação
Recém-inaugurada após reforma, a Praça do Ferreira, no Centro, é um dos pontos da Capital onde pombos dividem espaço com os transeuntes. Agora, porém, a presença das aves é menor do que antes da intervenção. Mesmo assim, ainda é possível observar alguns pombos, que se revezam entre o alto dos prédios do entorno e o piso da praça.
Para o aposentado José Ademir, que frequentemente passa pela Praça do Ferreira, os pombos estão ali devido o fácil acesso a alimentos. “Às vezes, eu passava e via o pessoal dando alimento, deveria ser ração. Só que esses pombos dão doença, né? Antigamente ninguém sabia disso, mas hoje já é bem conhecido”, comenta.
Ele diz acreditar que deveria haver uma ação de controle dos pombos. “Acho que tem que ter um cuidado para eles não se multiplicarem aqui. Eu acho que é uma responsabilidade da Prefeitura. Era para existir um departamento responsável por toda essa questão”, afirma.
Nem todos, porém, veem a presença de forma negativa. O aposentado Osvaldo Mota Rodrigues, 72, gosta de pombos. Para ele, os riscos à saúde relacionados as aves estão associados às condições do ambiente urbano.
“Dizem que pode fazer mal à saúde, mas só esses que vivem na rua, porque o pombo de rua se alimenta de tudo que vê. Mesmo assim, acho que a natureza deve ser respeitada, e os pombos têm o direito de viver a vida deles também. Em alguns países de fora são até respeitados", afirma.
Na Praça da Sé, próxima à Catedral Metropolitana de Fortaleza, a movimentação dos pombos parece variar conforme o fluxo de pessoas. Na manhã desta quarta-feira, 3, havia quase nenhum em solo, apesar de ocasionalmente aparecerem no topo do templo religioso.
O vendedor de bebidas Francisco Júnior, 25, explica que o comportamento dos pombos muda conforme o dia. “Hoje teve feira, então tem menos pombos porque circula mais gente. Eu creio que seja isso, quando tem muita movimentação, eles se afastam um pouco”, diz.
Segundo ele, a maior concentração costuma ser ao lado da Igreja, onde pessoas costumam jogar comida para eles. Ele diz admirar a presença das aves. “Gosto demais dos bichinhos. Acho que deixam a cidade mais bonita, com certeza. É como se fossem as gaivotas flutuando sobre o mar, que hoje quase não existem mais”.
O ornitólogo Luiz Gonzaga, professor do Curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Ceará (Uece), explica que os pombos não são nativos do Brasil. “Eles vieram da Europa, onde muita gente criava pombos-correio para levar correspondências de um lugar a outro, presas nas patas”, afirma.
Segundo ele, a chegada dessas aves ao País ocorreu no começo do século XX, quando famílias portuguesas passaram a trazer pombos como animais domésticos. “Com o tempo, eles foram soltos nos quintais das casas e começaram a dominar os locais onde estavam”, diz.
Na Europa, eles fazem ninhos em locais altos e as edificações brasileiras reproduzem esse ambiente. Buracos de ar-condicionado, parapeitos e pequenas varandas oferecem abrigo seguro contra a chuva.
Muito sociáveis e oportunistas, os pombos também se alimentam de restos descartados por humanos, além de grãos no chão.
Para a médica-veterinária Estéfanni Pinheiro, especialista em Animais Silvestres e Exóticos, o estigma de “animal sujo” não descreve adequadamente a espécie.
Ela explica que a condição sanitária dos pombos está diretamente ligada ao ambiente em que vivem. “Se é um animal que se adaptou a comer lixo, ele passa a ter contato com diversos patógenos e pode acabar difundindo essas doenças”, afirma.
O risco aumenta em grandes aglomerações de pombos sem controle sanitário, comuns em praças e monumentos. “As fezes acabam ressecando e, com o vento, partículas se espalham. Se for um animal contaminado, a pessoa pode inalar um patógeno que veio dessas fezes”, detalha a médica-veterinária.
Crianças, idosos, indivíduos em situação de rua e pessoas imunossuprimidas estão entre os mais vulneráveis, especialmente no caso da criptococose, conhecida popularmente como “doença do pombo”.
Conforme o Ministério da Saúde, a criptococose é a principal causa de meningite oportunista relacionada ao HIV no Brasil. Já globalmente, o fungo Cryptococcus é responsável por 13% das mortes relacionadas a aids.
Questionada sobre registros de doenças associadas ao contato com pombos em Fortaleza, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) declarou que a criptococose não é uma doença de notificação compulsória. Ou seja, os serviços de saúde não são obrigados a comunicar cada caso às autoridades sanitária
A SMS de Fortaleza também informou que não há registro no canal 156 de denúncias relacionadas à presença de pombos.
A pasta ainda declarou que, conforme a Lei de Crimes Ambientais, intervenções diretas em pombos domésticos, como remoção de ninhos e eliminação das aves, configura-se crime ambiental e de maus-tratos.
Entre as formas de prevenção, está a higienização adequada das praças, com controle de ectoparasitas [como carrapatos] e o manejo correto do lixo.
“Mas estudos que indicam que, a longo prazo, a conscientização das pessoas é o método mais eficaz. A orientação é que não se ofereça alimento a pombos urbanos, esses animais vão buscar abrigos e fontes de comida que não envolvam o convívio direto com humanos”, aponta a médica-veterinária Estéfanni Pinheiro.