As investigações sobre as causas do incêndio de grandes proporções que atingiu a sucata Chico Alves, no bairro Jacarecanga, em Fortaleza, seguem em andamento durante a manhã desta segunda-feira, 5. Ao O POVO, a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) informou que nenhuma hipótese pode ser descartada, tendo em vista que a análise pericial ainda não foi concluída.
De acordo com a Pefoce, estão sendo realizadas ações externas ao local do incêndio, como a busca por imagens, a realização de exames complementares, além do levantamento e da análise técnica com o uso de drones. Novas etapas serão desenvolvidas na parte interna do imóvel à medida que houver evolução nas condições estruturais do local.
O prazo para a conclusão do relatório deve ser divulgado pela pasta até o final desta semana.
Em visita à sucata na manhã desta segunda-feira, 5, O POVO conversou com profissionais da Defesa Civil que estavam no local. A equipe realizou a coleta das assinaturas de moradores que tiveram suas casas interditadas durante o incêndio, que deverão ser incluídas no relatório técnico emitido pela pasta.
Ao todo, oito imóveis sofreram danos estruturais e precisaram ser interditados após a combustão. Desse total, a equipe informou que pelo menos seis imóveis seguem ocupados, mesmo após a interdição.
Um deles é a casa de Maria Lucinete, de 50 anos. Inquilina no imóvel há dois meses, ela explica que sua casa foi interditada por causa do risco do muro desabar e comprometer o restante da estrutura de sua residência.
Ela conta que a equipe da Defesa Civil questionou se “o dono dos imóveis, da estrutura que foi queimada, que justamente é o Chico Alves, se ele abriu alguma coisa para ajeitar algum prejuízo, para ajeitar o que foi queimado pelo fogo. Não. Ele realmente não fala nada”, lamenta.
“Eu não tenho como sair, entendeu? Porque eu não tenho para onde ir. Recentemente eu paguei o aluguel. Vai fazer dois meses que eu estou aqui, eu aluguei recentemente. Vai fazer dois meses no dia 21 (...) Então, eu estou evitando alguns perigos, porque o muro está em risco. Ele (profissional da Defesa Civil) fala que, caso chegar a cair, pode puxar um pouco da casa e pede que a gente tome cuidado”, explica.
Lucinete conta que, durante o incêndio, estava em casa com seus filhos, que haviam viajado para passar o Natal e o Réveillon com ela. Por volta das 22h40min, a família estava se preparando para ceiar, quando ouviu gritos de que a sucata do Chico Alves estava pegando fogo.
“Eu abri o portão rapidinho e vi muito fogo”, relembra. Ela relata que, nessa hora, as pessoas começaram a remover os móveis de dentro de suas casas, com medo de tudo queimar.
Ela pediu para que a família retirasse os colchões de dentro de sua casa para evitar que o incêndio se alastrasse. “Acabaram tirando tudo e colocando no meio da rua, até que veio uma chuva e acabou quase com tudo das minhas coisas. A gente ficou de 22h40min, até às 7 horas”, recorda emocionada.
Após a interdição, ela conta que o medo permanece e quase não consegue dormir. “Qualquer barulho que a gente escuta, a gente pensa que já é o muro que está arrastando a casa, porque é o risco de estar acontecendo isso. Então, a gente está nas mãos de Deus”, confessa.
A equipe da Defesa Civil informou que foram oferecidas vagas em abrigos aos moradores que tiveram suas casas interditadas, mas que a maioria optou por permanecer na residência, assumindo a responsabilidade. As visitas técnicas, segundo os profissionais, não têm prazo para serem concluídas e devem continuar até que o caso seja solucionado.
Durante a visita ao local, O POVO conversou rapidamente com o proprietário da sucata, Chico Alves. Emocionado, ele conta que morou a vida toda dentro do imóvel incendiado.
Nas poucas palavras que se permitiu falar, relatou com a voz trêmula a dor de perder os objetos de sua falecida esposa, os quais garantiu guardar com a maior estima do mundo, entre eles roupas, relógios e sapatos.
Chico Alves também chorou com a perda dos cachorros e de uma gata. O POVO entrou em contato com a família do proprietário da sucata durante a visita, mas a filha, que não se identificou, afirmou que não iria se pronunciar.
Imóveis
Ao todo, oito imóveis sofreram danos estruturais e precisaram ser interditados após a combustão, no entanto pelo menos seis seguem ocupados, mesmo após a interdição
Abrigos
A equipe da Defesa Civil informou que foram oferecidas vagas em abrigos aos moradores que tiveram suas casas interditadas, mas a maioria optou por permanecer nas residências