A Paróquia de São João Batista, no Centro de Uruburetama, município a 103,07 quilômetros (km) de Fortaleza, anunciou a gratuidade da taxa para realização do sacramento do matrimônio. Anúncio foi feito nesse sábado, 10, pelo padre José Ranis Dias no Instagram, onde acumula 65,4 mil seguidores.
“Que o dinheiro não seja obstáculo”, escreveu ele, “mas que homens e mulheres possam regularizar suas vidas, santificar suas famílias e viver um catolicismo fiel, honesto e comprometido, tendo Cristo no centro do amor conjugal”.
“Um gesto histórico de evangelização, misericórdia e zelo pastoral”, concluiu o padre Ranis, de 35 anos, em sua publicação na rede social. Em setembro de 2024, ele chegou a viralizar com um vídeo em que não consegue segurar o riso ao ouvir uma versão estilo Calypso de uma música católica.
Natural de Camocim, a 317,30 km da Capital, ele é o 18º pároco de Uruburetama, onde atua desde 2021, um ano após ter sido ordenado padre.
O cearense explicou, em entrevista ao O POVO, que nenhum sacramento católico é pago, mas que taxas são geralmente cobradas para realizar a manutenção das paróquias, inclusive durante as cerimônias.
“As pessoas às vezes acham que a taxa simboliza um pagamento do sacramento, deixando de buscá-lo por condição financeira”, contextualizou. “Vendo que muitos casais não comungavam, comecei a fazer uma catequese a respeito do que dizia a doutrina, principalmente a respeito da comunhão.”
Ranis confessou que, desde sua chegada na paróquia, ofertou a isenção da taxa aos casais mais próximos e que relatavam suas situações. “Eu também fazia questão de celebrar os casamentos em horários convenientes, para que as pessoas se sentissem mais próximas de Deus”, disse.
“Nesses quase cinco anos, assim foi dando certo. Mais de 260 casais receberam sacramento na paróquia, e 95% desses não pagaram a taxa. Agora, a retirada geral da taxa é oficial, para não haver nenhum empecilho.”
A retirada só é possível a partir de uma paróquia financeiramente sustentável, enfatizou o sacerdote. A unidade atende mais de 35 comunidades de Uruburetama, contou ele, e tem dois padres, além de uma dezena de funcionários, todos com carteira assinada e direitos garantidos.
Além disso, há diversos espaços de atuação que precisam de manutenção, desde o salão paroquial às capelas, passando pelos centros de evangelização. Por isso, o dízimo é um tópico reforçado por Ranis em sua pregação.
“Sempre venho dizendo para a comunidade que, a partir do momento em que a conscientização dos fiéis com o dízimo chegar a um patamar que supra as despesas básicas da paróquia, nós acabaríamos com todas as taxas referentes ao sacramento. Com a graça de Deus, essa conscientização vem crescendo.”
Ele acrescentou a importância de uma “boa administração” da paróquia, “sempre de forma muito clara e honesta, para que a gente evite ficar pedindo, cobrando as coisas, o tempo todo. Agora, conseguimos fazer com que o financeiro não seja um empecilho de se buscar a vida a sacramental”.
Segundo o pároco, a procura por casamentos na Igreja “tem sido muito grande” desde o anúncio da isenção da taxa. Muitos internautas comentaram que outras paróquias deveriam replicar a medida, ao que Ranis alertou: é preciso ser feito de forma “consciente e responsável”.
Isso porque “a maioria dessas taxas são essenciais para a manutenção das paróquias. Então, não é só chegar e abolir taxas, que às vezes garantem a sustentabilidade de paróquias simples”.
“Elas pagam funcionários, luz, transporte, água, gasolina. Para a evangelização ser feita. O que deve ser feito é motivar e conscientizar sobre o dízimo, para que as pessoas assumam verdadeiramente a responsabilidade das paróquias.”
Ele acrescentou esperar que, em 2026, “tenhamos uma procura grandiosa de casais em estado irregular”. No dia 31 de janeiro, serão abertas inscrições para os casais que querem receber o sacramento, assim como para os adultos que não têm batismo, primeiro eucaristia, crisma ou matrimônio.
No Instagram, o padre Ranis Dias apresenta não só avisos paroquiais, mas também o cotidiano na paróquia, sua relação com os paroquianos, “entrando em casas e mostrando como as pessoas e o padre se tratam”.
Na visão dele, as redes sociais podem ser um “instrumento” para potencializar a possibilidade de evangelização. “Sempre tento levar a palavra de Deus, mostrar aquilo que diz a doutrina da Igreja, aquilo que nos faz o magistério da Santa Igreja, para que as pessoas sejam cada vez mais aproximadas”, contou.
“Celebro a missa na Igreja Matriz, mas tenho ali uma quantidade de pessoas atendidas ou atingidas pela fala do padre, de uma forma limitada. Costumo dizer que, além da paróquia física, tenho também uma paróquia virtual, que está aqui, nas minhas mãos”, acrescentou.
Para isso, é preciso se adaptar ao funcionamento das redes sociais, disse o padre, o que significa ser bem-humorado e acessível. “Até hoje as pessoas perguntam, por onde eu vou, sobre minha reação à música no ritmo Calypso. Já estive em vários estados, além do Ceará, e fui reconhecido”, relatou.
“O mais engraçado é que já chegam achando graça, lembrando da minha reação à música. Eu lido com uma leveza muito grande, até porque eu não me reconheço como uma pessoa muito famosa, mas como alguém que hoje soube aproveitar esta fama do momento para evangelizar."
“A maior fama está naquele que apresento ao senhor Jesus Cristo”, complementou. “E é muito bonito ver que, na minha paróquia, pessoas chegaram a voltar para a igreja a partir desse vídeo”, diz.
“E como é bom levarmos uma vida mais leve. Como diria Ariano Suassuna, ‘quem gosta de tristeza é o Diabo’, né?”
Ser bem-humorado não significa não ser um padre sério e comprometido com a liturgia, lembrou Ranis. “O equilíbrio deve acontecer de forma muito contínua em nossa vida. Lembramos que a Santa Missa não é lugar de piadas, mas sim é a vivência de nosso senhor Jesus Cristo.”
“Por isso, tem de ser tratada com muito zelo e amor, para não banalizarmos aquilo que é sagrado”, disse o eclesiástico. “Muitos podem achar que sou apenas aquilo que viram no vídeo, mas meus paroquianos sabem que sou comprometido com a liturgia e com o sagrado.”
Questionado sobre a reação de fiéis mais tradicionais de Uruburetama à sua forma de lidar com a paróquia, o camocinense notou que “as pessoas aderiram bem”. Ele atribuiu isso à sua proximidade com os moradores.
“De ir visitá-los, de brincar com eles, de não ser aquele padre afastado, de ter a casa paroquial aberta a todos”, enumerou. “Então, isso é muito bonito. O padre continua sendo, em Uruburetama, essa autoridade religiosa, que todos respeitam, mas também têm grande amor.”
“E essa postura mais moderna veio para aproximar os fiéis do padre, não só meus paroquianos, mas é muito engraçado como paroquianos de outros locais se sentem parte de Uruburetama, a partir dessa presença na internet”, conclui.