Ciência e Saúde

Epidemia de câncer: doença silenciosa deve se tornar mais comum nos próximos anos

Previsão para triênio 2020-2022 é de 625 mil novos casos de câncer por ano no Brasil. Cerca de um terço desses casos novos poderia ser evitado pela redução ou eliminação de fatores de risco ambientais e relacionados a hábitos de vida. Saiba causas, sintomas e atitudes de prevenção
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Atualmente, Aila Maria Veras de Oliveira, 55, continua sendo acompanhada no Instituto do Câncer do Ceará (Foto: Yago Albuquerque / Especial para O Povo)
Foto: Yago Albuquerque / Especial para O Povo Atualmente, Aila Maria Veras de Oliveira, 55, continua sendo acompanhada no Instituto do Câncer do Ceará

Uma epidemia silenciosa pode estar em curso no Brasil paralelamente à Covid-19. Cerca de 625 mil novos casos de câncer por ano são estimados para o triênio 2020-2022, segundo Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). Aproximadamente um terço dos casos novos poderia ser evitado pela redução ou eliminação de fatores de risco ambientais e relacionados a hábitos de vida.

Os indicadores mostram que depois do câncer de pele não melanoma (177 mil casos novos), os mais incidentes no País serão os de mama e de próstata (66 mil cada), cólon e reto (41 mil), pulmão (30 mil) e estômago (21 mil). No Ceará, são estimados cerca de 27 mil novos casos de câncer no período considerado.

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Segundo as projeções do Inca, a obesidade estará entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento de 11 dos 19 tipos mais frequentes na população brasileira. A proporção de obesos na população com 20 anos ou mais de idade mais que dobrou no País entre 2003 e 2019, passando de 12,2% para 26,8%, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Outro dado mostra que, em 2019, uma em cada quatro pessoas de 18 anos ou mais anos no Brasil estava obesa, o equivalente a 41 milhões de pessoas. Comportamentos não saudáveis como fumar, consumir bebidas alcoólicas, sedentarismo e manter dieta pobre em vegetais também aumentam o risco de dez tipos da doença.

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A jornalista Natália Mesquita, 36, é um caso de paciente que precisou mudar hábitos. Ela levava uma vida sedentária, priorizava o trabalho e lidava com muito estresse até descobrir, em 2020, um linfoma não-Hodgkin, tipo de câncer que se origina no sistema linfático. Ela sentia dores abdominais fortes e problemas de digestão, recorreu a vários médicos e demorou um ano até chegar ao diagnóstico correto.

A pandemia de Covid-19 fez Natália adiar ainda mais a ida ao médico. Quando finalmente recebeu o resultado dos exames, soube que a doença estava no estágio mais avançado, estava presente no estômago, intestino e ombro.

“A médica me deu 40% de chance de sobreviver. Fiz oito sessões de quimioterapia em 21 dias. Foi muito difícil”, relata. Hoje a jornalista faz acompanhamento, exames periódicos e usa medicamentos para evitar o retorno do câncer. A rotina dela também não é mais a mesma.

“Sigo outro estilo de vida, trabalho muito, mas sempre reservo tempo para cuidar da saúde. Se eu não tiver uma hora do dia para fazer uma atividade física, fazer exames ou ir para uma consulta, não tem sentido”, acrescenta.

Ainda considerado um tabu para muitos, o câncer já é o principal problema de saúde pública no mundo e está entre as quatro principais causas de morte prematura (antes dos 70 anos de idade) na maioria dos países.

O termo abrange mais de 100 diferentes tipos de doenças malignas que têm em comum o crescimento desordenado de células que podem invadir tecidos e órgãos vizinhos ou distantes (metástase). Estas células dividem-se rapidamente e tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, resultando em tumores que podem espalhar-se para outras regiões do corpo.

Se para o Brasil as projeções de novos casos de câncer são temerárias, o cenário esperado para o planeta também preocupa. Em 2040, a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que o mundo terá 30,2 milhões de novos casos de câncer e 16,3 milhões de mortes pela doença.

A OMS mostra ainda que aproximadamente 70% das mortes por câncer ocorrem em países de baixa e média renda. Gélcio Mendes, vice-diretor do Instituto Nacional de Câncer (Inca), avalia que o aumento de câncer no Brasil tem sido associado a dois fenômenos principais: o envelhecimento e o aumento da população. “A maioria dos tumores, dois terços, vão se concentrar após 60 ou 65 anos”, pontua.

Em 1940, 2,4% da população total do País tinha 65 anos ou mais. Esse percentual passou para 9,5% no ano de 2019 e passará para 25,5% em 2060, segundo projeta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso significa que a cada quatro brasileiros, um será idoso.

“O problema é como o sistema vai lidar com isso, pois não temos observado aumento da rede de atenção à saúde, falando especificamente no sentido do câncer”, atenta Gélcio.

Para o vice-diretor do Inca, o grande gargalo na luta contra o câncer no Brasil continua sendo o acesso dos pacientes ao tratamento. Apesar disso, ele salienta que nas últimas duas décadas as pesquisas oncológicas alcançaram avanços muito positivos. Conforme Gélcio, os resultados estão cada vez melhores.

Os pacientes diagnosticados com câncer podem ser tratados com cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou transplante de medula óssea. Em muitos casos, é necessário combinar mais de uma modalidade.

“Várias doenças mudaram a forma que a gente encara o tratamento. No câncer de mama, uma série de conceitos novos surgiram. No câncer do cólon, a gente teve incorporação de alguns medicamentos e melhoras nos resultados”, exemplifica.

Diagnóstico precoce do câncer aumenta chances de cura

Aila Maria Veras de Oliveira, 55, descobriu um nódulo no seio em agosto de 2017. “Quando percebi ele já estava quase do tamanho de um limão”, relembra. Após receber o diagnóstico de câncer de mama, precisou primeiro passar por sessões de quimioterapia para reduzir o tumor. Em seguida, veio a cirurgia e a radioterapia.

Ela enfrentou uma metástase do câncer no mesmo seio em 2019 e precisou fazer uma mastectomia, que é a retirada cirúrgica de toda a mama. Para Aila, a fé e o apoio da família têm sido fundamentais desde a descoberta da doença. Sem casos de câncer de mama na família, Aila mantinha uma boa alimentação e fazia caminhadas com frequência.

Atualmente, Aila Maria Veras de Oliveira, 55, continua sendo acompanhada no Instituto do Câncer do Ceará (ICC) (Foto: Yago Albuquerque / Especial para O Povo)
Foto: Yago Albuquerque / Especial para O Povo Atualmente, Aila Maria Veras de Oliveira, 55, continua sendo acompanhada no Instituto do Câncer do Ceará (ICC)

No entanto, os exames preventivos nem sempre estavam em dia. “Só fiz mamografia uma vez, assim que completei 41 anos. Depois não fiz mais”, conta. Ela faz um alerta para a necessidade do autocuidado na prevenção ao câncer de mama.

“Recomendo muito o autoexame para a pessoa ficar atenta a qualquer anomalia que aparecer no seio. Não tenha medo de enfrentar o mastologista. A gente fica com medo, mas precisamos superar esse medo e essa negação”, destaca. Atualmente, Aila segue realizando acompanhamento com remédios e exames periódicos no Instituto do Câncer do Ceará (ICC), em Fortaleza.

A mamografia é o principal exame de rastreio para câncer de mama, e foi um dos mais afetados pela pandemia de Covid-19. Afinal, a maior parte dos sistemas de saúde estiveram direcionadas para o combate ao coronavírus.

De acordo com o Ministério da Saúde, o número de mamografias realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre janeiro e julho de 2020 caiu em 47% em comparação com os anos anteriores. Cerca de 1,1 milhão de mamografias foram realizadas até julho, contra 2,1 milhões nos mesmos períodos de 2018 e 2019.

Exames de rastreio são imprescindíveis para identificar precocemente um tumor cancerígeno, conforme explica o médico oncologista João Evangelista Bezerra Neto, do Oncocentro Ceará e da clínica FujiDay. Ele reforça a urgência de a população voltar a realizar os exames preventivos.

“Quando detectamos no início, o tratamento pode ser menos agressivo e aumenta a expectativa de cura da doença. Quando paro de fazer exames de rastreio, imagino que terei no futuro aumento de cânceres em fase mais avançada”, alerta.

A United States Preventive Services Taskforce (USPSTF), entidade médica americana, estima que para cada 10 mil mulheres entre 50 e 59 anos que fazem mamografia, oito mortes por câncer são evitadas.  "No caso do câncer de mama e de próstata, apesar de serem frequentes, são altamente curáveis quando diagnosticados de forma precoce. Mulheres com câncer de mama ainda em fase inicial têm de 80% a 90% de chances de cura", completa o médico João Evangelista. 

Referência no tratamento do câncer na Capital, o Instituto do Câncer do Ceará (ICC) realiza 24 mil atendimentos por mês, entre exames, cirurgias e sessões de quimioterapia e radioterapia. No local, existem ainda entre 50 mil e 60 mil pacientes em acompanhamento oncológico.

Segundo o oncologista Reginaldo Costa, superintendente clínico do ICC, não houve desmobilização no atendimento de pacientes na pandemia. Porém, alguns deixaram de vir por medo da Covid-19 ou por dificuldades de sair dos municípios devido às restrições de isolamento social.

“Estimo que lá na frente a gente vai ter um impacto disso na estatística de câncer, mas não podemos medir em tempo real. A gente prevê que esses pacientes vão ter diagnósticos mais avançados, mas não temos um número confirmando isso ainda”, pondera.

Por dia, o local recebia de 50 a 70 novos pacientes, mas em momentos críticos da pandemia esse número chegou a 25. Em 2020, o ICC realizou 8.900 biópsias positivas de câncer — um decréscimo de 29,3% em comparação com o ano anterior (12.605). De janeiro a 30 de setembro de 2021, 7.574 foram exames positivos para malignidade.

Obstáculos para o acesso ao tratamento

No Ceará, 9.395 pessoas morreram vítimas de câncer em 2020, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do Estado (Sesa). O câncer de brônquios e dos pulmões foi o mais recorrente (1.172), seguido pelo de estômago (751) e o de mama (715).

Para Reginaldo Costa, superintendente clínico do ICC, existe uma dificuldade maior no acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer no caso das pessoas que residem no Interior.

“Não existe hoje uma articulação bem organizada entre os municípios do Interior no sentido de criar uma via de acesso mais facilitada para esses pacientes”, critica. Segundo ele, não há uma rota bem definida para que esses pacientes consigam acessar as instituições de saúde da Capital.

“Existe ainda uma centralização dos tratamentos na Capital em alguns poucos hospitais em função dessa ausência no interior. Tudo isso acaba gerando um tempo maior de espera para o início do tratamento”, expõe.

O POVO questionou a Sesa sobre quais estratégias estão sendo utilizadas para descentralizar o atendimento ao câncer para o Interior do Estado. Em nota, a pasta informou que na rede estadual seis unidades hospitalares realizam diagnóstico e tratamento cirúrgico de câncer, sendo que quatro delas são em Fortaleza e duas no Interior do Estado (veja localização no mapa abaixo), o Hospital Regional do Sertão Central (HRSC), em Quixeramobim, e o Hospital São Vicente de Barbalha. 

"Essas unidades não possuem tratamento de quimioterapia e radioterapia, sendo necessário o encaminhamento para as unidades de gerência municipal de Fortaleza, o Instituto do Câncer do Ceará (ICC) e Centro Regional Integrado de Oncologia (Crio)", completa a Sesa.

Ainda de acordo com a nota, o Instituto de Prevenção do Câncer (IPC) e o Grupo de Educação e Estudos Oncológicos (Geeon), ambos na Capital, realizam o diagnóstico, e o Hospital Universitário Walter Cantídio realiza tratamento e diagnóstico pelo município de Fortaleza. Além disso, as 20 policlínicas regionais do Estado realizam exames de imagens para diagnóstico de câncer.

"A partir do momento que o paciente entra na fila da Central de Regulação do Estado, ele leva até sete dias, no máximo, para ser regulado pelos especialistas e agendado para unidade que atenda o seu perfil de acordo com os exames já realizados. Os acessos às unidades de atendimento são feitos pelos Sistemas de Regulação, tanto do Estado como do município de Fortaleza", finaliza a secretaria.

Prevenção e fatores de risco para o câncer: qual o peso dos hábitos cotidianos e da predisposição genética?

Não fumar, manter uma alimentação saudável e fazer atividades físicas parecem atitudes simples, mas podem fazer a diferença na prevenção ao câncer. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os fumantes têm até 22 vezes mais probabilidade de desenvolver câncer de pulmão ao longo da vida do que os não fumantes.

Já de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), cerca de 30% dos casos de câncer de mama podem ser prevenidos evitando o consumo de bebidas alcoólicas, praticando exercícios e não usando hormônios sintéticos, como anticoncepcionais e terapias de reposição hormonal.

“A incidência do câncer está ligada a exposições de uma vida inteira. Com as medidas que tomamos hoje, pensamos numa prevenção a longo prazo”, ressalta o oncologista Gélcio Mendes, vice-diretor do Inca.

Para além dos fatores de risco relacionados ao ambiente ou hábitos individuais, existem aqueles cânceres ligados a fatores hereditários, familiares e étnicos, apesar de serem mais raros. Determinados grupos étnicos parecem estar protegidos de certos tipos de câncer: a leucemia linfocítica é rara em orientais, e o sarcoma de Ewing é muito dificilmente encontrado em pessoas negras.

A geneticista molecular Silvia Helena Rabenhorst, docente titular na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que mulheres com alterações genéticas herdadas nos genes BRCA1 e BRAC2 têm alto risco de desenvolver câncer de mama.

“Temos genes de altos riscos e genes de menos riscos. Os genes de menos riscos precisam de algo mais além de ter eles mutados [para o câncer se desenvolver]. Aí entra o ambiente, a alimentação, o cigarro, os hábitos não saudáveis”, explica. Silvia também é coordenadora do Laboratório de Genética Molecular (Labgem), onde desenvolve estudos na área de oncologia e susceptibilidade genética a doenças infecciosas.

O câncer de mama hereditário pode se manifestar mais cedo, em geral, antes dos 45 anos. Hoje é possível detectar mutações genéticas associadas a diferentes tipos de câncer por meio do sequenciamento genético. O exame específico para os genes BRCA1 e BRAC2 custa, em média, R$ 1.800 na rede privada de saúde.

Em junho, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados aprovou proposta que obriga o Sistema Único de Saúde (SUS) a realizar testes genéticos para diagnóstico de predisposição ao câncer em mulheres com câncer de mama e de ovário e seus familiares, desde que identificado potencial de hereditariedade. Contudo, o projeto ainda precisa passar pelo Senado Federal e ser sancionado pela presidência da República.

Caso a pessoa seja portadora do gene, existe orientação para cirurgia preventiva, retirando as mamas, ou para fazer acompanhamento médico. Cada quadro deve ser discutido individualmente entre médico e paciente.

Fatores ambientais

Para a professora Silvia Helena, é importante observar ainda a alta incidência do câncer associada a outros fatores ambientais como o uso de agrotóxicos

“Os agrotóxicos são uma ponte muito potente de dano ao DNA. Temos agrotóxicos colocados dessa forma indiscriminada em grande quantidade na alimentação. A única alternativa é existir uma regulação ao uso de agrotóxicos, é o mais importante”, adverte.

De acordo com o Robotox, robô da agência Pública e da Repórter Brasil que monitora os registros no Diário Oficial da União (DOU), existem hoje 3.325 produtos agrotóxicos comercializados em todo o País.

O Inca enumera pelo menos seis ingredientes ativos de grande consumo no Brasil com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que são considerados possivelmente carcinogênicos para humanos. A lista abrange inseticidas e herbicidas, por exemplo, relacionados a câncer de pele, leucemia, linfomas não-Hodgkin, câncer de pulmão, entre outros.

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Existem também tipos de câncer associados a agentes infecciosos como vírus ou bactérias. O mais comum é o Papiloma Vírus Humano (HPV), responsável pelo câncer do colo do útero, ânus e outras localizações.

Outro exemplo é a bactéria Helicobacter pylori (H. pylori) adquirida pelo consumo de alimentos contaminados e que pode infectar cronicamente o estômago, contribuindo para o aparecimento do câncer. “É fundamental olhar o meio ambiente. Temos alguns tipos de câncer mais relacionados à incidência em lugares onde não se tem saneamento básico”, finaliza a professora Silvia Helena.

Com informações da Agência Câmara de Notícias

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