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Ciência e Saúde

Os avanços da ciência para quem decide adiar maternidade e paternidade

Quem não quer abandonar o desejo de ter filhos no futuro, mas não quer o risco de perder a chance por infertilidade, o congelamento de óvulos e espermatozoides é oportunidade de ajustar a escala familiar de prioridades
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FORTALEZA, CE, BRASIL, 16.02.2022: Ciencia e Saúde: Gabriela Oliveira - Congelamento de ovulos (Foto:Thais Mesquita/OPOVO) (Foto: Thais Mesquita)
Foto: Thais Mesquita FORTALEZA, CE, BRASIL, 16.02.2022: Ciencia e Saúde: Gabriela Oliveira - Congelamento de ovulos (Foto:Thais Mesquita/OPOVO)

Em meio ao cenário incerto de sucessivas crises econômicas, sociais e sanitárias, o sonho de uma gestação tem caído na lista de prioridades de mulheres e homens brasileiros que, cada vez mais atarefados de ocupações profissionais, decidem adiar a concepção para um futuro não necessariamente breve. Para não minar completamente a possibilidade de concepção, uma opção é o congelamento de gametas, ou seja, de óvulos (feminino) e espermatozoides (masculino).

A medida é uma possibilidade de amenizar riscos de uma tendência recorrente no Brasil. Segundo informações do relatório Estatísticas do Registro Civil 2020, publicadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em novembro de 2021, já existe um aumento do número de mães que engravida entre os 30 e 39 anos e uma redução dos registros de filhos nascidos de matriarcas em idades mais jovens.

Esses resultados mais recentes corroboram as tendências observadas no último Censo Demográfico 2000 e de 2010, em que os dados apontavam uma redução das taxas de fecundidade das mulheres mais jovens.

Apesar da maior adesão atual, o congelamento de gametas ainda é pouco conhecido e acessível. Para o óvulo, gira em torno dos R$ 12 mil a R$ 15 mil, com taxa de manutenção anual de R$ 1 mil. Já para o esperma, a técnica custa cerca de R$ 1 mil, com taxa anual similar. Assim, o indivíduo pode “preservar sua fertilidade” até que decida que o momento é propício para gerar uma criança.

O congelamento de óvulos e espermatozoides é um processo de vitrificação — ou seja, congelamento ultrarrápido — que é feito em nitrogênio líquido a -196°C. “Não depende de energia elétrica, não depende de gerador. Você pega o gameta e os posiciona em um meio de criopreservação, esses gametas vão da temperatura ambiente a -196 C° em questão de segundos”, explica Daniel Diógenes, médico ginecologista, especificando que os óvulos e espermatozoides podem permanecer mergulhados no nitrogênio por décadas.

 

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Daniel, que também é especialista em medicina reprodutiva e diretor da clínica Fertibaby, acredita que o procedimento ainda é pouco conhecido no Brasil devido à desigualdade do acesso à informação, e isso já começa pelo próprio ginecologista. “O profissional dá pouca atenção àquela mulher que está envelhecendo e que está perdendo a qualidade e a quantidade de óvulos. Essa mesma mulher está inserida no mercado de trabalho e acaba demorando anos para buscar uma gravidez achando que não existe uma limitação de idade”, diz Diógenes.

O médico explica que se mulheres mais jovens, de por volta dos 25 anos a 35 anos, procurassem locais que realizassem o procedimento de congelamento de óvulos e preservassem a própria fertilidade, boa parte dos problemas que envolvem gravidez tardia seriam solucionados. No caso delas, o mais importante para garantir uma gestação sadia seria a idade do óvulo e não a idade da possível mãe em si. Depois dos 35 anos, esses gametas perdem a qualidade e quantidade, afetando as gestações que por ventura venham a acontecer.

"Não existe um limite, existe um bom senso, porque a partir dos 50 a 55 anos, complicações podem acontecer na gestação. Mas, em teoria, uma mulher saudável com 60 a 65 anos pode retirar seus óvulos e também pode gestar uma criança", argumenta o médico.

Além disso, os homens também devem pensar em preservar seus gametas a partir dos 35 anos. Segundo o médico especialista em urologia da Huntington Medicina Reprodutiva, Guilherme Wood, em entrevista à Agência Brasil, a maioria dos homens que opta pelo congelamento seminal o faz para preservar a qualidade dos espermatozoides antes de uma cirurgia complexa ou antes de começar o tratamento de uma doença.

Apesar de esse público também sofrer com o envelhecimento dos próprios gametas, homens sofrem degradação muito menor dos gametas do que as mulheres que, após os 35 anos, perdem rapidamente a reserva de óvulos — qualitativa e quantitativamente falando.

 

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Tipos de tratamentos para engravidar e como funcionam

São três os tipos mais comuns de tratamento para engravidar:

1. Indução da ovulação com o coito programado: a técnica mais simples. Nela, a mulher utiliza medicamentos para ovular mais de um óvulo por mês (o normal seria um a cada ciclo) e tem relações sexuais durante a ovulação. “Normalmente se utilizam medicamentos aliados ao ultrassom para avaliar o crescimento dos óvulos e determina-se o dia e a hora da ovulação”. A taxa de sucesso dessa técnica é em torno de 10%.

2. Inseminação intrauterina: é um tratamento de baixa complexidade que consiste em depositar espermatozoides capacitados dentro da cavidade uterina. “Nessa técnica determinamos a hora da ovulação e, no momento certo, colhemos o sêmen duas ou três horas antes e o colocamos dentro do útero”, diz o médico. A taxa de sucesso dessa técnica é em torno de 20%.

3. Fertilização in vitro (FIV): a FIV é um método que consiste em unir o espermatozoide ao óvulo em laboratório e transferir o embrião (que vai formar o feto) para o útero da mulher. Usa-se medicação para estimular o crescimento de muitos óvulos (até 20). Esses gametas são retirados do corpo da mulher por meio de uma pulsão transvaginal e enviados a um laboratório para serem cruzados com o sêmen. Dentro da FIV existem duas sub-técnicas. A descrita acima se chama injeção intracitoplasmática do espermatozoide (Icsi), a mais moderna.

A FIV tradicional trata-se de retirar um óvulo para cultivá-lo em uma placa e nessa mesma placa são depositados os espermatozoides. Depois da fecundação, o embrião é colocado dentro do útero. A taxa de sucesso dessa técnica é em torno de 60% e as taxas cumulativas—quando o procedimento é realizado mais de uma vez — chegam a 70%.

*Fonte: Daniel Diógenes, médico ginecologista

Outros tipos de tratamento para engravidar


Congelamento de embriões

Criopreservação de embriões está indicada quando o número de embriões (óvulo fecundado pelo espermatozoide) obtidos na fecundação in vitro é maior que a quantidade que será transferida.

Assisted hatching

Assisted hatching, ou eclosão assistida, consiste na abertura de um pequeno orifício na zona pelúcida (uma camada que envolve o óvulo), facilitando a saída do embrião e a implantação do mesmo no útero.

Biópsia de embriões

A biópsia de embriões ou o teste genético pré-implantacional Para aneuploidias (PGT-A) tem como objetivo evitar a transferência de embriões com alterações genéticas.

Além dos tratamentos médicos, a mulher também pode optar por uma barriga de aluguel. Apesar de ser um procedimento ilegal no Brasil, outros países como Estados Unidos, Grécia, Ucrânia e Albânia permitem que a prática seja realizada por estrangeiros.

No Brasil, é permitida apenas uma barriga de substituição, que pode ser realizada, de acordo com a resolução Conselho Federal de Medicina (CRM), por um parente de até quarto grau dos futuros pais e mães. Além dessa alternativa, existe a doação de óvulos, em que a mulher recebe os gametas de forma anônima de outras mulheres que estão inseridas na mesma clínica.

Segundo o médico Daniel Diógenes, problema no útero é o principal motivo pelo qual a mulher busca esse tipo de prática. "A idade avançada da mulher nos traz o problema principal da qualidade e da quantidade de óvulos, não o útero. O útero é um órgão muscular que tem uma grande longevidade. Mulheres que procuram barrigas de aluguel ou de substituição são aquelas que nasceram sem útero, que perderam o útero por algum motivo ou que possuem tumores", diz. 

"No meu subconsciente, eu tinha essa preocupação e nem sabia"

FORTALEZA, CE, BRASIL, 16.02.2022: Ciencia e Saúde: Gabriela Oliveira - Congelamento de ovulos (Foto:Thais Mesquita/OPOVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 16.02.2022: Ciencia e Saúde: Gabriela Oliveira - Congelamento de ovulos (Foto:Thais Mesquita/OPOVO) (Foto: Thais Mesquita)

Gabriela Oliveira, 38, servidora pública, tomou conhecimento sobre o procedimento de congelamento de óvulos conversando com amigas que planejavam ter filhos e que já haviam feito ou pensavam em fazer o congelamento de óvulos. À época com 36 anos, ela estava solteira e sem perspectiva temporal para formar uma família. “Eu comecei a perceber que tinha que me apressar nesse ponto. Quando cheguei à clínica de medicina reprodutiva, não entendia muita coisa, mas o médico me explicou tudo”, narra Gabriela.

A recepção por parte dos familiares da servidora pública foi positiva, principalmente a de sua mãe, que já a aconselhava a fazer o procedimento há algum tempo. “Antes eu não pensava em fazer (o congelamento de óvulos) porque achava que as coisas iam acontecer naturalmente. Eu estava namorando e o relacionamento terminou, então tive que me readaptar”, conta.

Outro ponto que influenciou a decisão de Gabriela foi o fato de ser filha única. Para ela, a oportunidade de formar uma família no futuro era importante. Hoje, seus planos estão perto de se concretizar. “Logo depois de congelar os óvulos eu conheci um rapaz e pretendemos, em breve, engravidar”, afirma.

Gabriela relata que, em seu subconsciente, tinha uma preocupação relacionada à gravidez, mas que depois do congelamento de seus óvulos encontrou a tranquilidade. “Eu acho que, quem tem vontade e condições, já que se trata de um procedimento bem dispendioso, deve, sim, fazer. Depois que eu eu congelei os óvulos, senti uma tranquilidade maior em relação ao sonho de ser mãe um dia”, diz.

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