
O amor não tem tempo certo para começar. O sentimento pode vir na juventude, com pessoas compartilhando juntas mudanças, desafios e conquistas durante toda uma vida. Também pode chegar já na maturidade, quando a construção de uma nova relação pode dar sentido diferente às vivências e mudar o que era pensado sobre paixão. Apesar dos tabus sobre relações românticas na maturidade, pessoas com mais de 50 anos têm encontrado novos amores, buscado companheirismo e prazer, indo de encontro ao preconceito da sociedade.
Para a psicóloga Fernanda Marinho, especialista em saúde do idoso, ainda há um estigma de que na maturidade “não existe sexualidade” — ou que não deveria existir. Esse tipo de pensamento é carregado de julgamentos, tanto dos outros quanto da própria pessoa que compõe essa faixa etária. Nesses momentos, a pergunta “Será que tenho idade para isso?” chega a inquietar a mente de quem pensa em procurar um novo relacionamento ou ter novas experiências com um parceiro de anos.
Casal abraçado caminhando pela estrada
“A grande barreira é o próprio preconceito. Muitas vezes, a pessoa não se permite viver e se abrir para determinadas experiências porque tem medo do julgamento do outro. Mas, muitas vezes, quando se abrem para isso, vão se descobrindo muitas possibilidades”, diz a psicóloga. Essa abertura leva a mudanças de comportamento já refletidas em dados de plataformas online de paquera.
Segundo levantamento do aplicativo Par Perfeito, antes da pandemia, 45% das pessoas que pagavam pela versão do app com recursos adicionais tinham mais de 50 anos. Com o período pandêmico, os clientes nessa faixa etária passaram a representar mais da metade de todos os assinantes. Eles também costumam encontrar um relacionamento sério mais rápido que os mais jovens. Enquanto estes passam de três a quatro meses na plataforma, os mais maduros entram em relações depois de dois meses de uso, de acordo com a empresa.
A psicóloga Cláudia Egypto afirma que, nos últimos tempos, as pessoas não têm “topado abrir mão da sexualidade” com a chegada de uma certa idade. Para muitas dessas pessoas, a saúde sexual dentro dos relacionamentos amorosos faz parte da vida entre casais juntos há décadas e de namoros recentes. Outra característica daqueles que buscam amores nessa idade é a seletividade. Saber o que querem, como gostam de se relacionar e conhecer os próprios limites favorece o encontro de pessoas mais compatíveis.
Para além do sexo, o companheirismo é um dos principais motivadores para a procura de relações. “Elas buscam relacionamentos com muito mais maturidade, não tem mais aquela pressa do jovem, aquela inconsequência. Ela está buscando companhia, o diálogo, viver coisas juntos, viajar, ir ao cinema, sair para jantar, tomar um vinho. Às vezes você vê que são pessoas que já perderam seus companheiros, tiveram uma relação feliz por anos e querem continuar vivendo isso, mais um grande amor”, diz Cláudia.
Cláudia, que é especialista em terapia de casal, também relata que pessoas casadas há anos têm buscado viver de forma mais satisfatória. A intimidade e a história construídas ao longo do período da relação faz com que a comunicação se torne mais fácil. Com isso, quando é chegada a hora de “desacelerar”, com obrigações como trabalho e cuidado com os filhos já concluídas, divertir-se individualmente e como casal se torna novamente uma prioridade.
“Aqueles que já estão há muito tempo juntos, já se conhecem, têm tempo para se curtir, fazer novos passeios, buscar novos projetos”, diz Cláudia. Fernanda também explica que, apesar de talvez serem necessárias adaptações das experiências conforme o contexto e as limitações dos dois, investir em algo que não foi possível viver na juventude e “se redescobrir” é um aspecto positivo das relações na maturidade.
Seja em uma reconexão ou na formação de novos laços, Cláudia orienta que as pessoas que procuram amor na maturidade se apresentem como são. “Não precisa buscar se travestir de uma personalidade que não é a sua, não tem que parecer mais jovem”, diz a terapeuta. “Assim, ela vai atrair o que ela busca. Se a pessoa estiver aberta, isso vai acontecendo naturalmente”.


Adriana Pimenta é escritora do livro "Quando o Futuro Chegou e Encontrei um Pentelho Branco", publicado pela Primavera Editorial. Ela é jornalista e pós-graduada em Formação de Escritores de Não Ficção pelo Instituto Vera Cruz. O livro, escrito em meio a uma crise pessoal, busca respostas sobre a chegada à maturidade, os desafios e medos de olhar para o passado e para o futuro ao se perceber na metade da vida.
O POVO - Por que você decidiu escrever o livro?
Adriana Pimenta - Na época eu estava vivendo uma crise dos 40, e eu queria entender se a crise existia mesmo ou se estava só na minha cabeça. Muitos falavam ‘Existe a crise dos 40’, outros falavam ‘É a partir dos 40 que a vida começa'. Eu vivi uma crise dos 40 por alguns motivos, algumas questões da minha vida, e uma delas foi o fato de aos 42 anos eu estar solteira. Eu me sentia bem oprimida por estar solteira dentro de uma sociedade que valoriza o matrimônio como escala social. E aí eu decidi fazer. Fui colocando o que eu sentia no papel, comecei a entrevistar especialistas para entender se a crise dos 40 existia, sociólogos, antropólogos, psicólogos. E tem um capítulo específico que trata da vida amorosa das mulheres na maturidade no contexto contemporâneo de hoje. Como a mulher madura é vista e como ela perde o valor na nossa sociedade ao passo que ela envelhece, que nada mais é do que estão chamando agora de etarismo.
"A mulher é muito afetada pela cultura sexista que existe hoje. E eu descobri nos meus estudos que essa questão da “solteirona” vem lá do século XVI.""Adriana Pimenta
OP - O modo como a sociedade vê mulheres nessa faixa etária influencia a existência dessas crises sobre relacionamentos amorosos e vida sexual?
Adriana - Eu acho que sim, tem muito para mudar ainda. Às vezes a gente vê o assunto sendo discutido em uma novela e pensa que está mudando. Mas tem muito o que mudar. E quando eu comecei a fazer o livro, eu comecei a questionar por que a mulher tem essa pecha de "solteirona" e um homem de 40 e poucos anos é visto com bons olhos. Ele é um bom partido que não foi fisgado, e a mulher solteira com 40 e poucos anos é encalhada. Ela perde o valor, isso vai afetando a autoestima dela. A mulher é muito afetada pela cultura sexista que existe hoje. E eu descobri nos meus estudos que essa questão da “solteirona” vem lá do século XVI.
Naquela época, se as mulheres não se casavam, elas eram consideradas um fardo porque a família tinha que sustentar. Então é uma visão capitalista. E depois, lá para o final do século XIX, as mulheres solteiras eram um problema social porque, além de serem sustentadas, elas eram vistas como uma ameaça para as mulheres casadas. Surpreendentemente, isso existe até hoje. Isso afeta a mulher que veste essa carapuça. Ela se acha velha demais para se relacionar, para se casar, ter filhos, muitas acham que o tempo já passou. E isso não é verdade.
"Elaborar essas questões dentro de mim, colocar no papel e conversar com especialistas me fez ter uma nova perspectiva de vida para mim e para os outros."Adriana Pimenta, escritora
OP - Como você acredita que as pessoas podem superar isso? O que você fez para fazer as pazes com essa nova fase da vida e com as mudanças que ela traz para as suas relações amorosas?
Adriana - Tem umas pesquisas que também falam que a nossa vida segue um fluxo como se fosse a letra "u". Naquela curvinha, seria quando todos nós estamos com 40 a 50 anos. Como a gente está na fase mais baixa, a nossa ascensão começa depois dos 50. Com 40 e poucos anos, a gente olha para trás, vê tudo que construiu. Muitos ficam insatisfeitos com o que conseguiram realizar e percebem que muitos dos sonhos não foram realizados. Como eu acho que a gente pode resolver isso? No meu caso, eu escrevi um livro, e isso foi muito terapêutico para mim.
Elaborar essas questões dentro de mim, colocar no papel e conversar com especialistas me fez ter uma nova perspectiva de vida para mim e para os outros. Então primeiro precisa mudar dentro da gente. Por que tem aquele ditado que diz 'quando a gente muda, o mundo muda'? O mundo mudou porque a nossa perspectiva mudou. Fazer um mergulho interno ajuda muito, para a gente começar a desconstruir as coisas que a gente ouve desde criança, que mulher tem que casar para ser feliz, tem que ter filho para ser feliz, que mulher sozinha é mulher que ninguém quis, que é encalhada, solteirona, infeliz. Essa desconstrução tem que partir de dentro da gente.
OP - Você conseguiu encontrar impactos positivos desse processo nas suas relações?
Adriana - Não tenho dúvidas! E como mudou a forma como eu me relaciono hoje! Hoje eu me relaciono de outra maneira. Primeiro, eu não idealizo mais. É uma coisa que a mulher sempre faz. A mulher quando conhece um homem ou outra mulher sempre idealiza. Ela se pergunta 'Será que é esse?' ou 'Será que é essa, o amor da minha vida?'. E pro homem, quando ele conhece um homem ou uma mulher é só mais uma pessoa que ele vai conhecer e vai ver o que vai acontecer. Parar com essa idealização é um passo importante. Se respeitar também.
Uma coisa que acho que muitas mulheres fazem, e eu já fiz também, é namorar alguém que a gente sabe que não tem a ver com a gente, que a gente nem gosta tanto, mas fica para não ficar sozinha. É um outro exercício que temos de fazer: entender o que a gente quer e o que faz bem pra gente. Eu acho também que não existem receitas prontas. Esse mergulho interno às vezes é difícil de fazer, mas está dentro de nós.

>> Ponto de Vista
Por Anne Joyce Lima Dantas
"Falar sobre envelhecimento hoje é algo urgente, pois por muito tempo discutimos sobre uma velhice, como se o processo de envelhecer fosse igual para todos, desconsiderando a interseccionalidade que essa discussão carrega. Por muitos anos, produções científicas apresentavam uma velhice historicamente marcada por limitações físicas, mentais, sexuais e, principalmente, ao processo de finitude, demarcando modos de vida e quais pessoas estavam autorizadas a vivê-los. Esta delimitação histórica envolve toda uma estrutura social, política e existencial de como a sociedade enxerga a velhice, quais políticas são direcionadas a estas pessoas, quem estuda o envelhecimento ((re)afirmando concepções) e quais significados a velhice tem para as pessoas idosas.
Precisamos considerar que a experiência do envelhecimento é diferente diante do gênero, da raça, da classe e das sexualidades que essas pessoas vivenciam, por isso a importância em falar sobre velhices. Homens e mulheres vivem experiências distintas no que diz respeito ao processo de envelhecimento, principalmente quando o assunto é o corpo.
Um exemplo disso está na maneira como se enxerga o cabelo grisalho em um homem ou em uma mulher, trazendo a ideia de que um homem grisalho é atraente/maduro e uma mulher que assume seus cabelos brancos é desleixada/largada. Isso impacta diretamente na saúde mental, no processo de envelhecimento de mulheres, na sua relação com o corpo, suas relações amorosas e sexuais.
Além da delicada relação com o corpo que envolve a velhice (principalmente de mulheres), temos o tabu diante das sexualidades de pessoas idosas, pois existe uma imagem social e cultural de que as experiências de sexualidades são “exclusivas” à juventude, ao corpo jovem. As relações eróticas e sexuais apresentadas por meios de comunicação e redes sociais não expõe corpos que envelhecem como potencial de vitalidade e sexualidades. Principalmente quando o assunto é a experiência da sexualidades na velhice de pessoas LGBTQIA+.
"Precisamos considerar não só a pluralidade diante das velhices, como diante das sexualidades e expressões de sexualidades. "Joyce Dantas, psicóloga
Falar sobre sexualidades na velhice é um tabu, mas as experiências de sexualidades de pessoas idosas que subvertem a norma social de gênero, identidade e sexualidade são ainda mais silenciadas. Precisamos considerar não só a pluralidade diante das velhices, como diante das sexualidades e expressões de sexualidades. A forma como pessoas idosas vivenciam o prazer, a eroticidade, a sexualidade se difere, muitas vezes, do que socialmente e culturalmente consideramos sexualidade, sexo, eroticidade ou prazer. Existem outras formas também plurais de vivenciar a sexualidade para além do que a indústria cultural/pornográfica desenha."
Anne Joyce Lima Dantas, psicóloga clínica, mestre e doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisa gênero e sexualidade na velhice
Histórias de amor que driblam o tempo

Histórias de amor são histórias de encontros. E eles podem acontecer em qualquer espaço e a qualquer instante. Silvana e César compartilhavam as reuniões no centro espírita que frequentavam, Noelia e Manuel se conheceram além fronteiras pela internet. A dança uniu Marlen e Chico. Alice e Marcyanna vivem um amor de 20 anos que agora vão formalizar com o casamento. Em comum, são amores que subverteram temporalidades e se firmaram pelas afinidades.
A seguir, narrativas de amor fincadas na maturidade.

Silvana Andrade, 69, já tinha decidido "ser uma mulher livre” e não ter mais relações amorosas aos 59 anos, tendo passado por dois grandes relacionamentos. O que ela não esperava era que César Moreira Régio, 76, iria ganhar o coração dela. De conhecidos trocando olhares no centro espírita que frequentavam, nasceu um amor imprevisto. Com oito anos de namoro e dois de casados, Silvana e César compartilham e celebram a vida em cumplicidade.
Silvana Andrade e César Moreira
No início, Silvana conta que César a chamou para cinco encontros até ela finalmente aceitar sair com ele. “Eu me produzi toda, botei uns sete vestidos na cama, porque nada ficava bem, eu queria me achar bonita, me pintava, colocava perfume”, disse. Depois de um almoço e uma caminhada na praia, Silvana soube que fez bem em aceitar o convite.
“Vamos ver se depois do almoço ele vai me convidar para algum lugar, porque se ele convidasse, tudo terminaria ali. Mas ele foi muito cavalheiro, me levou uma rosa. Então pensei: ‘Esse aí vai me amar, vai começar pelo coração e não pela matéria’”, relembra. Com isso, Silvana e César reencontraram a sensação inebriante de um novo amor.
"Íamos aos cafés, cinema, passear na Beira Mar, passeávamos nos trenzinhos das crianças e corríamos na praia. Eu voltei a ser criança, adolescente. A minha neta dizia: ‘Vó, eu não lhe conheço mais.’” Um dos momentos em que percebeu que estava apaixonada foi quando César lhe roubou um beijo. “Ele me deu um beijo e correu, e eu não queria que ele corresse, eu queria um abraço, queria uma coisa mais picante. Fiquei decepcionada, mas fiquei em busca de ir atrás do que eu queria”, conta.
A relação, no início, não foi bem vista por todos da família. “Meu filho mais velho, muito ciumento, não apoiou, mas eu disse: ‘Meu filho, tanto faz você apoiar ou não. O amor é meu, eu vou viver.’” O jeito firme de decidir sobre a própria vida não veio com a maturidade, pois Silvana é assim desde a juventude.
“Sempre fui uma pessoa que gostei muito de viver a vida. E para você me dizer que eu não posso fazer uma coisa, você vai ter que me provar o porquê”, afirma Silvana. No entanto, a experiência de amar, para ela, com certeza mudou com a idade. “Com a vivência que eu tenho, com o que eu aprendi, hoje eu sei que eu vivo a melhor fase da minha vida.”
“Deus é tão maravilhoso que colocou na minha vida essa criatura que eu amo muito e que eu costumo chamar de meu favo de mel. Ela é corajosa, perseverante, lutadora e tem fé. Graças a Deus estou ao lado dela sempre”, diz César. (Alexia Vieira)

Noelia e Manuel contam uma história de amor que rompeu fronteiras e barreiras da idade
A história do casal Maria Noelia Maropo, de 69 anos, e Manuel Araújo, de 75 anos, é um exemplo de que o amor pode vencer fronteiras. Natural de Fortaleza, Capital cearense, ela conheceu em um site de relacionamento quem viria a se tornar seu esposo. Ele nasceu na cidade de São Filipe, em Cabo Verde, Portugal. Juntos há 12 anos e casados há oito, o casal mora atualmente em Orlando, nos Estados Unidos.
Após o divórcio do primeiro casamento de Noelia, a socióloga passou 22 anos solteira. Visitando um site de relacionamento na época, ela encontrou o engenheiro elétrico Manuel, quando estava em Miami a passeio, enquanto o pretendente estava em Orlando. Para conquistar a atual esposa, Manuel contou que se aproximou virtualmente dela com boas atitudes e sendo sempre verdadeiro.
"O perfil dela atraiu a minha atenção e enviei-lhe um e-mail. Assim, a bola começou a rolar, resultando no que hoje é, acho, um amor firme. Anos atrás, as pessoas normalmente se encontravam em igrejas, em organizações da comunidade, em viagens, enquanto caminhavam em parques, em universidades, em bares etc. Hoje em dia, com a vida corrida que as pessoas têm, esse tipo de aventura ficou mais fácil com a internet", explica Manuel.
"Ele pediu a minha mão em casamento aos meus filhos, o que foi muito importante, porque eles se sentiram prestigiados por ele."
As conversas, que inicialmente eram mantidas somente pela internet, passaram a se estender para ligações telefônicas. O idioma falado por eles desde sempre até os dias atuais era o português usado no Brasil. Morando em países diferentes, os encontros foram acontecendo sempre que Noelia visitava os Estados Unidos a passeio. Depois, Manuel começou a visitar Noelia também no Brasil e conheceu os três filhos dela que, desde o começo, aceitaram com alegria a ideia de que a mãe estava iniciando um novo relacionamento, desta vez em uma fase mais madura da vida.
Noelia e Manuel contam uma história de amor que rompeu fronteiras e barreiras da idade
Apesar da história de amor parecer com a de filmes, a socióloga explica que o tempo solteira não foi fácil, além do receio que teve em se abrir para uma nova pessoa. “Eu me tornei um laboratório ambulante, onde eu analisava quem se aproximava de mim e desistia quando via que não dava certo comigo. Qualquer pessoa que se aproximasse de mim e tivesse o mesmo comportamento do meu ex-marido, eu saía de perto sem olhar para trás, porque eu era consciente de que não daria certo. Eu não ia suportar. Isso foi muito bom, porque eu preparei a cabeça dos meus filhos, que abraçaram logo o Manuel em todos os sentidos”, explica Noelia.
Os 17 anos e meio em que ficou casada com o primeiro esposo são descritos por Noelia como um tempo em que ela conheceu a “desarmonia do inferno”, uma vez que o matrimônio teve diversas complicações. Manuel não ter nenhuma semelhança no quesito personalidade com o ex-cônjuge dela foi um dos fatores determinantes para que ela soubesse que estava tomando a decisão certa.
"O amor é um sentimento de carinho especial que toca corações, é abnegação, responsabilidade, algo que faz parte da alma""
A socióloga descreve o atual esposo como alguém íntegro. “Ele pediu a minha mão em casamento aos meus filhos, o que foi muito importante, porque eles se sentiram prestigiados por ele. Eu nem sei dizer qual dos meus três filhos gosta mais dele.” Apesar dos longos 22 anos de espera e sozinha, Noelia diz que sempre soube que “a pessoa certa chegaria no momento certo”. Era uma prioridade para ela só casar com alguém quando nenhum dos três filhos fosse mais dependente dela.
Com a aprovação dos filhos de Noelia, assim como dos três filhos de Manuel, o casamento foi realizado na Praia de Aquiraz, no Ceará, em outubro de 2014, após cerca de quatro anos de namoro. O processo para que o matrimônio desse certo, no entanto, foi longo, uma vez que eles precisaram de diversos documentos para que fosse possível oficializar legalmente a união por conta dos dois casamentos anteriores de Manuel, com outras duas brasileiras.
Os dois moraram no Ceará por um tempo, em um condomínio localizado na Praia do Beach Park, até que decidiram, em comum acordo, que morar nos Estados Unidos seria a melhor opção. O engenheiro diz que até a saúde melhorou depois do casamento, uma vez que, segundo ele, quando uma pessoa se encontra relaxada, despreocupada e com uma boa dieta alimentar, ela até dorme mais e melhor. Ele também passou a economizar mais depois de casado.
Para Manuel, a única diferença em se abrir para um novo relacionamento já na maturidade é que as experiências passadas abrem portas para que as pessoas possam conhecer mais sobre si mesmas. "Elas sabem o que evitar, no que devem investir e se elas são compatíveis ou não", pontua. Para Noelia, a diferença de relacionamentos iniciados entre idades mais jovens e na maturidade é grande, "porque nessa altura da vida, as pessoas já sabem o que querem e entendem o que suportam e o que não suportam".
Noelia e Manuel contam uma história de amor que rompeu fronteiras e barreiras da idade
Com opiniões semelhantes, o casal não considera que tenha quebrado paradigmas impostos pela sociedade de que existem tempo e idade certos para se abrir para um novo amor. Eles acreditam que isso acaba invalidando e gerando certo preconceito de que a maturidade não é mais momento para namorar. "Quando a gente tem um sonho, ele se realiza em qualquer idade", pontua Noelia.
Citando a Bíblia, Noelia acredita que a existência do ser humano só foi possível através do amor, que permitiu, com o passar dos séculos, que o número de pessoas em todo o mundo fosse multiplicado. Para ela, o amor também é um ingrediente especial para que as pessoas se sintam completas e realizadas.
"O amor, genericamente falando, é uma afeição inexplicável que um ser humano sente por outro, com o qual se completam e sem o qual são incompletos. O amor é um sentimento de carinho especial que toca corações, é abnegação, responsabilidade, algo que faz parte da alma", completa Manuel. (Marília Serpa)

Uma mistura do que já foi vivido com a coragem de viver novamente, mas de uma forma madura e tranquila. É assim que a jornalista Márlen Martins, 57, e o também jornalista Chico Nobre, 70, redescobriram novamente no amor uma forma de viver a vida. Perto de completar cinco anos juntos, o casal relembra o início da história, em junho de 2016. Foi a dança a principal condutora do primeiro contato entre os dois, durante um encontro com amigos em comum em um espaço para dançar na Capital cearensse.
Márlen não estava a procura de um relacionamento sério quando conheceu Chico. Segundo ela, na época em que o conheceu, o momento era de aproveitar a vida de solteira, conhecendo pessoas novas, saindo com as amigas e namorando de uma forma mais descomplicada. Mas, Chico, que havia se divorciado há pouco tempo, comenta que sempre gostou de ter uma companhia. “Ele foi ao longo desse tempo me conquistando até a gente chegar em um momento de se envolver mesmo”, comenta Márlen.
Os dois resolveram dar mais um passo em quase nove meses de amizade e iniciar um relacionamento mais sério. O pedido, feito por Chico, contou com auxílio de uma música do cantor Paulinho Moska: “Namora Comigo”. “Eu já estava envolvida e ele também, então foi uma confirmação daquilo que já estava acontecendo”, lembra Márlen.
Ao falar de amor na maturidade, os dois não têm dúvidas de que vivenciar o sentimento nesta fase é, de fato, mais leve e tranquilo. Segundo eles, as vivências e o peso de já ter construído uma vida ao longo dos anos ajudam a ter um namoro destinado apenas para conhecer um ao outro, sem as preocupações da vida adulta, por exemplo.
Márlen Martins e Chico Nobre, casal que se uniu durante na maturidade
“A gente não tinha mais aquela necessidade de ter uma família com filhos e nem uma necessidade de um casal que começa jovem, como querer um equilíbrio financeiro, como a compra de um imóvel. A nossa visão maior era de viver em paz, de viver feliz, de viajar, de diversão e aproveitar a companhia um do outro”, destaca Chico.
Márlen concorda: “O fato de você não estar preocupado com profissão, de ganhar mais, de filho que ainda está em formação, tira um monte de coisa da cabeça da gente e permite que a gente se preocupe mais e olhe mais para si e para o outro. Eu senti muito essa diferença de outros relacionamentos que eu tive quando eu fui casada”, explica.
Ambos já vinham de relacionamentos longos, os dois com filhos, mas não esperavam que poderiam dar uma nova chance para o amor. Ao falar de Márlen, Chico cita: “É uma mulher muito inteligente, ela tem experiência de vida, e isso é bom porque ela sabe o que quer”.
Para a jornalista, a decisão do namoro foi muito segura. “Eu sou muito romântica desde o meu primeiro casamento. Eu queria um amor assim com mais dedicação, e eu acho que hoje eu vivo isso que eu desejava. Eu acho que a minha visão do amor mudou porque eu achava que nunca encontraria mais essa possibilidade”, confessa.
Apesar de estarem na idade madura, eles dizem que os aprendizados são sempre constantes, como também o despertar de sentimentos novos. Segundo Márlen, Chico contribuiu para a autoconfiança dela. “Ele me ensina muito sobre paciência e planejamento porque eu tenho um jeito muito tempestiva, e ele já é mais tranquilo."
Os dois acreditam que o amor é transformador, e o sentimento é levado ao trabalho, família, cuidado com animais, plantas ou qualquer atividade em que uma pessoa esteja envolvida. “A gente passa a entender mais as outras pessoas, a gente fica mais leve. E o amor é isso, ele leva você a ficar mais emotivo quando você ama realmente, e isso a gente transfere para a vida”, diz Chico. (Mirla Nobre)

Alice e Marcyanna estão juntas há 20 anos e vão oficializar o casamento em julho próximo
Despretensiosamente, uma carona para uma amiga em comum fez com que Marcyanna Gomes da Silva, 47, encontrasse Alice Oliveira, 65. Em um dia qualquer de 2002, Marcyanna ia buscar uma colega na casa de Alice. As duas se conheceram ali e, até o fim daquele ano, já estavam apaixonadas. No ano seguinte, começaram a morar juntas. Tão naturalmente quanto aquele primeiro encontro, 20 anos se passaram.
“Essa foi uma relação que foi construída sem a gente ficar se apegando em alguns protocolos que existem”, diz Alice. Fotos, presentes, comemorações a cada novo mês juntas. Essas coisas podem ser comuns para vários casais, mas para Alice e Marcyanna, o tradicional quase não passava pela cabeça.
Por muito tempo, o casamento não foi uma opção para as duas, pois pessoas do mesmo gênero ainda não podiam ter este vínculo reconhecido de forma legal. Mesmo depois de a possibilidade existir, Alice não se atentava para isso, embora continuasse a construir uma vida ao lado de Marcyanna — ou Marcinha, como chama carinhosamente — sem sentir necessidade da validação.
Alice e Marcyanna, casal está junto há 20 anos
“Estamos numa relação muito revolucionária, uma relação lésbica é revolucionária, qualquer uma dentro da homoafetividade. E eu sempre tive sérios questionamentos para o tipo de casamento que se tem, tradicional. Ter uma relação que considera revolucionária e de repente entrar dentro desse circuito é uma coisa que não me era tranquilo, me incomodava”, afirmou Alice.
O pedido foi feito muitas vezes por Marcyanna, mas a ideia só passou a fazer sentido para Alice com o passar do tempo. “A idade vai passando, tem muitas coisas que acabam sendo diferentes de quando eu tinha 20, 30, 40 anos. [O casamento] nunca foi o objeto de desejo da minha vida. Queria ter alguém, ponto.”
Em julho de 2022, as duas devem passar pelo ritual junto com outros casais LGBTQIA+ no casamento coletivo promovido pelo Centro de Referência LGBT Janaína Dutra, de Fortaleza, e pelo Centro Estadual de Referência LGBT Thina Rodrigues, do Governo do Ceará. O anúncio do evento “bateu” no coração de Alice, e ela soube que era a hora.
Com a data marcada, Alice reflete sobre os 20 anos deste amor revolucionário: “Na realidade nós já somos casadas há 20 anos. Nós temos uma relação, nós temos o sentimento. Aquilo que colocam 'na alegria e na tristeza, na saúde e na doença', isso a gente vivencia”. (Alexia Vieira)