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Os danos psicológicos causados por uma tragédia climática
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Ciência e Saúde

Os danos psicológicos causados por uma tragédia climática

| SEGUNDO DESASTRE | Atendimento inicial adequado a vítimas é crucial para redução de traumas e estresse
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Foto de apoio ilustrativo. Um homem navega em um barco em uma rua inundada de Eldorado do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil, em 9 de maio de 2024.  (Foto: Carlos FABAL/AFP)
Foto: Carlos FABAL/AFP Foto de apoio ilustrativo. Um homem navega em um barco em uma rua inundada de Eldorado do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil, em 9 de maio de 2024.

Assistir à água subir, invadir o lar e inundar cama, sofá, geladeira, brinquedos das crianças, fotos, roupas. Ter de sair de casa e não saber quando voltar. Passar por uma enchente ou outro desastre climático, como o que assolou o Rio Grande do Sul e deixou milhares de pessoas desabrigadas, causa impactos psicológicos imediatos e duradouros nas vítimas, voluntários e socorristas.

Sentimentos de medo, choque, ansiedade, raiva e frustração podem estar presentes nos primeiros momentos após a tragédia. Além deles, a culpa por deixar uma pessoa, um animal ou objetos importantes para trás pode surgir. Há quem sinta até mesmo vergonha de ter sobrevivido.

Apesar de alguns sentimentos serem comuns a todos, a psicóloga clínica Fernanda Gomes Lopes explica que não é possível prever as reações apresentadas em situações extremas. “A gente tende a não acreditar que aquele evento negativo vai acontecer com a gente, acha que está muito distante. Diante da emergência em si, parece que é algo que conseguimos controlar, mas as pessoas não sabem como reagiriam”, afirma.

“Vai depender de diversas questões, até mesmo se aquela pessoa já vivenciou situações de crise antes”, diz a psicóloga hospitalar Aline Franco. Segundo ela, as sensações também podem ser físicas, como tremores, dores de cabeça e no corpo, além de insônia.

“Pode ocorrer confusão emocional e desorientação. Em casos mais extremos, a pessoa pode não ser capaz de cuidar dela mesma ou das pessoas próximas. Ela está tão desorganizada mentalmente que perde a capacidade de autocuidado naquele momento”, descreve Aline.

Perder um ente querido em um desastre climático é um dos desfechos mais traumáticos. No entanto, pessoas que conseguiram sobreviver, mas tiveram pertences engolidos pela enchente, também passam por um luto.

“O luto não é só quando alguém morre, mas quando a gente perde aquilo que também tem um grande significado. A pessoa tinha um universo pessoal que era conhecido, um quarto, um carro, qualquer coisa que fizesse sentido pra ela. Isso também exige tempo para a pessoa se organizar emocionalmente e traz grandes consequências psicológicas”, afirma Aline.

Compreender os eventos trágicos pode ser ainda mais desafiador para crianças. Por isso, Fernanda orienta os responsáveis a não mentir ou enganar, mas procurar uma linguagem adequada para a faixa etária.

“A gente tende a querer excluir crianças em momentos difíceis, mas elas sabem o que está acontecendo. Não querer dar tantas informações pode desencadear mais ansiedade. É importante transmitir segurança, validar o sentimento e dizer que está ao lado dela, mais do que falar que vai ficar tudo bem”, explica.

Depois do choque inicial, é possível que as vítimas lidem com sequelas psicológicas. Podem ser indicadas sessões de psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico. Depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e agudo são alguns dos transtornos comuns a quem passa por desastres. Profissionais que trabalham na catástrofe também devem receber atenção, pois podem desenvolver as mesmas questões, além do burnout.

“A gente tem que olhar tanto para as próprias pessoas que perderam algo como para quem está cuidando delas”, atenta Fernanda. O suporte, para ela, precisa ser pensado em forma de política pública por governos e instituições, como empresas e escolas. Os traumas ultrapassam a esfera individual e são sentidos de forma coletiva, como a pandemia, o rompimento da barragem de Brumadinho, de Mariana ou o acidente da Boate Kiss.

Um medo que não passa

Quando criança, Izabel Carvalho, 29, precisou se abrigar mais de uma vez em uma associação de moradores enquanto a água invadia sua casa localizada na Vila Cazumba, no bairro Jardim das Oliveiras, em Fortaleza. Morando no mesmo lugar até hoje, ela relata ainda ter medo das enchentes voltarem a acontecer.

Próximo de onde ela reside há uma lagoa. Quando o tempo era de muita chuva, o corpo d'água enchia e transbordava para as casas da vizinhança. "Ficava na altura da cintura dos meus pais. A lembrança é muito ruim, ficava com medo da água atingir o lugar que a gente ficava [associação]. Eu via crianças mais novas chorando, pedindo pra chuva parar. Era desesperador para os adultos que tentavam nos acalmar."

A água só baixava de nível três ou quatro dias depois. As famílias voltavam para casa com a missão de ver o que restou. Izabel já perdeu sofá, cama e roupas durante os alagamentos da infância. Os sentimentos daquela época nunca foram esquecidos, segundo ela.

"É uma coisa que não sai de você, pode passar o tempo que for. Até hoje eu ainda tenho medo. Quando está chovendo muito forte, a rua ainda enche d'água, só que ela seca um pouco mais rápido. Agora eu tenho uma filha, sentiria na pele o que minha mãe sentiu quando eu era mais nova para conseguir tirar a gente de casa", teme.

Primeiros socorros psicológicos podem evitar mais traumas

Os primeiros socorros psicológicos são uma forma simples de diminuir o estresse de vítimas de desastres climáticos, quando realizados por pessoas treinadas. Os tipos de acolhimento e cuidado logo após o evento traumático podem ter repercussões negativas ou positivas. Por isso, especialistas defendem formação adequada para profissionais que lidam com emergências e crises.

Para a psicóloga hospitalar e clínica Aline Franco, até o tom de voz e o contato visual fazem diferença na hora de atender uma pessoa que acabou de vivenciar um desastre. Explicar quem você é, de onde vem e por que está ali é importante para estabelecer o primeiro vínculo. "O acolhimento é mais sobre estar presente, não é sobre o que você diz, mas estar ali demonstrando que você se importa e quer ajudar da melhor forma possível", diz.

Se depois pode ser indicado acompanhamento terapêutico e psiquiátrico, imediatamente após a situação traumática a orientação é outra. "Não é interessante fazer intervenções profundas. Isso tem risco de potencializar o estresse", explica a psicóloga clínica Fernanda Gomes.

Segundo Aline, pesquisas da área da psicologia que estuda atenção à vítima de desastres e emergências mostram que relatar o ocorrido até 72 horas depois pode trazer mais danos e aumentar o risco de estresse pós-traumático. Não pressionar a pessoa a falar do acontecido é crucial.

"Ao fazer perguntas do tipo 'como foi para você passar por isso?', você está fazendo a pessoa acessar o sentimento que acabou de vivenciar. Se você não tem como dar suporte, é como abrir uma ferida e deixar a pessoa mais desestabilizada do que ajudar", afirma Fernanda.

Ouvidor do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE), o tenente-coronel Edir Paixão compartilha com outros profissionais da segurança pública os conhecimentos sobre primeiros socorros psicológicos por meio de cursos. Edir notou que a maioria das formações são para profissionais da saúde. No entanto, agentes de segurança também precisam ser preparados.

Além de desastres climáticos, policiais e bombeiros atendem pessoas em crise constantemente, seja devido a acidentes ou situações de violência. "Aplicando as técnicas no mundo real, a gente observou a diferença nas vítimas acolhidas, se acalmando mais facilmente, demonstrando gratidão naquele acolhimento, uma redução do estresse", relata Edir.

O autocuidado dos agentes é outro aspecto que merece atenção, para o tenente-coronel. "Dentro da segurança pública, muitas vezes acontece o numbing [dormência], a indiferença com a dor do outro como um mecanismo de defesa, para não se afetar. Ou a fadiga por compaixão, até mesmo transtorno de estresse pós-traumático. É preciso autocuidado para prestar esse socorro. Qualquer ajuda não ajuda, tem que saber como ajudar", afirma.

"As crises vão acontecer, como a gente pode treinar profissionais para estarem preparados diante dessas crises? Não preciso treinar bombeiro só para apagar o fogo, mas também para gerenciar as emoções dessas pessoas. Acredito que deveria ter esse mesmo nível de reconhecimento dos primeiros socorros físicos", afirma Fernanda.

Tão longe, tão perto 

Ana Mary C. Cavalcante, jornalista

A imagem da parede de baratas ficou na minha cabeça, mesmo que a parede tenha sido demolida, logo depois, e há 20 anos já, com a reforma da casa. Começou com uma barata, tentando escapar das águas do canal vizinho, que ganharam volume e força com o temporal e emergiram por todos os lados. Não tinha escapatória, para as baratas; e para o meu medo. Eu não podia correr, nem gritar porque era apenas o instante de salvar o que eu conseguisse salvar. Dos meus livros à minha mãe.

De repente, eram centenas de baratas, escalando a parede da cozinha, umas por cima das outras, voadoras até e que não conseguiam o voo sob o temporal, na tentativa desesperada, e quase humana, um conto pelo avesso de Kafka, de não morrer afogadas. Alguma vida contra toda morte.

A cena me assombra até hoje, quando chove e a rua desaparece, parecido quando se assiste a filme de terror, mas pior, porque você está dentro do pavor e tudo é assustador por anos e anos. Durante muito tempo, nem sei quanto porque não é o tempo do relógio, da hora marcada, mas é o tempo de viver, eu segui sem escapatória: se eu fechasse os olhos, as baratas, a água imunda que bebia caminhos, moradas e pessoas, o céu desabando sem fim... estavam dentro de mim. Um escuro. Também não existia mais silêncio no mundo: eram os gritos que eu não gritei, os pedidos de ajuda dos vizinhos, os olhos d’água-corrente dos meus pais.

A “chuva do século” foi manchete de jornal em 1997 e acontece, em mim, todas as vezes que o céu desaba. Seja perto, ou seja no Rio Grande do Sul. Eu sei dos desabrigos quando as perdas nos invadem. Depois daquelas 13 horas de chuva, restou-me o tempo que, nem sempre rápido, apenas, imensurável, me responde: tudo passa.

Fiquei ainda marcada pelo único sentimento maior que todos os medos daquele instante infinito: certo amor, voluntário por natureza, que, tão forte e grandioso quanto as águas, insurgiu de todos os lados. A solidariedade, de perto ou de longe, foi o meu resgate, de vida e de humanidade, há quase 30 anos. Até hoje é.

 

Dicas de cuidados psicológicos para vítimas de desastres ou emergências

1. Apresentação: dizer seu nome, de onde vem e explicar o motivo do contato. Não realizar toque físico a não ser que a pessoa precise ou peça.
2. Necessidades fisiológicas: verificar se a pessoa precisa de atendimento médico, comida, água, local para sentar ou deitar, alívio para o frio ou para o calor.
3. Comunicação clara: explicar ações antes de realizá-las, pedir permissão para se aproximar, não dar informações falsas, garantias ou promessas que podem não ocorrer.
4. Julgamento zero: não forçar relatos do que ocorreu, não julgar sentimentos ou falas, não interromper.
5. Reconexão: encaminhar a vítima a parentes, instituições, hospital ou outro local que possa atendê-la. Fornecer telefones institucionais úteis.
Fonte: Fernanda Gomes (psicóloga), Aline Franco (psicóloga) e Edir Paixão (bombeiro militar).

Números do desastre no Rio Grande do Sul

151 mortes
104 desaparecidos
806 feridos
77.199 pessoas em abrigos
538.164 nas casas de parentes ou amigos
458 dos 497 municípios foram afetados
Fonte: Defesa Civil do RS, com dados até 16 de maio.

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