O início do ano é sempre marcado por recomeços, metas e projetos. Costumamos planejar conquistas para o novo ciclo, e o cuidado com a saúde precisa estar incluído nesses planos. Infelizmente, a negligência com o bem-estar é uma realidade no Brasil.
País sofre com a falta de acesso à saúde de qualidade e, consequentemente, gera um padrão social de baixa procura preventiva, com a busca por ajuda ocorrendo apenas quando a doença já se manifestou. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que sete em cada 10 brasileiros (70,6%) não realizam check-ups regularmente.
O médico cardiologista e CEO do Instituto do Coração de Fortaleza, dr. Augusto Vilela, explica que o check-up não é um pacote de exames aleatórios, mas sim uma avaliação médica estruturada, baseada em idade, sexo, histórico familiar e hábitos de vida. O objetivo é prevenir doenças, diagnosticar precocemente e reduzir o risco de eventos graves, como infarto, AVC, câncer e insuficiência renal.
"Ele é fundamental para a maioria das doenças que vão além das cardiovasculares, englobando também as metabólicas, como alterações de colesterol e glicose, que começam de modo silencioso e insidioso. Dificilmente elas iniciam com sintomas; geralmente, os sinais só aparecem quando a enfermidade já está avançada. Por isso a prevenção é tão importante", destaca.
Ele esclarece que não existe uma idade específica para começar e recomenda que todos façam exames ao longo da vida. A partir dos 18 anos, o foco são exames básicos: aferir a pressão uma vez ao ano, controlar o peso (verificar o IMC) e checar os níveis de glicose e colesterol. O eletrocardiograma também é importante nessa fase.
"A partir dos 40 anos, o cenário muda. É uma janela em que as doenças começam a aparecer com mais frequência. Além das alterações metabólicas naturais da idade e da redução das funções renais e hepáticas, precisamos avaliar detalhadamente o histórico familiar. Pacientes com parentes de primeiro grau que tiveram morte súbita, infarto ou AVC precisam de uma avaliação específica", afirma.
Para as mulheres, o médico comenta que essa fase coincide, muitas vezes, com o climatério e a menopausa. O risco cardíaco aumenta devido à queda do estrogênio (hormônio protetor) e à alteração do perfil lipídico. É necessário realizar a densitometria óssea e, obrigatoriamente, a mamografia. Para os homens acima de 40 anos, a avaliação da próstata é essencial.
"Muitos perguntam se fazer check-up todo ano é exagero. Eu costumo dizer que exagero é tratar infarto e AVC que poderiam ter sido evitados. A doença pode começar na juventude, mas só se manifestar tardiamente. O exame mais importante é aquele adequado para a pessoa certa, individualizando o tratamento conforme o perfil e os riscos do paciente", lembra.
O médico observa que o SUS não possui um serviço estruturado de check-up, o que acaba sobrecarregando o sistema. Quem tem acesso a planos de saúde consegue realizar esses exames de forma mais ágil.
Para pacientes que já possuem comorbidades — como hipertensão, diabetes ou obesidade —, o acompanhamento deve ser feito a cada três ou seis meses, até que as doenças estejam controladas. Independentemente da idade, se o paciente for iniciar atividade física de moderada a alta intensidade, a avaliação cardiovascular é obrigatória para prevenir morte súbita.
Augusto Vilela alerta: quem não tem tempo para se cuidar terá que arrumar tempo para cuidar da doença. "A negligência com a saúde ocorre porque, muitas vezes, as doenças iniciais não doem. Temos uma cultura de procurar o médico apenas quando algo está errado. A educação é o ponto principal: quando a pessoa tem acesso à informação, ela muda sua relação com a saúde", finaliza.
Os benefícios de manter seus exames em dia - INFOGRÁFICO
1. Diagnóstico precoce
2. Prevenção de doenças
3. Mais qualidade de vida
4. Cuidado contínuo
Quando e com que frequência?
A recomendação geral é realizar um check-up uma vez por ano, mas a frequência pode variar de acordo com a idade e histórico familiar.
Até os 30 anos: exames básicos e acompanhamento clínico geral.
Entre 30 e 50 anos: incluir exames cardiovasculares, hormonais e de colesterol.
A partir dos 50 anos: atenção redobrada a exames preventivos de câncer, função renal e densidade óssea.
Principais exames do check-up anual
Embora a lista varie conforme o caso, os exames mais comuns incluem:
Hemograma completo
Colesterol e triglicerídeos
Glicemia e função hepática
Exames de urina e fezes
Eletrocardiograma
Aferição de Pressão Arterial
Dermatoscopia para prevenção do melanoma (câncer de pele).
Sorologias: Testes para HIV, Hepatites B e C e Sífilis.
Saúde da Mulher:
Papanicolau (Citopatológico): Fundamental para prevenção do câncer de colo de útero. Deve começar aos 25 anos (ou conforme orientação médica após início da vida sexual).
Ultrassom Transvaginal: Geralmente solicitado para avaliar cistos ovarianos, miomas ou endometriose se houver sintomas.
Mamografia: Anual a partir dos 40 anos, previnindo o cancer de mama
Hormônios: Avaliação do perfil tireoidiano (TSH/T4) e hormônios sexuais (FSH/LH/Estradiol) na transição da menopausa.
Saúde do Homem:
Autoexame Testicular: O câncer de testículo é mais comum em homens jovens (15 a 35 anos).
Função Hepática: Se houver consumo regular de álcool ou suplementos, exames como TGO, TGP e Gama-GT são indicados.
Próstata (PSA + Toque Retal): Inicia-se aos 50 anos para a população geral, ou 45 anos para homens negros ou com parentes de primeiro grau com câncer de próstata. O PSA mede uma proteína no sangue, mas não substitui o toque, que avalia a consistência da glândula.
Jovens Adultos (20 a 39 anos): A Fase de Monitoramento
Nesta fase, o corpo está no auge biológico, mas é aqui que doenças silenciosas (metabólicas e cardiovasculares) começam a criar raízes.
O Foco: Saúde metabólica, reprodutiva e dermatológica.
Adultos e Meia-idade (40 a 59 anos): A Fase Critica
O risco cardiovascular aumenta exponencialmente e inicia-se o rastreamento oncológico (câncer). O objetivo é interceptar problemas antes que se tornem eventos graves (como infartos ou tumores avançados).
O Foco: Coração, pulmões, próstata, mamas e intestino.
Sistema Cardiovascular
Teste Ergométrico: Avalia a capacidade cardíaca e isquemias sob esforço.
Ecocardiograma: Vê a estrutura e função das válvulas e câmaras cardíacas.
Escore de Cálcio (Tomografia): Cada vez mais usado para refinar o risco de infarto em pacientes assintomáticos, medindo a calcificação nas artérias.
Sistema Digestivo
Colonoscopia: As novas diretrizes (incluindo da American Cancer Society) recomendam iniciar o rastreamento de câncer colorretal aos 45 anos. O exame identifica e remove pólipos antes que virem câncer.
Sistema Ocular
Tonometria: Medição da pressão ocular para detectar Glaucoma, que é silencioso e causa cegueira irreversível.
60 anos ou mais: A Fase do monitoramento
Nesta etapa, o foco muda para a manutenção da qualidade de vida, prevenção de quedas e monitoramento de funções cognitivas e sensoriais.
O Foco: Ossos, cérebro, vacinação e vascular.
Sistema Esquelético
Densitometria Óssea: Essencial para diagnosticar osteoporose ou osteopenia. Mulheres devem fazer rotineiramente pós-menopausa; homens, a partir dos 70 (ou antes, se houver fatores de risco). Evitar fraturas de fêmur é uma prioridade de saúde pública.
Sistema Vascular
Doppler de Carótidas: Verifica se há placas de gordura nas artérias do pescoço que levam sangue ao cérebro, prevenindo AVCs.
Ultrassom de Aorta Abdominal: Indicado principalmente para homens fumantes ou ex-fumantes entre 65 e 75 anos para rastrear aneurismas.
Renal e Metabólico:
Ureia e Creatina: Com o envelhecimento, a taxa de filtração dos rins cai naturalmente, exigindo monitoramento para ajuste de doses de medicamentos.
Vitamina B12 e D: A absorção de nutrientes diminui, afetando a cognição e os ossos.