Se, para quem nasceu no Brasil em 1945, ganhar a perspectiva de 30 anos a mais de vida é algo excepcional (como ocorreu com o médico Alexandre Kalache), imagine para quem chegou a este mundo em 1916. As pessoas que nasceram naquela época tinham uma projeção de vida de algo entre 34 e 35 anos de vida, mas dona Guiomar Tavares Ferreira contrariou todas as estatísticas: no dia 25 de janeiro, ela completou 110 anos, lúcida, bem-humorada e sem doenças metabólicas, como diabetes, hipertensão ou colesterol elevado.
A festa de celebração reuniu mais de 300 pessoas. Houve bolo, missa e lembrancinhas com frases de efeito, atraindo familiares de vários estados do Brasil. Do casamento com Antônio Ferreira Neto, que durou 35 anos, nasceram nove filhos (apenas um já falecido), além de 28 netos, 46 bisnetos e seis tataranetos. O marido, Antônio, faleceu aos 64 anos, após ser internado para tratamento de problemas respiratórios.
Dona Guiomar nos recebeu em sua casa com muita leveza e doçura. Contou que, naquele dia, não se sentia tão bem por ter dormido mal e pela saudade de uma neta que viajara para Manaus na véspera, mas reforçou a felicidade com a nossa presença e com as comemorações. "Foi tudo muito bonito. Sou uma pessoa muito feliz e não me sinto velha", acrescentou.
Cercada pelo carinho dos filhos, dona Guiomar não aparenta o peso dos 110 anos. Natural da Lagoa Redonda, na região da Precabura, mudou-se para Fortaleza aos 3 anos para estudar, mas nunca esqueceu as suas raízes. Foi aluna do Grupo Escolar Visconde do Rio Branco, morou na Rua da Cruz Velha e hoje compartilha a memória de gerações com seus descendentes.
As filhas e netas presentes não escondiam o orgulho. Uma delas comentou: "Você conhece alguém que, aos 84 anos, tem a mãe viva? Sou uma privilegiada, tenho de aproveitar todos os momentos". Uma das netas, que herdou o nome da avó, tentava deixá-la ainda mais bonita para as fotos, ajustando acessórios e nos orientando a chegar mais perto e falar mais alto, para que ela se acostumasse com nossas vozes.
Isso não demandou muito tempo. Hoje, dona Guiomar possui limitações na visão e na audição, mas interage bem. Lamentou não conseguir ver os detalhes do meu rosto, mas elogiou minha voz. Ao longo da conversa, esforçou-se para responder a tudo o que foi perguntado. Apesar das dificuldades visuais e nos tornozelos, que limitam suas caminhadas, ela mantém a mente lúcida e o espírito alegre.
Entre suas paixões cotidianas estão o futebol — é torcedora declarada do Flamengo — e a culinária: ficou famosa pelo doce de caju, cujo preparo ela ainda orienta e que continua sendo vendido pela família de modo online. Ela mantém também uma rotina de fé, acompanhando as missas diariamente pelo rádio e pela TV.
Para ela, a vida é um aprendizado contínuo que deve ser celebrado com amor, provando que a idade é apenas um detalhe. Quando questionada sobre o segredo da longevidade, respondeu com simplicidade: "Não há mistério além de ter uma família boa, ser uma mãe dedicada e manter a fé através das orações".
A veia artística despertou cedo: aos 8 anos, memorizou o Conto do Beija-flor e passou a anotar peças de teatro para encená-las em sua comunidade, chegando a se vestir de homem para papéis de comédia. O hábito de escrever a acompanhou por toda a vida; anotava detalhes de todas as viagens que fazia — conhecendo estados como Amazonas, Rio de Janeiro e Espírito Santo — e, aos 80 anos, publicou o livro "Lembranças de Mim", que mais tarde virou tema de cordel, além de fazer um álbum de fotografias, com vários tipos de roupa - entre eles, maiô.
Obrigada dona Guiomar, por compartilhar sua experiência conosco.
Frases de dona Guiomar
“Não me sinto velha”
“Meus filhos são a herança que meu esposo me deixou”
“Viver muito não é fácil…É uma arte
“Se perguntarem por mim, diga que estou viva”