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Confusão em "hamburgueria" é notícia?

 

Daniela Nogueira

 

Entre as razões para que os fatos se tornem notícia nos veículos de comunicação de massa, está que o ocorrido seja relevante socialmente e desperte interesse público. É o que a teoria chama de “critérios de noticiabilidade”. Assim, o conteúdo jornalístico publicado na imprensa deve ser importante e interessante para quem o vê. Na semana que passou, um fato tomou conta da mídia principalmente online – a confusão de duas mulheres numa lanchonete (batizada de “hamburgueria”) no Meireles, bairro considerado nobre de Fortaleza.

Terça-feira, 9, foi o ápice da história. Um vídeo com a confusão foi disseminado em grupos de rede social, além de áudios dos envolvidos narrando o acontecimento e fotos das protagonistas do evento. Rapidamente, a história chegou aos sites de notícia. Os dois principais jornais cearenses, O POVO e Diário do Nordeste, divulgaram, em seus portais de notícia, o fato como objeto jornalístico, contando a história, reproduzindo o vídeo e veiculando as gracinhas que tomaram conta dos sites de entretenimento e das redes sociais. Na quarta, 10, o assunto arrefeceu. Na quinta, perdeu força. Na sexta, quase já não se falava da famigerada confusão.

 

A história não foi veiculada no jornal impresso – nem deveria. Começou e terminou no online, gerou audiência enorme para os portais de notícia e teve repercussão imediata. Mas e o jornalismo? Quão atentos fomos ao explorar o fato de modo saudável ao bom jornalismo?


VALOR HISTÓRICO DOS JORNAIS

De acordo com Naiana Rodrigues, professora de Jornalismo Multimídia e Convergência Midiática do curso de Jornalismo da UFC, deixou-se escapar uma chance de discutir o fenômeno social dentro da confusão. “Perdeu-se uma grande oportunidade de tornar aquela pauta importante, de não ficar preso àquela polêmica. Era preciso reverter a pauta, dar um caráter mais importante e, consequentemente, uma contribuição maior para a sociedade”, analisa.


Percebam que poderíamos, como destaca a professora, ter discutido vários outros assuntos a partir da briga – padrões de consumo, questões de gênero, feminismo/machismo e desigualdade social, só para citar alguns. Mas optamos por divulgar como notícia as agressões entre duas mulheres (ouvindo apenas uma delas), as ofensas devido ao preço de uma bolsa de marca de luxo, a pilhéria em torno da comida e até a chacota com os nomes das pessoas envolvidas. Um fato que ocorreu num ambiente privado (sim, frequentado pelo público) por conta de um assunto que interessava tão somente às pessoas relacionadas à história.


Naiana lembra que o jornalismo, instituição que é, não pode se restringir à lógica das redes sociais, pois corre o risco de perder sua credibilidade e relevância. Ela chama atenção para o fato de os veículos de comunicação terem uma importância histórica: “Os jornais ainda são um documento histórico. Temos que assumir essa responsabilidade e não simplesmente seguir a maré da efemeridade. Deve haver responsabilidade sobre como e o quê eu produzo. Não quero ver essa notícia da confusão no site do O POVO ou do Diário do Nordeste. Eu quero ler no BuzzFeed”, conta, referindo-se ao site de entretenimento que foca na divulgação de casos inusitados e cômicos.


DESIGUALDADE SOCIAL
Outro ponto que deve ser destacado é a forma da produção de conteúdo feita nos últimos tempos. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode gravar um evento em determinado cenário e publicar nas redes sociais. Basta ter um tom de polêmica, tragédia ou comicidade para, em instantes, gerar repercussão. Pode ser no quintal da sua casa, na cozinha da minha ou na lanchonete badalada. Mas daí a virar fato jornalístico é outra história.

 

Segundo o jornalista e sociólogo Ricardo Moura, a confusão em xeque é uma mostra da desigualdade social presente em Fortaleza – a bolsa “que vale vidas”, a localização do espaço da briga (em bairro nobre), o fato de envolver duas mulheres, por exemplo. “É uma síntese da sociedade. Fortaleza se estrutura em uma desigualdade social muito grande. A disputa ali não foi pela falta de educação de uma. Foi pelo poder, pelo espaço de privilégio da outra, que foi invadido. Foi claramente uma disputa de poder”, opina Ricardo, que é doutor em Sociologia (UFC).


Segundo o pesquisador, o assunto deveria mesmo estar nos sites, mas com um ponto de vista mais reflexivo a partir do que ocorreu. “As pessoas esperam que o jornal faça essa tradução do fato. O relato jornalístico ocorreu porque as pessoas, em algum momento do dia, pararam para procurar saber mais do assunto. Os veículos não são autônomos. Devem ser um espaço para debates”, avalia, ressaltando que há uma relação entre os fatos e o meio em que são publicados.


E é exatamente por isso que o tema não chegou ao jornal impresso. Na quarta, dia seguinte ao apogeu da repercussão, o assunto já havia “esfriado”. Fatos cômicos como este e de baixa relevância social têm sempre data de validade. Alguns duram um pouco. Com este, não passou de dois dias.


É preciso ressaltar duas análises pertinentes que foram publicadas no O POVO Online. O jornalista Ítalo Coriolano discutiu sobre a “sociedade do espetáculo” (http://bit.ly/2CX5lAD), e a jornalista Eduarda Talicy (http://bit.ly/2D865Hd) abordou o preconceito e a ridicularização na história. Poderíamos ter expandido as opiniões e tratado o assunto de maneira mais ampla – não focalizando apenas na briga pessoal – a fim de potencializar a credibilidade e cumprir a função social à qual fomos chamados quando decidimos pelo jornalismo.


NOVOS TEMPOS
Assumi o cargo de ombudsman (ouvidora) no O POVO em 7 de janeiro passado, dia do aniversário de 90 anos da Casa, após a gestão da competente Tânia Alves. Até o começo do ano que vem, estarei discutindo neste espaço assuntos relacionados ao jornalismo em geral. Quem quiser entrar em contato, para opinar, sugerir, criticar e até elogiar, é só ligar ou escrever. Os canais são os mesmos: ombudsman@opovo.com.br / (85) 3255.6181 / (85) 9 8893.9807 (WhatsApp).


Que sejam tempos produtivos e felizes para todos nós.

 

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