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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

Todos os anos de Marina


Querida Marina, você disse que às vezes esquece nomes e datas, mas sempre guarda as emoções. Confesso que minha memória também é dada a essa mesma categoria de falha. Não sei exatamente qual foi o ano do nosso primeiro encontro. Algo perto de 2008, eu acho. Mas dos meus sentimentos, eu lembro bem porque eu estava muito nervosa por te ver.


Escolhi um vestido bordado para agradá-la a primeira vista. É importante comunicar ao outro o quanto estar com ele nos vale. Meu vestido foi bordado pelas mãos de alguma talentosa artesã de Maranguape. É preciso ter bons olhos e dedos firmes para essa arte. Ela me enfeitou e eu nem sei o nome dela para agradecer aqui. Que pena. Não sei o nome, mas guardo o sentimento de profunda admiração.


É que eu comecei a aprender a bordar, querida Marina, mas descobri que minha vista já não daria conta da tarefa em sua nudez natural. Precisava mesmo daqueles óculos para perto, o acessório que a idade nos obriga a usar. Por que será, Marina? Por que a vista falha depois dos quarenta anos? Fico pensando se não deve ser um engenho da natureza para que fechemos mais os olhos cansados e assim tenhamos tempo para enxergar por dentro.


Agora que tenho óculos, voltarei à tentativa do bordado. Não tenho como meta bordar um vestido inteiro, como aquele branco que eu usava, nervosa, quando nos conhecemos. Ninguém tinha me avisado que você era essa dama tão brilhante quanto delicada. Tão sublime quanto generosa. Que certamente percebeu minhas mãos geladas e tratou de me deixar calma. Tanta gente estava ali por você, Marina! Tantas gerações de um público concentrado e emocionado.

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Supondo que isso tenha sido em 2008, mais ou menos, quase dez anos separam esse primeiro encontro do abraço que te dei semana passada. E da noite em que te ouvi falar coisas tão revolucionárias que talvez tenha parado de respirar por alguns segundos. Estávamos ali para ouvir você e aplaudir os seus 80 anos, um por um. Os da infância, os da juventude, todos os anos da sua vida merecem o nosso louvor.


Naquele primeiro encontro, Marina, você fez uma pergunta que não consegui responder. Buscar por essa resposta levou tempo e tomou meu coração. Pensei nisso por dez anos, quase todas as semanas. Sua presença esteve em mim, em forma de pergunta, como se fosse a metade de um mapa.


Em todos os seus 80 anos, um por um, você olhou nos olhos de tantas pessoas, sorrindo para elas, abraçando de verdade. Sempre elegante, cabelos bem arrumados, soltos ou presos. Esses olhos de lua cheia em céu azul, essas mãos que pousam. Essa força. Quanta força, Marina. Não estou mais nervosa, hoje somos amigas. Continuo usando vestidos bordados, mas ainda não sei bordar. Enxergo menos, entendo mais. O amor por você aumenta. Feliz aniversário, Marina Colassanti. Obrigada por cada palavra, pela beleza imensa desse chão de histórias que você nos deu para andar.


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