Zenilce Vieira Bruno
zenilcebruno@uol.com.brPsicóloga, sexóloga e pedagoga
Afrodite e Ares tiveram muitos filhos. Eros pequenino foi nomeado deus do amor. Embora criado com terna solicitude, Eros cresceu como as outras crianças. Permaneceu pequeno, rosado, bochechudo, de asas transparentes, rosto malicioso, marcado por covinhas. Alarmada com sua saúde, Afrodite consultou Têmis que respondeu de forma oracular: “O amor não pode crescer sem paixão.” Afrodite não compreendeu o significado oculto desta resposta, até que nasceu Anteros, deus da paixão, do amor compartilhado. Afrodite percebeu que, junto do irmão, Eros crescia e desabrochava, tornando-se um jovem esbelto e bonito, mas, quando dele se separava, voltava à sua forma infantil e hábitos brincalhões.
O mito nos coloca diante de uma íntima comunhão entre o amor e a paixão. Comunhão que se revela necessária. Comunhão que é condição mesma de crescimento, como se a paixão se constituísse num motor propulsor da vida, em sua dimensão sempre mais além. É como se ela viabilizasse a manutenção da vida, em estado de totalidade.
O tema da Paixão pode ser enfocado em múltiplos aspectos. No dizer de Platão, por exemplo, ela é comparada a fogosos cavalos que correm velozes dominados e guiados pela mão firme do cocheiro, ou então, em galope desenfreado, sem condução segura. Platão acredita que, sem paixões, a vida da alma seria raquítica, mas dominada por ela, seria arruinada em seus valores. Entre as dimensões possíveis a uma abordagem da paixão, faço aqui o enfoque de sua vinculação com o amor, com Eros.
Eros é caracterizado como sendo desejo, ânsia e eterna procura de expansão. Neste sentido, Rollo May o diferencia do sexo em sua dimensão mais zoológica, ou seja, aquele que quer a satisfação imediata do impulso e o alivio da tensão. Eros, ao contrário, assume as asas da imaginação humana, transcende a concretude, o significado, o instintual. É essa inquietação ontológica, essa transposição de limites, esse ir além de si mesmo, esse transgredir, buscar a vida em sua intensidade maior que se interpõe entre amor e paixão. Uma inquietação contada em verso e prosa na literatura de todos os tempos, um patrimônio do imaginário da humanidade. Muitas metáforas são utilizadas para anunciar esse gosto humano de ser inquieto e apaixonado.
Eros é um estado de união com o outro em alegria, beleza e paixão. Neste estado, desejamos ficar despertos, pensando no amado, recordando, vivendo devaneios e fazendo retrospectivas de experiências partilhadas. Uma espécie de estado pré orgástico. Semelhante ao estado que os chineses chamam de “experiência de múltiplo esplendor”, onde tudo é motivo de felicidade e encantamento. É esta ânsia de união com o parceiro, e não sua posse, a característica mais palpável em Eros.