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2 dedos de prosa com Igor Peixoto Torres Girão
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2 dedos de prosa com Igor Peixoto Torres Girão

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Por sua dissertação sobre o uso de jogos eletrônicos de áudio no processo de aprendizagem de deficientes visuais, o bibliotecário Igor Peixoto Torres Girão, 31, se formou, recentemente, mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Com a conclusão do curso, ele se torna a primeira pessoa com múltiplas deficiências do Norte e Nordeste a ter o específico título acadêmico.

 

Cego e de cadeira de rodas desde os 17 anos, quando contraiu uma bactéria, Igor enfrentou muito "preconceito velado" na universidade, na forma de "má vontade" ou de "desculpas para não modificar metodologias de ensino" de forma a integrá-lo melhor à turma. Mesmo assim, o rapaz construiu seu nome na academia e, agora, se prepara para iniciar uma nova etapa na carreira, enquanto bibliotecário da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult).

 

O POVO - O que representa para você a conclusão do mestrado em Ciência da Informação? O que você imagina que represente para quem o acompanhou de perto nessa jornada?

Igor Peixoto - A conclusão do mestrado representa a conquista de um sonho e uma vitória.
Significa a derrocada simbólica da mística de que pessoas com deficiências devem conter seus sonhos e deixar que outros liderem seus destinos. Certamente, essa aura de vitória se estende para quem me cerca. Sou um produto do amor e planejamento de muita gente que me apoia.

 

OP - O que você enfrentou para se inserir e se manter no ambiente acadêmico?

Igor - Enfrentei muito preconceito velado, escondido na forma de má vontade em me ajudar. Livros e texto apenas escritos, por exemplo, ou um professor que se recusou quando eu perguntei se poderia gravar a aula.

 

OP - Ouvir essas "desculpas para não modificar metodologias de ensino" foi o que motivou você a estudar formas de mediar informação para deficientes visuais?

Igor - De certa forma, sim. O primeiro impulso que tive foi de querer desmistificar o que se entende como "cultura cega". A cultura, como diz meu orientador e amigo (professor) Tadeu Feitosa, é a criação de algo onde reinava o nada. Fiz minha pesquisa para mostrar para as pessoas que nos tratam como invisíveis sociais que somos sujeitos, temos identidade, sonhos, objetivos e medos. Minha pesquisa tenta mostrar que a mediação da informação não é um caminho linear, como uma ponte, mas uma teia de relações culturais, sociais, afetivos e racionais entre indivíduos e sociedade.

 

OP - Por compreender que sua pesquisa faz diferença na sociedade, o Instituto dos Cegos do Ceará o homenageou com o troféu Waldo Pessoa. Esse reconhecimento o estimula de alguma forma? 

Igor - É um estímulo e tanto. Fui aluno de reabilitação lá entre 2006 e 2008. E foi como se eu estivesse devolvendo de alguma forma o que havia sido feito por mim lá, onde me acolheram e me ensinaram muita coisa.

 

OP - E agora, com o título de mestre, quais são os planos?

Igor - Quero focar no meu cargo de bibliotecário da Secretaria da Cultura. Poder sentir o que posso fazer, onde posso chegar e compreender como é ser um mediador.

 

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