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A indústria que não para durante o coronavírus

Em meio à crise humanitária e econômica em todo o mundo devido ao novo coronavírus, algumas empresas são cruciais para o enfrentamento da pandemia
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Info dom economia (Foto: Luciana Pimenta)
Foto: Luciana Pimenta Info dom economia

O impacto do novo coronavírus (Covid-19) na economia global ainda é incalculável. A única certeza é que perdeu-se o fôlego e danos extremos estão por vir. A atividade econômica desacelera e bolsas de valores do Brasil e mundo estão em queda. Enquanto algumas indústrias fecham as portas temporariamente para evitar o avanço da doença, as de equipamentos médicos, hospitalares, laboratórios e embalagens precisam produzir mais para atender a alta procura de determinados produtos em meio à pandemia.

O questionamento que se levanta é se a oferta conseguirá acompanhar a demanda nos próximos meses. Isso porque estima-se que o pico de casos ocorra entre abril e maio deste ano no Ceará. Neste mês de março, os consumidores relatam a falta de máscaras descartáveis de proteção e álcool em gel nas prateleiras das farmácias, supermercados e aumento nos preços.

Empresários do setor afirmam que há capacidade produtiva nas fábricas. No entanto, com o crescimento exponencial do consumo, a cadeia de suprimentos tem sido um problema que poderá gerar desabastecimento no curto prazo. Por exemplo, algumas matérias-primas são importadas da China, epicentro do novo coronavírus. Entre elas, a substância química carbômero, utilizada na fabricação do álcool em gel.

Além dos frascos e rótulos para os produtos. Segundo Roberto Romero Ramos, diretor financeiro do Sindicato das Indústrias de Papel, Papelão, Celulose Embalagens em Geral do Estado do Ceará (Sindiembalagens), houve um aumento de mais de 60% na procura. "A corrida nos supermercados e as indústrias têm aumentado substancialmente. Estamos trabalhando para que não falte e fazendo o controle com os fornecedores", explica. A entidade possui 21 associados.

O professor do Departamento de Teoria Econômica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Joseph David Vasconcelos, explica que o movimento do mercado tende a ser mais lento. Enquanto a demanda é mais elástica e pode crescer no curto prazo, a oferta responde de médio e longo prazo. "Pode levar um tempo até que essa transformação produtiva possa surtir efeito em cima da comercialização", destaca.

Outro ponto é que produtos dolarizados sofrem com a escalada do câmbio, impactando em toda a cadeia. "Como há um cenário internacional da situação de pandemia, a procura não é só brasileira. Outros países que vão concorrer pela demanda desse mesmo tipo de material e pode acabar, além de elevar os preços", exemplifica.

Medidas com desoneração de materiais médicos e hospitalares podem ajudar. Uma alternativa é priorizar os segmentos que atuam diretamente em situações de maior risco, como hospitais, clínicas e farmácias. Além da liberação de outros setores para produzirem os produtos. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que trabalha para zerar esses impostos.

Outro fator importante para equilibrar é o senso de coletividade. Observa-se que muitos consumidores têm comprados alimentos produtos de prevenção em excesso, dificultando pessoas de baixa renda que não têm condições de estocar adquirirem os produtos.

O executivo Luiz Antônio Trotta Miranda, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE), acredita que haverá uma estabilidade. "O consumo é o mesmo, mas as pessoas têm medo que falte e acabam comprando demais, afetando aqueles que não compraram. Como já existe muita gente estocando, a tendência é que, no segundo momento, a lei da oferta e demanda tenha uma regulação", diz.

Com o comércio fechado e menos gente nas ruas, haverá também redução do consumo. Na quinta-feira, 20, o governador Camilo Santana (PT) anunciou uma série de medidas duras para enfrentar a pandemia. Entre elas, o fechamento de diversos estabelecimentos, como shoppings, restaurantes, igrejas, lojas, feiras e academias até o dia 29 de março.

Também estão suspensas as atividade do setor industrial não essencial, será restrito o transporte intermunicipal nos próximos dias e montadas barreiras nas divisas com outros estados para evitar entrada de pessoas ou materiais infectados.

 

Entregas de farmácias e supermercados em alta

A estimativa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) é que o setor de comércio e serviços seja impactado negativamente em mais de R$ 100 bilhões nos próximos meses. A projeção tem como premissa a normalização das atividades a partir de maio. Caso a pandemia avance além desse período, o efeito poderá ser ainda maior.

Comas portas fechadas em razão da quarentena, empresas de diversos setores têm focado nas vendas online e no serviço de entrega, incluindo supermercados, farmácias e restaurantes. A startup de entrega Rappi registrou um aumento de 30% no número de pedidos desses estabelecimentos em toda a América Latina, durante janeiro e fevereiro último.

"No Brasil, tivemos um aumento de demanda três vezes maior nas duas últimas semanas, se comparado às duas semanas anteriores, em todas as verticais da Rappi. As pessoas se sentem mais seguras fazendo um pedido via Rappi e evitando concentrações massivas de pessoas. As categorias que registraram um maior aumento foram farmácias, restaurantes e supermercados", diz a companhia.

Para garantir a proteção dos motoqueiros, afirma, a empresa disponibiliza álcool gel 70% e panos desinfetantes, além de incentivar a entrega sem contato, por meio da opção "entrega sem contato" (que ficará disponível no app), em que os entregadores podem deixar o pedido na porta do cliente e se afastar por dois metros, para evitar a proximidade com a pessoa.

Outro exemplo é a Amazon, que anunciou a contratação de 100 mil funcionários para armazéns e entrega de produtos para atender o aumento de pedidos online recebidos nos Estados Unidos. A companhia disse que investirá US$ 350 milhões para aumentar os pagamentos dos funcionários nos EUA e Canadá em US$ 2 a hora. Para o Reino Unido, o reajuste será de 2 libras e, na União Europeia, a empresa vai pagar cerca de 2 euros a mais.

Procuradas, a 99 Táxis, Uber Eats e Ifood não informaram o crescimento da demanda, mas destacaram as cautelas com os profissionais e que adotaram medidas de prevenção, além de incentivos financeiros.

As vendas de álcool em gel da Cigel Cosméticos (que produz as linhas Alyne, Aseplyne, Delicaderm, Repele Mais e Pure) escalaram de 40 toneladas no primeiro trimestre de 2019 para 500 toneladas no primeiro trimestre de 2020, que ainda não fechou
As vendas de álcool em gel da Cigel Cosméticos (que produz as linhas Alyne, Aseplyne, Delicaderm, Repele Mais e Pure) escalaram de 40 toneladas no primeiro trimestre de 2019 para 500 toneladas no primeiro trimestre de 2020, que ainda não fechou

Aumento da produção

As vendas de álcool em gel da Cigel Cosméticos (que produz as linhas Alyne, Aseplyne, Delicaderm, Repele Mais e Pure) escalaram de 40 toneladas no primeiro trimestre de 2019 para 500 toneladas no primeiro trimestre de 2020, que ainda não fechou. A capacidade produtiva é de 8 toneladas por turno, totalizando 24 toneladas por dia.

De acordo com o presidente da empresa, Paulo Gurgel, o negócio está apto a receber a demanda crescente devido ao plano de expansão realizado ao longo do ano passado. No período, foram investidos R$ 7 milhões em novos equipamentos, máquinas, estrutura tecnológica e ampliação da área física. "Modernizamos e ampliamos o nosso parque. Isso nos deixou preparado para o mercado", explica.

A Cigel também contratou 24 funcionários. Destes, 14 entraram em fevereiro para atender somente aos pedidos de álcool em gel. "A demanda está muito alta, nós estamos recebendo demanda de alguns países e vários estados, mas estamos concentrando a nossa produção para nosso cliente históricos", frisa.

De acordo com Paulo, a Cigel não tem elevado os preços dos produtos e que não há justificativa para alguns revendedores aplicarem grandes aumentos. "O que houve foi apenas um repasse da inflação, o que ocorre todos os anos", afirma. Ele destaca que a empresa está preparada para receber os pedidos e tem trabalhado com os fornecedores para não quebrar esse fluxo em razão da ruptura na cadeia de matéria prima.

O laboratório cearense Biomátika também observa um aumento exponencial. A produção que era de duas toneladas passou para 7 toneladas por dia. De janeiro até o momento, foram investidos R$ 1 milhão, além de operar em mais um turno
O laboratório cearense Biomátika também observa um aumento exponencial. A produção que era de duas toneladas passou para 7 toneladas por dia. De janeiro até o momento, foram investidos R$ 1 milhão, além de operar em mais um turno

Investimento em ascensão

O laboratório cearense Biomátika também observa um aumento exponencial. A produção que era de duas toneladas passou para sete toneladas por dia. De janeiro até o momento, foram investidos R$ 1 milhão, além de operar em mais um turno.

Segundo José Dias, diretor do Biomátika, os pedidos de produtos vêm de todo o mundo, incluindo França, Itália e Cabo Verde. No entanto, a prioridade é o mercado interno, com prioridades para hospitais, farmácias e clínicas hospitalares.

"Neste momento, tem aparecido empresas de diversos segmento e temos procurado priorizar esses", explica. Ele acrescenta que a fábrica tem capacidade de atender à demanda. Porém, há dificuldades na cadeia produtiva. Há uma escassez de carbômeros (um das matérias-primas mais utilizadas pela indústria de cosméticos), que ajuda a transformar o álcool em gel. Isso porque o produto só é vendido na China. Outro ponto é o setor de embalagens e rótulos. As válvulas dosadoras (pumps), por exemplo, também são importadas.

Ele frisa que não houve acréscimos no preço do produto, embora o carbono seja dolarizado. "Na minha indústria, não são repassados aumentos. Continua o mesmo valor", diz, frisando que é preciso uma consciência do consumidor ao comparar o álcool em gel. A Biomatika fabrica marcas próprias (private label). Dentre elas, a vendida na rede de farmácias Pague Menos.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 18-03-2020: DOM: setores que tiveram aumento por conta da pandemia do coronavírus.Tampa pronta. Fabricação de tampinhas de plástico das embalagens de álcool em gel. Indústria JB Plásticos. Localizada do bairro Aracapé.  (Foto: Beatriz Boblitz/ O POVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 18-03-2020: DOM: setores que tiveram aumento por conta da pandemia do coronavírus.Tampa pronta. Fabricação de tampinhas de plástico das embalagens de álcool em gel. Indústria JB Plásticos. Localizada do bairro Aracapé. (Foto: Beatriz Boblitz/ O POVO)

De olho na nova demanda

Os setores de embalagens e rótulos têm registrado crescimento em meio à crise da pandemia. Durante um ano, a fábrica de tampas plásticas JB Plásticos Industrial produzia 100 mil artigos para garrafas de álcool em gel. Em razão da alta demanda devido ao novo coronavírus (Covid-19), a produção saltou para 500 mil somente de janeiro até o início deste mês de março.

A empresa está com três turnos, produzindo 20 horas por dia. Uma estratégia logística foi diminuir a fabricação de artigos de materiais escolares para priorizar as tampas destes produtos. Além disso, investimentos anteriores no maquinário foram cruciais para atender ao aumento da demanda. De acordo com a diretora da JB Plásticos, Glória Coelho, o trabalho em parceria com outros negócios tem ajudado a manter a produtividade.

"Houve crescimento de 100% nas vendas. Tudo que está produzindo já está sendo vendido. Para conseguirmos atender a todos os nossos clientes com rapidez e qualidade, já providenciamos a prestação de serviços com outra empresa", explica. A fábrica de médio porte, localizada no bairro Aracapé, em Fortaleza, possui cinco funcionários.

Ricardo Coimbra é mestre em Economia pela Universidade Federal do Ceará (UFC)
Ricardo Coimbra é mestre em Economia pela Universidade Federal do Ceará (UFC)

Caminhos para enfrentar a crise

O momento das empresas que estão nesse processo de crescimento de comercialização e de produção, principalmente, as do segmento de embalagens e produtos relacionados à área da saúde, alimentação e de higiene e limpeza, é de aumento das vendas e mostrar diferencial competitivo no mercado.

Algumas dessas empresas, quando têm composição de diversos segmentos, podem fazer uma realocação de profissionais de outras atividades, dentro do grupo empresarial, para esses setores que agora estão tendo esse crescimento de demanda. Então, é observar essa perspectiva de crescimento de lucratividade, mas relacionado com o aumento da produção. Visto que algumas empresas estão tendo a dificuldade de comercialização, pode ser também um momento de realocação de funcionários.

Aqueles que estão tendo dificuldade de comercializar alguns produtos que não terão demanda nesse momento podem também direcionar para a comercialização desses produtos que estão autorizados pelo Governo do Estado do Ceará para o fortalecimento da comercialização e lucratividade dos seus segmentos.

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