Logo O POVO+
Vivenciar a Páscoa com caridade. É o que indica padre Rino
DOM

Vivenciar a Páscoa com caridade. É o que indica padre Rino

Edição Impressa
Tipo Notícia Por
Rino Bonvini
Padre, psiquiatra, missionário comboniano
 (Foto: Igor de Melo)
Foto: Igor de Melo Rino Bonvini Padre, psiquiatra, missionário comboniano

Neste domingo, 12, o catolicismo inicia um nova fase: o Tempo Pascal. Após a passagem pela quaresma, é celebrada a ressurreição do Senhor. Considerada a mais importante festa cristã, neste ano de 2020, a data será vivenciada com igrejas vazias e casas cheias, decorrente da pandemia do novo coronavírus.

Em entrevista ao O POVO, o sacerdote e médico psiquiatra Rino Bonvini, que trabalha há 24 anos no Movimento de Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim, conta como viver esse período pascal e dá conselhos de como cuidarmos de nossa saúde mental em tempos de isolamento.

O POVO - Quais sentimentos precisamos ter nesta Páscoa em meio ao desafio de enfrentar a pandemia que estamos vivendo?

Rino Bonvini - Com certeza nossa vida será marcada profundamente para sempre por essa experiência de viver uma pandemia, que nos fez conviver mais próximos com a nossa fragilidade e nossa vulnerabilidade. É nessa precariedade e vulnerabilidade que redescobrimos o sentido mais profundo da fé. A fé cristã é baseada na Páscoa, a festa mais importante da nossa fé, pois resume a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo de Nazaré. É importante reaproximarmos o amor, nossa vontade de amar o próximo, mas também, nesse momento da pandemia, amar a nós mesmos como ao próximo.

OP - Como ajudar o outro a passar por essa fase de pandemia em meio ao distanciamento físico?

Rino - O apelo é: ser solidário. Sabemos que nessa temporada têm pessoas que vão passar fome, necessidades, vão ter um nível de sofrimento maior e, nessa época, que não falte a caridade para que nossa Páscoa tenha sentido. Estamos limitados nesse momento, mas isso não nos impede de sermos solidários e de valorizar nossas relações familiares. Temos mais tempo para redescobrirmos a beleza da amizade do nosso vizinho e temos a disposição dos meios virtuais que podem nos ajudar a nos relacionarmos.

OP - Como ter a mente sã diante do atual desafio?

Rino - Temos que ter consciência que somos seres bio-psico-socio-espirituais e que temos que cuidar da saúde do corpo, da saúde mental, com pensamentos positivos, nos sintonizar com tudo que está acontecendo de bom e belo pelo mundo. Do corpo físico, cuidamos com alimentação saudável, exercícios físicos, evitando as drogas. Temos que lembrar que as epidemias são fruto de um estilo de vida que os humanos estavam tendo que é incompatível com uma boa saúde. A terra já estava apresentando sinais disso com altas temperaturas, erupções, aumento da poluição das águas e do ar. Essa tragédia é uma oportunidade para refletirmos, para nos perguntar onde estamos indo e juntos criarmos as condições para um mundo melhor, mais fraterno e mais solidário. Assim a Páscoa fará sentido, pois será uma Páscoa de mudança.

OP - A liturgia de domingo, especialmente o Salmo, prega que alegremo-nos pois é o dia que o Senhor fez para nós. Como repassar aos fiéis essa mensagem nessa época de pandemia e isolamento social?

Rino - A vida é um ciclo. Começa, permanece por um tempo e termina e, durante ela, passamos por momentos de grande alegria, de grandes joios e de grande tristeza, grande depressão, de grande angústia. O próprio Cristo passou por isso pois a vida dEle é espelho da vida humana. Ele passa por momentos de profunda alegria, entusiasmo, vivencia grandes emoções humanas, até chegar, na cruz, ao desespero, onde Ele clama "Meus Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?". A páscoa é a resposta a toda essa dor. O sofrimento, simbolicamente, se limita a três dias, mas essa angústia abriu a porta do sepulcro para a vida eterna, para a ressurreição, a consciência que a vida continua, que é mais forte, que a vida venceu a morte e é isso que tem que alimentar nossa fé, nossa alegria e a nossa esperança.

OP - O senhor é sacerdote e médico. Nesse momento de pandemia tem se visto mais como?

Rino - Quando eu me preparava para ser missionário, perguntei ao meu professor e diretor espiritual, como eu seria médico e padre, mas ele disse que eu encontraria o meu caminho. Nunca seria só padre ou só médico, sempre seria os dois. Dependendo da circunstância, você vai vivenciando. Às vezes, você vai ser mais sacerdote, às vezes você vai ser mais psiquiatra. É o que acontece. Ás vezes estou mais presente para um conforto espiritual e às vezes mais médico com minha competência para resolver uma doença. Os dois elementos estão ligados. A complexidade do ser humano me dá a possibilidade de colaborar com a minha experiência que integra a ciência e a religião.

O que você achou desse conteúdo?