Com o intuito de ressignificar os procedimentos de harmonização facial, comumente associados a beleza e estética, a cirurgiã-dentista e mestra em Harmonização Orofacial, Heide Bitu, 43, fundou o projeto “Mãos solidárias”, da Clínica Harmonize, destinado à aplicação de toxinas botulínicas (botox) em pessoas com deficiência (PCD).
A iniciativa conta com a participação de estudantes de mestrado e pós-graduação em Odontologia e visa melhorar a qualidade de vida de pessoas com paralisia e autismo severo, por exemplo. Pacientes com este último diagnóstico podem produzir uma quantidade excessiva de saliva (sialorreia) e a aplicação do botox nas glândulas reduz a produção salivar.
O POVO - Quando surgiu a ideia de fazer esse tipo de procedimento gratuitamente?
Heide Bitu - Eu e a maioria das meninas da equipe somos cirurgiãs dentistas e a equipe é composta por 15 pessoas. Com exceção do ultrassonografista, Dr. Davi, todos daqui ou foram ou são meus alunos. Então as técnicas para aplicação eu trouxe de fora, dos Estados Unidos, dos cursos fora que fiz lá. Era uma vontade realmente que eu tinha de ir além do nosso dia a dia, de ganhar, daquela questão de harmonização estar ligado só à estética. Eu sempre tento passar pra eles (alunos) na faculdade, que a estética é o último, a gente tem que se dedicar mais à parte funcional mesmo. E tentando passar isso e a vontade de não fazer só por dinheiro, a gente tinha aquele desejo de fazer alguma coisa que trouxesse algum benefício para alguém. Nós vamos completar um ano agora.
O POVO - Como esses materiais são adquiridos?
Heide Bitu - A toxina é cara. Algumas crianças, às vezes, levam um frasco de toxina dessa, e é muito difícil ter quem ajude. A priori, qual era a proposta: quem fosse participar do projeto se juntava e dividia. Se são tantas toxinas por mês, saía do bolso de cada uma, mas hoje a gente consegue, a gente faz algumas rifas, faz alguma coisa, ou recebe alguma ajuda. Essa semana alguns doaram R$ 10, R$ 30 e isso aí vai ajudando. No final do mês a gente consegue comprar as toxinas e o que não dá a gente tira do nosso bolso, e foi como a gente foi começando. A gente precisava de um lugar, a gente já tinha a clínica, então a gente para um dia de atendimento e se dedica só a eles. A maioria das crianças tem sialorreia, ou seja, produzem saliva excessivamente pela duas glândulas principais, algumas precisam de ir para traqueostomia, por conta dos engasgos, então, a aplicação da toxina já reduz essa produção de saliva delas e a gente consegue dar um prognóstico de qualidade de vida também, e às vezes a própria questão social, de evitar que estejam direto com o paninho. Os pacientes já passam por avaliação médica. Alguns tomam de três a cinco remédios controlados para resolver coisas que só a toxina resolveria o problema. Apesar de atender crianças, a gente destina 20% das vagas a adultos.
O POVO - E como o procedimento é realizado?
Heide Bitu - No caso da sialorreia, a gente faz a ultrassonografia para mapear a glândula e saber exatamente onde ela está e a gente vai com a aplicação bem em cima da glândula. Com mais ou menos 5 a 15 dias essa glândula para de funcionar ou então ela diminui ao máximo. Aí a criança não saliva tanto e não evolui para engasgos ou pneumonia. Às vezes a criança que parou de fazer alimentação via oral, porque não consegue por conta da salivação, volta a se alimentar via oral. A gente utiliza o material de cem unidades, que é a toxina mais pura que tem no mercado, livre dessas questões dos anticorpos. Em um paciente de estética de botox a gente usa metade de uma toxina, uma toxina dessa dá pra dois, para uma criança a gente usa duas. Como não é uma coisa que dá resultado na hora, as meninas fazem o acompanhamento durante 15 dias, se precisar de retorno, retorna com 30 dias e a gente faz de novo.
O POVO - O que é necessário para ser beneficiado com o projeto?
Heide Bitu - A gente atende dez pessoas por dia, uma vez no mês, que dá uma média de dez a doze toxinas utilizadas. A gente tem o Instagram do projeto (@_projetomaossolidarias), mas a divulgação é, na verdade, feita pelo ‘boca a boca’, o Instagram ajuda a gente. Por exemplo, uma paciente que foi atendida foi uma amiga de uma amiga que viu e já indicou. Através do Instagram a gente tem uma equipe que fica responsável por direcionar os pacientes para determinado dia.
O POVO - Como as pessoas avaliam a iniciativa de implantar botox em crianças?
Heide Bitu - Na verdade, no caso delas, pacientes com paralisia cerebral, autismo grave, como elas têm a necessidade de fazer o corporal, os pais já têm essa ideia da necessidade da toxina. Mas pra sialorreia é novo para eles. A gente tem até que ter cuidado na quantidade inserida, porque alguns deles já fazem esse procedimento corporal, então existe um limite de toxina. E pode ser feito em crianças a partir de dois anos.