Donald Trump observa com “todas as opções na mesa” os acontecimentos no Irã, que vê o regime dos aiatolás passar pelo momento mais delicado desde a revolução iraniana (1979). Os protestos que tomaram conta do país sinalizam o desgaste de um governo caduco, que parece descolado da realidade do povo que tomou as ruas e foi brutalmente reprimido.
Sem acesso à internet há dias, as informações chegam por meio de ONGs que apontam milhares de mortos. Os relatos narram manifestantes mortos a tiros enquanto tentavam fugir, o uso de armas de guerra e a execução nas ruas.
O Irã vivencia uma receita usual para a queda de modelos autoritários: profunda crise econômica; deslegitimação do regime e isolamento internacional. Apesar disso, protestos, sozinhos, não têm força para derrubar governantes se não houver efeitos na elite política. Ainda não parece ser o caso iraniano, onde o setor militar parece alinhado pela manutenção do regime e disposto a usar a força para isso.
O governo americano ameaçou intervir, como fez na Venezuela, mas o cálculo militar e geopolítico de uma operação no Irã é muito mais complexo. Uma ação direta dos EUA provocaria efeitos imediatos no Oriente Médio, especialmente em aliados como Israel e países do Golfo Pérsico — onde há bases militares americanas ativas e sob o alcance de mísseis iranianos —, que temem a escalada das tensões e seus efeitos econômicos.
Embora haja cautela dos EUA e a consciência de que um ataque militar não garantiria o fim do regime em Teerã, Trump é conhecido por agir fora dos padrões. No caso venezuelano, poucos previram que ele, de fato, invadiria o país. Com o sucesso, do ponto de vista militar, é possível que Trump sinta-se estimulado a agir caso tenha nova sinalização de êxito.
Uma eventual ofensiva da Casa Branca requer cuidado triplicado. Se o caso da Venezuela — que está dentro do que Washington considera sua zona de influência—, podia ser tratado a marteladas, o Irã exigirá precisão cirúrgica.