A confirmação da eleição do direitista Javier Milei como presidente eleito da Argentina, derrotando o peronista Sergio Massa, deve gerar efeitos na economia do Ceará.O país vizinho é atualmente o quinto principal destino das exportações cearenses e um importante fornecedor de insumos, como o trigo,
para o Estado.
Em declarações recentes, Milei afirmou que não buscaria negócios com “países comunistas”, referindo-se à China e ao Brasil. Também propôs dolarizar a economia, fechar o Banco Central e privatizar a petroleira YPF.
O POVO consultou especialistas que consideram as mudanças de difícil execução, então, em um primeiro momento, o quadro não deve ser amplamente alterado. Mas existe um ponto de atenção se as promessas forem cumpridas no médio e longo prazo.
A partir das promessas de fechar o mercado argentino para Brasil e China, há temores sobre as atuais relações que envolvem a indústria de alimentos e calçados.
A Argentina é atualmente o quinto principal destino para as exportações cearenses. O então candidato ainda propôs dolarizar a economia argentina e fechar o Banco Central. O POVO consultou especialistas que consideram as mudanças de difícil execução, então, no primeiro momento, o quadro não deve ser amplamente alterado.
Para a presidente do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (CIN/Fiec) e colunista do O POVO+, Karina Frota, a série histórica das relações entre o Ceará e Argentina mostra um comércio ativo e produtivo.
O Ceará está entre os estados que mais exporta para o mercado argentino. Karina destaca que a série histórica aponta uma série de transformações. "Para nós, é um mercado importante. O Ceará é o 16º maior estado exportador do Brasil para esse mercado".
Dentre os destaques na pauta de exportação cearense para os argentinos estão os calçados. Também exportamos frutas, partes de veículos e produtos químicos.
Do ponto de vista das compras cearenses do mercado argentino, o grande destaque fica por conta da compra de trigo por parte das indústrias de alimentos de pães, massas e biscoitos do Ceará.
Segundo Karina, essa pauta de importação de cereais torna a Argentina um parceiro importante para a continuidade do negócio dessas indústrias.
"Nesta análise macroeconômica, é um mercado importante. Mantemos uma relação bilateral longa em que Ceará e Argentina são parceiros comerciais. E também Brasil e Argentina são os dois países que lideram as negociações para o acordo Mercosul-União Europeia", afirma.
No acumulado do ano (janeiro-outubro), segundo dados da balança comercial, o Ceará já exportou mais de US$ 80 milhões para a Argentina.
E, apesar do discurso do presidente eleito da Argentina, Karina observa que nas relações comerciais entre países, para além dos discursos, os acordos comerciais existentes e as reciprocidades através do relacionamento bilateral e multilateral contam bastante.
"O Ceará é reconhecido pelos argentinos e atende uma demanda crescente, nós temos uma forte infraestrutura de produção e exportação de calçados visando o mercado da Argentina. O resultado de 2023 até agora, em relação a 2022, é de estabilidade, mesmo com a crise argentina e inflação", reitera.
Karina ainda completa dizendo que a campanha eleitoral argentina contou com discursos extremamente inflamados, propostas de difícil implementação, o que gerou tensões ao mercado local.
Mas, na parte de diplomacia econômica, avalia que os acordos recíprocos que incluem benefícios tarifários, é difícil vislumbrar o corte irrestrito de relações comerciais.
Em relação às promessas da política macroeconômica de Milei na campanha eleitoral, sendo a mais notável o fim do Banco Central, o economista e conselheiro da Associação dos Analistas Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (Apimec Brasil), Ricardo Coimbra, avalia que o mais provável é que as dívidas do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as negociações que terão de fazer é que ditarão o rumo da política econômica da Argentina.
O plano de fechar o Banco Central, na avaliação do economista, pode ser o fim de um "braço forte" do governo de ter uma política monetária de tentar controlar o processo inflacionário e a liquidez monetária.
"Vejo com muita reticência a medida de fechamento do Banco Central no processo de dolarização das economias sul-americanas que estão em crise", diz ele lembrando que essa medida depende do apoio do parlamento, onde Milei tem minoria.