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Brasil comunica os EUA sobre processo de retaliação de tarifas
Economia

Brasil comunica os EUA sobre processo de retaliação de tarifas

Empresários exportadores veem com preocupação uso da Lei da Reciprocidade. Eles avaliam que as medidas tenderiam a agravar o conflito bilateral e reduzir o espaço para negociações.
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GOVERNO de Donald Trump foi comunicado oficialmente (Foto: Jim WATSON / AFP)
Foto: Jim WATSON / AFP GOVERNO de Donald Trump foi comunicado oficialmente

A Embaixada do Brasil em Washington comunicou oficialmente, ontem (sexta-feira, 29), o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre a abertura de um processo que poderá resultar na aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica contra o país. A medida é uma resposta à tarifa de 50% imposta a produtos brasileiros.

Na tentativa de reverter o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, o Brasil está empregando uma série de estratégias de negociação, combinando ações legais, diplomáticas e setoriais. A mais recente foi a autorização do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada em abril.

A iniciativa do governo brasileiro desagrada alguns empresários exportadores. Na opinião de Guilherme Assis, presidente do Sindicato das Indústrias de Beneficiamento de Castanha de Caju e Amêndoas Vegetais do Ceará (Sindicaju/CE), a aplicação da Lei da Reciprocidade não beneficia o setor neste momento.

“Embora a gente entenda a importância das medidas de proteção, esgotar as vias de diálogo não contribui para o equilíbrio da cadeia produtiva da cajucultura. Nosso setor precisa de previsibilidade e acreditamos que soluções conjuntas, e não restritivas, são o melhor caminho para preservar empregos e a competitividade do Brasil no mercado externo”, afirma Assis.

A Lei da Reciprocidade, também conhecida como Lei da Reciprocidade Econômica, é uma lei brasileira que permite ao governo adotar medidas em resposta a ações de outros países ou blocos econômicos que prejudiquem os interesses nacionais, especialmente em relação a barreiras comerciais ou sanções.

Basicamente, ela autoriza o Brasil a aplicar medidas semelhantes àquelas impostas pelo país ou bloco que está prejudicando os interesses brasileiros, buscando equilibrar a relação e proteger a economia nacional.

Por meio de nota, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) afirmou entender que medidas de reciprocidade tenderiam a agravar o conflito bilateral e reduzir o espaço para negociações, ampliando incertezas.

"Amcham Brasil reitera seu entendimento de que soluções comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos devem ser buscadas pela intensificação do diálogo e a abertura de negociações, com o objetivo de preservar e ampliar a parceria bilateral", diz a câmara.

A entidade cita uma de suas pesquisas recentes mostrando que 86% das empresas avaliam que medidas de reciprocidade tenderiam a agravar o conflito bilateral e reduzir o espaço para negociações, ampliando incertezas para os negócios.

Entre as principais preocupações de eventuais contramedidas estão os prejuízos à imagem do Brasil como destino de investimentos, aumento da insegurança jurídica, riscos a cadeias produtivas locais, que dependem de insumos e tecnologias dos Estados Unidos, e perda de competitividade internacional.

O texto diz ainda que, na próxima semana, a Amcham Brasil estará em Washington para participar da audiência pública sobre a investigação aberta nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, além de compromissos com o setor público americano.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também divulgou uma nota, expressando preocupação com a decisão do governo federal, defendendo o diálogo e a cautela em vez da retaliação imediata. De acordo com a entidade, não é o momento para a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica e que o momento exige cautela e discussões técnicas.

Semana que vem, uma comitiva liderada pela CNI, com mais de 100 líderes e empresários industriais, viajará a Washington para uma série de compromissos com empresários e representantes do poder público dos EUA. O objetivo da missão é "abrir caminhos para contribuir com uma negociação que possa levar à reversão da taxa de 50% e/ou buscar obter mais rapidamente o aumento de exceções ao tarifaço sobre produtos brasileiros".

Assim como a Amcham, a CNI também vai promover encontros estratégicos para defender o setor industrial na audiência pública, marcada para 3 de setembro, sobre a investigação aberta pelo governo norte-americano nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

Tanto o vice-presidente Geraldo Alckmin quanto o presidente da CNI, Ricardo Alban, enfatizaram os 201 anos de parceria e amizade e a boa complementaridade econômica entre Brasil e Estados Unidos.

Alckmin citou o setor do aço como exemplo, onde o Brasil é o terceiro comprador de carvão siderúrgico dos EUA e exporta semiplanos. Alban destacou que bens intermediários representaram 58% do comércio entre os dois países na última década, reforçando a natureza complementar das economias.

Ontem, o presidente Lula afirmou a jornalistas que, embora não tenha pressa para aplicar as retaliações, o processo precisa avançar para tentar acelerar as negociações com os Estados Unidos. O vice-presidente Geraldo Alckmin disse que espera que a lei possa "ajudar a gente acelerar o diálogo e a negociação".

Lula reafirmou a soberania do Brasil e sua disposição para negociar "24 horas por dia" se as autoridades norte-americanas quiserem "negociar sério". De acordo com ele, há "pouco espaço de negociação" nos Estados Unidos. E que por isso só telefonará para o presidente Trump se este der um sinal de que quer negociar.

Com o aval dado por Lula, a Camex tem até 30 dias para elaborar um relatório técnico que analisará se as medidas norte-americanas se enquadram na Lei da Reciprocidade Econômica. Caso a Camex conclua pela aplicabilidade da lei, será criado um grupo específico para sugerir contramedidas econômicas, que podem incluir retaliações no comércio de bens, serviços e propriedade intelectual.

Antes da Lei da Reciprocidade, o Brasil já entrou com um processo na Organização Mundial do Comércio (OMC). Lula reconhece que os trâmites da OMC também podem ser demorados, levando cerca de um ano, mas considera a ação um passo necessário.

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