Às vésperas de se mudar de São Paulo para Fortaleza, o executivo Marcelo Silva, diretor de vendas de uma multinacional de Telecom, acreditou ter encontrado na internet o imóvel ideal: apartamento mobiliado, decorado, localizado em bairro valorizado e cerca de 20% mais barato que unidades semelhantes.
As fotos profissionais, a lista completa de equipamentos e a aparência de “oportunidade rara” reforçavam a impressão de um bom negócio.
A sensação durou pouco. Horas após demonstrar interesse, Marcelo passou a ser pressionado pela suposta anunciante. Ela alegava haver “várias pessoas interessadas”, dizia que uma família já estava pronta para enviar o sinal e justificava que a visita presencial só seria possível cinco dias depois, devido à “alta procura”.
Para quem precisava de um imóvel pronto para morar, o cenário parecia verossímil, até que os sinais de alerta se multiplicaram.
“Ela insistia no adiantamento via PIX e adiava a visita o tempo inteiro. Depois de dois ou três dias, o anúncio sumia e reaparecia com outro link”, conta Marcelo. Segundo ele, a mesma mulher chegou a publicar sete imóveis simultaneamente.
Desconfiado, ele procurou a imobiliária citada no anúncio e descobriu que o nome da empresa estava sendo usado de forma indevida. A empresa não trabalhava mais com locações e jamais havia anunciado aquele apartamento. Era golpe.
Marcelo escapou por pouco. Outros consumidores, porém, só descobrem a fraude após o prejuízo, e muitos procuram corretores reais que tiveram identidade e fotos clonadas. É o caso de Apolo Scherer, corretor de imóveis que teve os dados usados em anúncios falsos.
“A primeira pessoa me procurou perguntando se eu estava alugando um imóvel que nunca anunciei. Depois foram oito pessoas em quatro dias”, relata. Para ele, o número real de vítimas é “provavelmente muito maior”. Apolo registrou boletim de ocorrência e o setor jurídico da empresa acompanha o caso.
Conforme ele, a prática cresce especialmente perto da alta estação, quando há aumento de procura por imóveis e maior fluxo de novos moradores e turistas.
Procurado pelo O POVO, o Grupo OLX informou que os anúncios identificados na plataforma deles e motivo de denúncia por Marcelo e Apolo foram bloqueados e reforçou que trabalha continuamente no combate a fraudes na plataforma.
A empresa orienta que usuários utilizem as ferramentas de denúncia dispostas no site da OLX sempre que perceberem irregularidades, permitindo a análise e remoção rápida de anúncios que violem as políticas de uso.
O Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Ceará (Creci-CE) confirma avanço do golpe no Estado. “Nos últimos meses, observamos um aumento nas denúncias envolvendo clonagem de anúncios e uso indevido de dados de profissionais registrados”, afirma Francisco Ferreira, superintendente do órgão.
De janeiro a outubro de 2025, o Creci recebeu 15 denúncias formais, número que não inclui os inúmeros relatos informais enviados por redes sociais e canais de atendimento.
O Conselho afirma manter Fiscalização ativa, além de oficiar plataformas digitais para remoção imediata de perfis falsos. O Conselho também possui convênio com o Ministério Público Estadual para apurar contravenções penais e responsabilizar envolvidos.
A partir dos relatos das vítimas, de corretores e do CRECI, há um padrão recorrente:
“A partir do momento em que você paga, acabou. Não existe imóvel e você não recupera o dinheiro”, alerta Marcelo.
Para o advogado Pedro Henrique Soares Matias, mestrando em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza(UFC), golpes do tipo enquadram-se em estelionato e frequentemente envolvem falsidade ideológica, falsa identidade e falsificação de documentos.
Para ele, as plataformas digitais criaram um ambiente fértil para golpistas, pela facilidade de contato com compradores e locatários. Muitos criminosos usam dados de terceiros, linhas telefônicas sem vínculo cadastral e contas bancárias de “laranjas”, dificultando a identificação.
“Nem sempre é possível reparar o prejuízo, porque muitas vezes o criminoso não é identificado. Isso aumenta ocorrências policiais e ações judiciais, mas nem todas conseguem recuperar os valores.”
As vítimas podem:
Contudo, a reparação esbarra na dificuldade de identificar o autor do golpe.
O advogado explica que a responsabilidade das plataformas depende da diligência adotada para garantir autenticidade dos cadastros, validação de documentos e rapidez na remoção de anúncios falsos após alerta.
“Se for demonstrado que a plataforma falhou nas medidas de cautela, ela pode ser responsabilizada, mesmo não sendo autora direta do dano.”
Ele destaca ainda que decisões recentes do STF reforçam o dever de cautela, segurança e vigilância das plataformas, com base no Marco Civil da Internet e no princípio da boa-fé.
O uso indevido da imagem e dos dados de corretores fere o direito constitucional à imagem (art. 5º, X).
Pedro afirma que os profissionais podem:
O Creci e especialistas recomendam as pessoas que estiverem na busca por um imóvel, seja ele novo ou usado, atentar para as seguintes dicas:
desconfiar de preço muito abaixo da média;
nunca pagar adiantamento por PIX antes de visita ou contrato;
verificar o registro do corretor no CRECI;
conferir CNPJ e endereço da imobiliária;
evitar negociar apenas por aplicativos;
pesquisar se o anúncio aparece duplicado;
conversar com porteiros, vizinhos ou síndicos para confirmar quem é o proprietário.
Segundo o CRECI:
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Como se proteger
O Creci e especialistas recomendam as pessoas que estiverem na busca por um imóvel, seja ele novo ou usado, atentar para as seguintes dicas:
desconfiar de preço muito abaixo da média;
nunca pagar adiantamento por PIX antes de visita ou contrato;
verificar o registro do corretor no CRECI;
conferir CNPJ e endereço da imobiliária;
evitar negociar apenas por aplicativos;
pesquisar se o anúncio aparece duplicado;
conversar com porteiros, vizinhos ou síndicos para confirmar quem é o proprietário.
O que fazer ao cair no golpe:
registrar boletim de ocorrência imediatamente;
enviar denúncia formal ao CRECI;
guardar prints, links e conversas;
exigir remoção do anúncio nas plataformas envolvidas.