O aumento de 20% no valor da tarifa de ônibus em Fortaleza foi a maior do País dentre as dez principais capitais. O valor passou de R$ 4,50 para R$ 5,40, superando as passagens cobradas em Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro e São Paulo e se tornando a sétima maior do Brasil.
Desde a última semana, uma série de aumentos de tarifas foram anunciadas país afora, mas nenhum deles chegou próximo da atualização observada na Capital. Neste momento, apenas seis capitais possuem custos mais elevados aos usuários: Florianópolis (SC), Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Salvador (BA), Brasília (DF)e Boa Vista (RR)
O reajuste médio das oito principais capitais brasileiras que elevaram valores foi de 7,6%. Além da capital cearense, o maior aumento ficou por conta de Florianópolis (SC), em que o valor da passagem de ônibus paga via QR Code Pix sofreu acréscimo de 80 centavos e alcança R$ 7,70. Já quem paga com o "Cartão do Cidadão" absorveu aumento de R$ 5,90 para R$ 6,20, consolidando a capital catarinense como a mais cara no transporte coletivo.
Em Fortaleza, o aumento ocorre pela primeira vez desde o fim de 2022. Mas, no histórico recente, uma sequência de altas pode ser observada.
Em 2012, quando foi lançado o novo contrato de concessão do serviço de transporte público, Fortaleza tinha a menor tarifa entre as capitais, custando R$ 2. Desde então, o valor subiu nos anos de 2015 (duas vezes), 2017, 2019 e 2023, alcançando valores de R$ 2,40 e R$ 2,75, depois R$ 3,20, R$ 3,40 e R$ 3,60, respectivamente.
Para dar um cenário parecido com o da capital cearense, de longo período sem aumento da tarifa, no reajuste de São Paulo, a prefeitura argumentou que esse é apenas o segundo aumento desde 2020 (o anterior havia sido de 13,6% para chegar aos R$ 5), enquanto a inflação no período somou 40,3%.
"A correção atual para R$ 5,30 fica menos da metade do valor inflacionário desses cinco anos", diz em comunicado. Ainda conforme a gestão paulistana, sem o subsídio pago pela Prefeitura às empresas de ônibus, a tarifa seria de R$ 11,78.
Na capital cearense, a tarifa técnica (sem subsídio) seria de quase R$ 7,30 e a recomposição do valor da tarifa a partir de 2026 permite à Prefeitura continuar com o repasse em subsídio de aproximadamente R$ 16 milhões para as empresas de ônibus e o transporte alternativo. Também foi acordado que o Governo do Estado também ampliaria o benefício fiscal de ICMS sobre o diesel utilizado pelas empresas a partir deste ano.
Em meio ao cenário, George Dantas, presidente da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), que é o braço da Prefeitura para a área de transportes, explica que, mesmo com períodos de congelamento da passagem (entre 2019 e 2023 e de 2023 a 2025), não foi feito um reequilíbrio do sistema, faltando financiamento mais robusto, o que tornou o serviço deficitário.
"Falando do histórico de Fortaleza, o que aconteceu é que, nos últimos 3 anos, a Prefeitura havia optado por manter a tarifa pagando um subsídio inferior ao necessário e o sistema se sustentou piorando o serviço. Foram tirados ônibus, algumas linhas foram extintas e as que permaneceram reduziu-se a frequência. Estabeleceu aí um ciclo vicioso: não aumenta tarifa, mas piora o serviço".
Ele reconhece falhas, queda na operação nos últimos anos. Mas destaca que, apesar do aumento da passagem inteira para 2026, apenas 9% pagam o bilhete, sendo a maioria (mais de 60%) usuários com vale-transporte e o restante passageiros subsidiados, como estudantes e gratuidades (24%).
O presidente da Etufor ainda compara que Fortaleza, diferente de Porto Alegre (RS), apesar de passagem mais cara, possui um sistema de bilhete único universal, que permite múltiplas integrações em um período de duas horas, o que não é possível para os gaúchos que convivem com sistema que oferece apenas descontos quando houver integrações.
Para o futuro, o desafio é conseguir agradar à minoria de passageiro que ainda paga a passagem inteira (que é a parcela que tem evitado o transporte público e recorrido aos apps, por exemplo), renovando a frota, implementando mais soluções tecnológicas (como a previsão de chegada do ônibus e topics nas paradas) e novas fontes de financiamento.
George diz que a gestão resolveu mudar o rumo para "romper" o ciclo vicioso. "O que significa o aumento? Significa continuar com as gratuidades. Em São Paulo, por exemplo, não existe passe livre estudantil. O aumento também está vinculado a alguns benefícios, como a renovação de frota, em pelo menos 120 ônibus com ar-condicionado neste ano", detalha.
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Renovação da frota em Fortaleza deve crescer de forma escalonada a partir de 2026
O processo de renovação da frota de ônibus em Fortaleza deve ocorrer de forma escalona a partir de 2026. Neste ano, pelo menos 120 ônibus novos com ar-condicionado devem entrar na operação.
A confirmação foi feita pelo presidente da Etufor, George Dantas, que estima que pouco mais de 10% da frota seja renovada neste ano. Ele mantém a perspectiva de que em 2027 a meta dobre de patamar até que a idade média seja suavizada em alguns anos.
Atualmente, a idade média da frota de ônibus do transporte público de Fortaleza chega a 8,3 anos, em média. George revela que, além dos ônibus das empresas pertencentes ao Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus), o processo de renovação também ocorrerá para os veículos do transporte alternativo, as topics.
A Etufor/Prefeitura de Fortaleza tem trabalhado junto à Companhia de Gás do Ceará (Cegás) para o fornecimento de veículos que sejam movidos a gás natural veicular (GNV) com ar-condicionado.
"Posso adiantar que existe uma forte possibilidade de renovar 100% da frota da Cootraps com veículos movidos a GNV 100% renovável e com ar-condicionado. É um projeto que estamos desenvolvendo com a Cegás e que estamos perto de fechar a conta. Será muito bom para o usuário, pois serão 220 novos veículos para a frota", pontua.
O que ainda é trabalhado pela Prefeitura é a viabilização de uma linha de crédito que permita a aquisição de mais ônibus novos, esses veículos seriam elétricos e cedidos às empresas, numa inovação ao contrato de concessão, em que, até então, as empresas eram responsáveis pela renovação a partir dos repasses de subsídios.
A informação foi adiantada pelo O POVO em dezembro passado. O modelo de "empréstimo" dos ônibus às empresas seria um comodato, o que, na prática, seguraria a necessidade de reajuste da passagem em revisão tarifária, explica.
"Através do equilíbrio da tarifa, a concessionária consegue fazer a renovação da frota, mas nós estamos tentando, além disso, linhas de financiamento para que a Prefeitura adquira ônibus e coloque no sistema para as concessionárias operarem, como em Belo Horizonte e São José dos Campos já fazem."
Sem apoio estatal, transporte público não se sustentaria
A insuficiência dos valores apurados pelas empresas operadoras do transporte público ao redor do mundo é um fator que atesta que, sem apoio estatal, o serviço não se sustenta. A avaliação é do coordenador do Centro de Estudos em Transportes da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marcus Quintella. Ele destaca que o sistema passa por uma crise, que só pode ser sanada com fartos investimentos estatais.
Ele pontua que a gestão financeira deficitária para o setor, a falta de infraestrutura de alta capacidade e a concorrência crescente com modelos de transporte individual por aplicativo fazem parte deste diagnóstico.
"A estrutura de transporte é dependente do sistema rodoviário, já que 85% das viagens são feitas por ônibus, com o trem representando muito pouco. E precisa ser subsidiado, pois não dá para pesar sobre o usuário todo o custo da operação, no entanto, a política orçamentária tem ficado muito em cima dos municípios".
No cenário de alta de 20% no transporte coletivo de Fortaleza, o Sindiônibus diz que o montante repõe a inflação acumulada desde 2023. Reconhece que, para o usuário, o ideal é que a tarifa seja sempre a menor possível, mas que tem sido difícil gerir os valores em meio à queda do número de passageiros pagantes.
O sindicato das empresas acrescenta que a cesta de custos dos transportes é diferente da média geral da inflação, incluindo custos atrelados às variações de certas commodities, como combustíveis.
"(O valor da tarifa pública) É uma decisão do Executivo municipal, que precisa considerar a sua capacidade orçamentária, pois a diferença entre o custo e o preço público precisa ser suportada por subsídios", afirma em nota.
NTU
A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) enviou posicionamento ao O POVO, destacando que não será possível reverter o quadro com medidas pontuais, mas sim, "por meio de uma política pública estruturada e financeiramente viável"