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União Europeia aprova assinatura de acordo comercial com Mercosul
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União Europeia aprova assinatura de acordo comercial com Mercosul

| Após 26 anos | Medida, que ainda depende de aval do Parlamento Europeu, abre caminho para criação da maior zona de livre comércio do mundo
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PRESIDENTE da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou que acordo cria mercado de 720 milhões de pessoas (Foto: NICOLAS TUCAT / AFP)
Foto: NICOLAS TUCAT / AFP PRESIDENTE da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou que acordo cria mercado de 720 milhões de pessoas

Após 26 anos de negociações, os países da União Europeia aprovaram ontem o acordo com o Mercosul, abrindo caminho para a criação da maior zona de livre comércio do mundo.

O acordo, que ainda depende do aval do Parlamento Europeu, inclui diversas cláusulas destinadas a conter a oposição dos agricultores do bloco, que protagonizaram fortes protestos em vários países.

A assinatura do tratado está prevista para o dia 17 de janeiro em Assunção, capital do Paraguai, confirmou o chanceler do país, Rubén Ramírez, que comemorou um acordo "equilibrado", ao lembrar que "a insatisfação das duas partes foi uma realidade ao longo das negociações".

Em um longo comunicado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que desejava colocar sua assinatura nos entendimentos. "Estamos criando um mercado de 700 milhões de pessoas: a maior zona de livre comércio do mundo. Nossa mensagem ao mundo é esta: a colaboração cria prosperidade e a abertura impulsiona o progresso", celebrou.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou, por sua vez, que esta sexta-feira é "um dia histórico para o multilateralismo", apesar de "um cenário internacional de crescente protecionismo e unilateralismo".

Entenda o acordo

A Comissão Europeia, braço executivo da UE, negocia desde 1999 esse amplo acordo com Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, que eliminará tarifas sobre mais de 90% de seu comércio bilateral.

O setor agropecuário europeu teme o impacto de uma entrada maciça de carne, arroz, mel e soja sul-americanos, em troca da exportação de veículos, máquinas, queijos e vinhos europeus para o Mercosul.

Países críticos do pacto, como a França, avaliam que o mercado europeu pode ser seriamente afetado pela entrada de produtos sul-americanos mais competitivos, devido a normas de produção consideradas menos rigorosas.

Já os defensores, como Espanha e Alemanha, estimam que o acordo diversificará as oportunidades comerciais para uma União Europeia pressionada pela concorrência chinesa e pela política tarifária dos Estados Unidos.

A Itália, que em dezembro havia se alinhado à oposição liderada pela França e conseguido então bloquear o acordo, mudou de posição nesta semana.

Isto permitiu que os 27 Estados-membros da União Europeia alcançassem uma maioria qualificada, em uma reunião de embaixadores em Bruxelas, ontem, apesar da oposição de países como França, Polônia, Irlanda e Hungria.

O Ministério da Economia da Espanha afirmou que o acordo "reforça a autonomia estratégica" da UE. "No mundo de hoje, nem tudo são tarifas, ameaças e más notícias", celebrou o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez.

Mas "a história não vai acabar aqui", alertou a ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, que pretende continuar a batalha no Parlamento Europeu, onde uma maioria a favor do acordo não é certa.

Para conter a insatisfação de agricultores e pecuaristas, preocupados com o impacto da redução de tarifas, a Comissão elaborou nos últimos meses uma série de cláusulas e concessões.

Entre as medidas, a Comissão anunciou em setembro um conjunto de garantias para os setores de carne, aves, arroz, mel, ovos e etanol, limitando as cotas de produtos latino-americanos isentos de tarifas e prevendo intervenções em caso de desestabilização do mercado.

Repercussão

Ontem, entidades empresariais brasileiras comemoraram a aprovação do acordo. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou o acordo como um passo significativo para avançar na inserção internacional do Brasil e para o fortalecimento da indústria nacional.

Segundo a CNI, em 2024, quando o bloco europeu foi o destino de 14,3% das exportações do país, a cada R$ 1 bilhão exportado do Brasil à UE foram criados 21,8 mil empregos e movimentados R$ 441,7 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção.

"A aprovação do acordo é um passo decisivo e cria as condições políticas necessárias para avançarmos rumo à assinatura. Esperamos que esse processo seja concluído o quanto antes, para que possamos transformar esse avanço institucional em oportunidades concretas de comércio, investimentos e aumento da competitividade do país", avalia o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que o acordo foi positivo para ambas as partes, com os europeus resguardando sua economia impondo cotas para os produtos sul-americanos, além de obter vantagens competitivas em relação aos produtos industrializados, no que não houve contrapartidas de proteção da indústria dos países do Mercosul.

Ainda assim, a abertura do mercado europeu ao Brasil representa um ganho competitivo importante, principalmente em tempos de relações instáveis com parceiros importantes, como os Estados Unidos, acrescenta.

Sob a ótica da economia brasileira, Leonardo destaca a oportunidade de ganho de vantagem para o agro, enquanto ascende um sinal de alerta para a indústria brasileira, já que alguns setores ficariam expostos à concorrência contra mercados mais sofisticados e estruturados, como química, medicamentos e manufaturados.

"Temos a abertura de um mercado super importante, que é um mercado premium, com renda per capita muito alta e que seus cidadãos gastam mais com proteínas e alimentação em geral, por exemplo. Quer dizer, o Brasil ter aberto mercados na Ásia e África foi relevante, mas o mercado europeu é muito importante neste aspecto", completa.

Expectativa do governo brasileiro é vigência em 2026 

O vice-presidente Geraldo Alckmin disse que o acordo entre Mercosul e União Europeia deve ser assinado nos “próximos dias” e que o governo brasileiro espera que entre em vigência ainda no ano de 2026.

Para isso ocorrer, Alckmin explicou em entrevista à imprensa que é necessário "internalizar". Isso quer dizer que é preciso que o Parlamento Europeu e os Congressos de cada país do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) aprovem o pacto comercial. Alckmin destacou que a sociedade vai ganhar com produtos mais baratos e de melhor qualidade.

“Se o Congresso Brasileiro votar no primeiro semestre, nós não dependemos da Argentina, Paraguai e Uruguai, para já entrar em vigência”, afirmou Alckmin.

Geraldo Alckmin destacou que o acordo tem potencial de gerar emprego e investimentos para o Brasil.

“Nós deveremos ter mais investimentos europeus na região do Mercosul e no Brasil, e mais investimentos brasileiros nos 27 países da Europa”, acrescentou Alckmin.

O vice-presidente destacou que o acordo fortalece o multilateralismo, em detrimento do isolacionismo. Para valorizar o potencial do acordo, Alckmin enumerou que a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do País e fica atrás apenas da China. Inclusive a corrente comercial (somando exportações e importações) no ano passado foi de US$ 100 bilhões.

Um exemplo é que somente a indústria de transformação brasileira exportou US$ 23,6 bilhões para a União Europeia, o que representou um crescimento de 5,4% desse setor (para o mundo, essa elevação foi de 3,8%).

“A União Europeia foi o primeiro ou o segundo destino da exportação de 22 estados brasileiros [no ano passado]”, destacou o vice-presidente. Alckmin também observou que 30% dos exportadores brasileiros vendem produtos para aquele continente, o que representa mais de 9 mil empresas brasileiras. “Essas empresas exportadoras empregam mais de três milhões de trabalhadores”. 


(Com AFP e Agência Brasil)

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Confira os principais pontos do acordo:

1. Eliminação de tarifas alfandegárias

Redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços;
Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.

2. Ganhos imediatos para a indústria

Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais.

>>Setores beneficiados:

Máquinas e equipamentos;
Automóveis e autopeças;
Produtos químicos;
Aeronaves e equipamentos de transporte.

3. Acesso ampliado ao mercado europeu

Empresas do Mercosul ganham preferência em um mercado de alto poder aquisitivo;
UE tem PIB estimado em US$ 22 trilhões;
Comércio tende a ser mais previsível e com menos barreiras técnicas.

4. Cotas para produtos agrícolas sensíveis

Produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de importação;
Acima dessas cotas, é cobrada tarifa;
Cotas crescem ao longo do tempo, com tarifas reduzidas, em vez de liberar entrada sem restrições;
Mecanismo busca evitar impactos abruptos sobre agricultores europeus;
Na UE, as cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil;
No mercado brasileiro, chegam a 9% dos bens ou 8% do valor.

5. Salvaguardas agrícolas

>>UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente se:

Importações crescerem acima de limites definidos;
Preços ficarem muito abaixo do mercado europeu;
Medida vale para cadeias consideradas sensíveis.

6. Compromissos ambientais obrigatórios

Produtos beneficiados pelo acordo não poderão estar ligados a desmatamento ilegal;
Cláusulas ambientais são vinculantes;
Possibilidade de suspensão do acordo em caso de violação do Acordo de Paris.

7. Regras sanitárias continuam rigorosas

UE não flexibiliza padrões sanitários e fitossanitários.
Produtos importados seguirão regras rígidas de segurança alimentar.

8. Comércio de serviços e investimentos

>>Redução de discriminação regulatória a investidores estrangeiros.

>>Avanços em setores como:

Serviços financeiros;
Telecomunicações;
Transporte;
Serviços empresariais.

9. Compras públicas

Empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na UE;
Regras mais transparentes e previsíveis.

10. Proteção à propriedade intelectual

Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias;
Regras claras sobre marcas, patentes e direitos autorais.

11. Pequenas e médias empresas (PMEs)

Capítulo específico para PMEs;
Medidas de facilitação aduaneira e acesso à informação;
Redução de custos e burocracia para pequenos exportadores.

12. Impacto para o Brasil

Potencial de aumento das exportações, especialmente do agro e da indústria;
Maior integração a cadeias globais de valor;
Possível atração de investimentos estrangeiros no médio e longo prazo.

13. Próximos passos

Assinatura prevista para 17 de janeiro, no Paraguai;
Aprovação pelo Parlamento Europeu;
Ratificação nos Congressos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai;
Entrada em vigor apenas após conclusão de todos os trâmites;
Acordos que extrapolam política comercial precisam ser aprovados pelos parlamentos de cada país.

Fonte: Agência Brasil

 

FORTALEZA, CE, BRASIL, 24.03.2021: Melão. Desenvolvimento do agronegócio do Ceará, muito baseado na fruticultura. em epoca de COVID-19. (Foto: Aurelio Alves/ Jornal O POVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 24.03.2021: Melão. Desenvolvimento do agronegócio do Ceará, muito baseado na fruticultura. em epoca de COVID-19. (Foto: Aurelio Alves/ Jornal O POVO)

Exportações do Ceará podem ser beneficiadas com o acordo

A assinatura do acordo de comércio entre Mercosul e União Europeia (UE) promete potencializar o saldo positivo envolvendo a balança comercial cearense com os países do bloco. O setor mais animado é o agronegócio, principalmente nos segmentos de frutas e pescados.

Em 2025, a relação comercial entre Ceará e UE foi a melhor desde 2017. No acumulado do ano passado, destaque para as vendas de produtos de ferro e aço, exportado em abundância para países como Polônia, França, Itália e Alemanha.

Há ainda as vendas de rochas ornamentais para a Itália, somando US$ 52,69 milhões. Atualmente, o agronegócio cearense aparece com grande participação nas exportações com o melão, vendido para a Holanda (mais de US$ 46,2 milhões em um ano) e Espanha (US$ 10,5 milhões).

Para o futuro, o setor de frutas mantém altas expectativas na ampliação da participação que têm no mercado comum europeu. Luiz Roberto Barcelos, diretor da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), destaca que a Europa é o principal destino da fruticultura nacional.

O equivalente a 70% dos produtos exportados pelos produtores brasileiros são destinados à Europa. Mas a abertura é importante principalmente para a redução das tarifas. Para Luiz, o produto brasileiro fica ainda mais competitivo em relação aos concorrentes internacionais e a tendência é elevar a oferta no continente.

Ele destaca que esse impulso para o setor deve ser relevante sobremaneira para o Nordeste, como as produções de manga e uva do Vale do São Francisco (entre a Bahia e Pernambuco), e de melão e melancia na Chapada do Apodi (entre o Ceará e o Rio Grande do Norte), estimulando ainda a movimentação portuária e geração de empregos no agro.

“A Europa é muito importante para a fruticultura, principalmente porque pagamos em média 10% de imposto ao entrar no continente. No caso da uva é 14%, do melão é 8,8% e, somado ao valor do frete, onera. Para nós, o acordo é muito importante, especialmente porque os nossos principais concorrentes na exportação de frutas frescas e tropicais não eram taxados”, afirma.

Em relação ao Ceará, para além das frutas, o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, mantém esperança sobre o aumento das exportações de pescados cearenses.

O foco seria em atum, peixes vermelhos, lagosta e camarão. Destes, apenas o camarão ainda não tem mercado aberto por razões sanitárias, o que promete ser revertido em breve a partir de diálogos que têm sido abertos.

Amílcar destaca que o Equador exporta o equivalente a US$ 6 bilhões de camarão por ano. E o Ceará pode avançar neste mesmo sentido. Atualmente, a meta do agronegócio do Estado é alcançar a marca de US$ 1 bilhão em vendas ao Exterior.

Do montante projetado, em 2025 o agro cearense conseguiu exportar mais de US$ 500 milhões, mesmo em contexto de taxação dos Estados Unidos, que ainda afeta alguns segmentos.

“A abertura de mercado Mercosul-União Europeia é uma excelente notícia neste início de ano. A perspectiva é aumentar nossas exportações, contrabalanceando um pouco após as tarifas dos EUA, que continua afetando alguns produtos, como os pescados”, pontua.

Mesmo com o tarifaço, as exportações do agro cearense apresentaram crescimento de quase 20% no ano. Segundo o presidente da Faec, se não fossem as tarifas, o crescimento seria superior a 30%.

Relação comercial entre Ceará e União Europeia (em US$ FOB)

  • Série histórica recente: Exportação / Importação / Saldo
    2015: 295.181.139 / 464.982.445 / -169.801.306
    2016: 350.386.735 / 572.635.299 / -222.248.564
    2017: 512.933.876 / 239.813.922 / 273.119.954
    2018: 431.094.606 / 280.750.679 / 150.343.927
    2019: 434.104.489 / 264.546.940 / 169.557.549
    2020: 250.953.456 / 420.370.878 / -169.417.422
    2021: 224.126.439 / 399.697.170 / -175.570.731
    2022: 539.367.043 / 426.499.428 / 112.867.615
    2023: 367.804.798 / 372.550.652 / -4.745.854
    2024: 259.967.438 / 304.972.233 / -45.004.795
    2025: 447.057.418 / 250.025.038 / 197.032.380

Principais produtos exportados pelo Ceará para países da União Europeia em 2025

  1. Produtos semimanufaturados de ferro e aço não ligado - Polônia (US$ 56,5 milhões)
  2. Quartzitos em blocos ou placas - Itália (US$ 52,6 milhões)
  3. Melões frescos - Holanda (US$ 46,2 milhões)
  4. Produtos semimanufaturados de ferro e aço não ligado - França (US$ 43,3 milhões)
  5. Produtos semimanufaturados de ferro e aço não ligado - Itália (US$ 25,3 milhões)
    Fonte: Comexstat/Mdic

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