Desde que começou a ser utilizado em escala industrial, após milênios de aproveitamento pontual, o petróleo foi responsável pela produção de muita riqueza, mas também de crises econômicas e conflitos ao redor do mundo.
O papel do petróleo em conflitos ocorreu de forma mais explícita, principalmente a partir dos anos 1950, com a nacionalização pelo Egito do canal de Suez, por onde passava parte significativa do petróleo mundial à época e, mais fortemente, a partir da criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Em muitos desses conflitos, houve a participação direta ou indireta dos Estados Unidos, que teve hegemonia nesse mercado por quase um século.
Dois dos casos mais recentes são as guerras no Iraque, a primeira após a invasão do Kuwait pelo país do Oriente Médio. A segunda, após uma alegação nunca comprovada pelos norte-americanos de que o governo iraquiano escondia armas químicas. Esta última, iniciada em 2003, só foi encerrada oficialmente oito anos depois.
No início de 2026, após alguns meses de operações militares pontuais contra embarcações supostamente transportando drogas ilícitas, os Estados Unidos capturaram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, alegando também um suposto roubo de petróleo que seria do país norte-americano, não deixando claro se fazia referência à nacionalização feita quase 50 anos da produção petrolífera venezuelana ou de outro fato.
“A questão que temos que considerar é que existem disputas que são realizadas e que pressionam os seus adversários com a alternância no preço do petróleo. Essa mudança de preço do petróleo no mercado responde muito a guerras e a conflitos, como os que se observaram no Oriente Médio”, pontua o economista e ex-diretor do Brasil no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Márcio Fortes.
Os próprios países exportadores do Oriente Médio, além da Rússia, estiveram ou estão envolvidos de algum modo em crises que mexeram com o mercado petrolífero. “Mais recentemente, a guerra da Ucrânia, em 2022, vai provocar uma alta de preços do produto. Então, assim, há realmente um histórico de variação do preço do petróleo que acaba respondendo bastante às intervenções”, cita.
Ele menciona também os movimentos nacionalistas que sempre permearam a história recente da exploração de petróleo, incluindo países sul-americanos. “Em alguns casos, a produção de riqueza existe, como no Brasil, mas, em outros, como na Venezuela, a gente viu uma produção de riqueza bastante limitada, porque, nos últimos vinte anos, o país teve encolhimento dos investimentos”, explica Fortes.
“A formação da Opep, também como um grupo de países produtores, é para evitar exatamente que o preço do petróleo oscile de forma que cause perdas aos produtores. Controlar a oferta é extremamente interessante para se manter o controle sobre os preços. Na década de 1970, esses países fizeram do petróleo uma arma, impondo embargo aos Estados Unidos e elevando os preços”, lembra.
Sobre as crises do petróleo da década de 1970, o consultor na área de petróleo e gás, Bruno Iughetti, afirma que os movimentos da Opep permitiram ao grupo controlar 80% do petróleo no mundo e balizar os preços por barril de acordo com conveniências políticas do grupo, mas que esse cenário mudou nas últimas décadas.
“De lá para cá houve um ajustamento de conduta dos países da Opep e essa lógica já não se faz mais presente. Eles dependem, hoje, muito da produção em larga escala. Só que o mercado está um tanto restritivo e, com isso, a demanda está aquém da oferta que os países da Opep fazem hoje em dia e, com isso, há um aspecto que impacta os preços finais do petróleo cru”, analisa.
Falando sobre a Venezuela, Iughetti ressalta a perda de protagonismo do país, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo, estimadas em 304 bilhões de barris. “Eles perderam muito espaço com os governos chavistas, e hoje sofrem as consequências”, avalia.
“O que se espera é que, agora, com a saída do Maduro, principalmente as indústrias americanas de petróleo retornem para a Venezuela e deem sequência, com maior técnica e maior escala de produção, como era no passado”, projeta Iughetti.
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Venezuela é fator limitado no mercado global
Mesmo contando com as maiores reservas de petróleo do mundo e em um cenário de incerteza causado pela derrubada de Nicolás Maduro, o fator Venezuela tem impacto limitado sobre o mercado global. É o que aponta o ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates.
"No curto prazo, o impacto tende a ser limitado ou nulo, porque a Venezuela produz menos de 1% do petróleo mundial. Não há choque físico de oferta. O efeito mais relevante é geopolítico, pois o controle sobre o destino do petróleo venezuelano passa a ser parte da disputa entre Estados Unidos, China e outros atores, com reflexos no médio e longo prazo", avalia.
Já conforme observa o gerente de petróleo e GLP, Gustavo Vasquez, antes do ataque militar, o aumento das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela contribuiu para preços mais firmes do petróleo. "No entanto, imediatamente após o ataque militar e a captura de Maduro, a reação dos preços foi contida, diante da ampla oferta global de petróleo".
Dadas as próprias características do petróleo venezuelano, do tipo Merey, que é mais viscoso e exige um processo mais complexo de refinamento, o impacto de uma interrupção em seu fornecimento sobre as cadeias produtivas globais seria de natureza diferente da que aconteceria em um país do Oriente Médio, por exemplo.
“Qualquer interrupção sustentada nas exportações de petróleo venezuelano afetaria principalmente o mercado global de petróleo pesado e com alto teor de enxofre”, pontua Vasquez.
Ele acrescenta que “a Venezuela não está totalmente integrada aos mercados globais de petróleo devido às sanções dos Estados Unidos. Refinarias independentes na China absorvem a maior parte das exportações de petróleo venezuelano — 430 mil barris por dia em 2025”.
Ele também afirma que “restaurar a infraestrutura de petróleo da Venezuela a algo próximo da antiga capacidade de cerca de 3 milhões de barris por dia consumiria anos e possivelmente centenas de bilhões de dólares, mesmo no melhor ambiente".
A opção de reparar refinarias seria ainda mais difícil, segundo análise de Vásquez. "A refinaria de Cardón sofreu mais um grande apagão no ano passado, mesmo após a produção ter caído a uma fração da capacidade nominal", exemplifica.
No mesmo sentido, o economista, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e consultor da GO Associados, Gesner Oliveira, avalia que "no curto prazo, prevalece o prêmio de risco geopolítico. No médio e longo prazo, o fator decisivo será a conversão de reservas em produção efetiva. Mesmo no cenário otimista, os impactos relevantes sobre preços tendem a materializar-se apenas a partir de 2028".
Por sua vez, Ricardo Pinheiro, diretor da RPR Engenharia e Consultoria, destaca que a questão da Venezuela não afeta de maneira imediata o Brasil. "O Brasil poderia ser afetado futuramente caso realmente esse movimento que o governo americano está querendo fazer de retomar a produção na Venezuela aconteça", conclui.
BRICS e Brasil no cenário do petróleo
Com três de seus países fundadores, entre os dez maiores produtores de petróleo do mundo, o Brics é um importante investidor nesse mercado, inclusive também como bloco comprador da commodity.
Segundo o ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, o Brics reúne grandes produtores e consumidores de petróleo, mas é heterogêneo. "Rússia e Brasil são produtores relevantes, a China é grande consumidora e financiadora, a Índia cresce rapidamente".
"O grupo pode ganhar peso como polo energético, mas enfrenta limites internos, interesses distintos e forte pressão geopolítica externa. O Brasil, em particular, ganha relevância como fornecedor estável e fora de sanções", complementa Prates, que também cita o potencial para que esse mercado ampliado funcione como um novo lastro da economia mundial.
"A energia, especialmente petróleo, gás e minerais críticos, já funciona como um lastro estratégico, ainda que não monetário formal. Em um mundo fragmentado, energia garante poder, influência e segurança econômica. Isso tende a reforçar o papel do petróleo, não a reduzi-lo, mesmo com o avanço das renováveis", projeta Jean Paul Prates.
O diretor da RPR Engenharia e Consultoria, Ricardo Pinheiro, frisa que o Brasil cresceu muito nesse cenário nos últimos 15 anos. "Ele teve uma aceleração muito grande na participação no mercado de petróleo, principalmente depois da descoberta do pré-sal. E foi isso que deu ao Brasil essa importância como ator nesse mercado", afirma.
"A China hoje, por exemplo, é uma grande compradora do petróleo brasileiro", detalha Pinheiro. "A China tem uma grande demanda de energia. Ela tem um consumo de energia muito grande. Ela é uma grande produtora também, mas a demanda de lá é tão grande que mesmo a produção dela não é autossuficiente. Então, ela tem que importar", acrescenta.
Voltando a falar do Brasil, Pinheiro destaca a questão da Margem Equatorial e o potencial petrolífero que essa região, que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte, possui. "A Foz do Amazonas é a primeira área de interesse, porque tem uma previsão, uma projeção, de ter em torno de 5 a 6 bilhões de barris de petróleo como reserva estimada", ressalta.
"A Margem Equatorial é importantíssima, porque, caso a gente consiga realmente ter sucesso, isso envolve projetos para exportar aquele petróleo. E esse petróleo só vai começar a produzir aproximadamente lá para 2030", estima Pinheiro.
Tensões e crises relacionadas ao petróleo
Monopólios Iniciais (final do séc. XIX)
Grandes empresas passaram a dominar produção e refino. Isso gerou concentração econômica e disputas por mercado. Governos ainda tinham pouca capacidade de regulação.
Standard Oil (1890–1911)
A empresa de Rockefeller controlou grande parte do petróleo dos EUA. Práticas anticompetitivas prejudicavam os concorrentes. Sua divisão marcou o início de leis antitruste mais rígidas.
Petróleo Persa (1908)
A descoberta no Irã atraiu o interesse britânico. Empresas estrangeiras passaram a controlar a produção. A população local teve poucos benefícios econômicos.
Primeira Guerra Mundial (1914–1918)
O petróleo tornou-se essencial para navios e veículos militares. Países com acesso ao recurso ganharam vantagem estratégica. A guerra mostrou o valor geopolítico da energia.
Acordo Red Line (1928)
Empresas dividiram áreas petrolíferas do Oriente Médio. A concorrência foi limitada por acordos privados. Estados locais ficaram excluídos das decisões.
Nacionalismo Mexicano (1938)
O México nacionalizou sua indústria petrolífera. Empresas estrangeiras perderam ativos importantes. O país fortaleceu sua soberania econômica.
Segunda Guerra Mundial (1939–1945)
Campos de petróleo foram alvos militares estratégicos. A falta de combustível enfraqueceu algumas potências. O conflito reforçou a ligação entre energia e poder.
Crise de Suez (1956)
A nacionalização do canal afetou as rotas do petróleo. Potências europeias reagiram militarmente. Os EUA e a URSS intervieram diplomaticamente.
Criação da OPEP (1960)
Países produtores se uniram para ganhar força. O objetivo era controlar produção e preços. O cartel mudou a dinâmica do mercado global.
Nacionalizações Árabes (1960–1970)
Estados assumiram controle das reservas petrolíferas. Empresas estrangeiras perderam concessões. A renda do petróleo fortaleceu governos locais.
Petróleo Venezuelano (1970–1990)
A Venezuela nacionalizou sua indústria. A PDVSA tornou-se uma das maiores estatais do mundo. O país ganhou destaque como exportador.
Choque do Petróleo (1973)
A OPEP reduziu a produção deliberadamente. Os preços do petróleo dispararam. Países importadores enfrentaram recessão.
Revolução Iraniana (1979)
A queda da monarquia causou instabilidade produtiva. Exportações foram interrompidas temporariamente. O mercado reagiu com nova alta de preços.
Guerra Irã-Iraque (1980–1988)
Dois grandes produtores entraram em guerra. Instalações petrolíferas foram atacadas. O conflito afetou o comércio global.
Guerra do Golfo (1990–1991)
O Iraque invadiu o Kuwait, grande exportador. O fornecimento global ficou ameaçado. Uma coalizão internacional interveio.
Venezuela x EUA (anos 2000)
A retórica política tornou-se mais conflituosa. As sanções afetaram a produção e exportação. A dependência do petróleo aumentou a crise interna.
Invasão do Iraque (2003)
A guerra ocorreu em uma região rica em petróleo. A reconstrução do setor foi controversa. O conflito gerou instabilidade prolongada.
Shale Oil EUA (2010–2015)
Os EUA aumentaram fortemente sua produção. A dependência de importações diminuiu. Os preços globais sofreram pressão.
Guerra Rússia-Ucrânia (2022)
As sanções afetaram o petróleo e o gás russos. A Europa enfrentou uma crise energética. A geopolítica da energia ganhou centralidade.
Queda de Maduro (3 jan 2026)
Os EUA realizaram uma operação militar que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro.O presidente Donald Trump declarou que Washington irá promover a entrada de empresas petrolíferas americanas para explorar os vastos campos de petróleo do país.
Participação dos países no mercado do petróleo
OS MAIORES PRODUTORES DE PETRÓLEO
(MILHÕES DE BARRIS POR DIA)
1° ESTADOS UNIDOS: 13,8
2º ARÁBIA SAUDITA: 10
3º RÚSSIA: 9,8
4º CANADÁ: 5
5º CHINA: 4,3
6º IRAQUE: 4
7º BRASIL: 3,8
8° EMIRADOS ÁRABES: 3,3
9º IRÃ: 3,2
10º KUWAIT: 2,5
AS MAIORES RESERVAS DE PETRÓLEO
(BILHÕES DE BARRIS)
1° VENEZUELA: 304
2º ARÁBIA SAUDITA: 267
3º IRÃ: 209
4º IRAQUE: 201
5º CANADÁ: 170
6º EMIRADOS ÁRABES: 113
7º KUWAIT: 102
8° RÚSSIA: 80
9º ESTADOS UNIDOS: 74
10º LÍBIA: 50
Fontes: Trading Economics/EIA