A região jaguaribana, notadamente no Médio e Baixo Jaguaribe, vem sofrendo os efeitos de uma estiagem prolongada, que em algumas localidades chega a 11 meses sem chuva, conforme relatam produtores rurais locais.
O problema tem atingido mais severamente os criadores de gado bovino, com a dificuldade de fornecer alimentação para os animais. Sem comida e água muitos têm morrido de fome ou ficado extremamente debilitados, conforme relatos dos produtores e gestores de municípios da região.
O produtor rural Moisés Maia relata que não tem sofrido particularmente com a estiagem por estar numa região menos afetada pela estiagem no município de Limoeiro do Norte, mas afirma que muitos de seus colegas produtores de outras áreas do município enfrentam o problema de forma severa.
“Limoeiro é um município que tem um projeto irrigado, mas tem a área de sequeiro também. A área de sequeiro está sofrendo muito. Já tem gado morrendo mesmo de fome. Estamos passando 11 meses sem cair uma gota d'água do céu. Tivemos um inverno muito fraco em 2025, e é muito animal, debilitado, sofrendo, e o dono sofrendo junto, porque não tem o que dar de comer”, relata.
“A situação financeira é muito ruim, o preço do leite despencou muito, a ração subiu. Para completar, o ‘inverno’ está tardando, não tem quadra chuvosa. A quadra ‘invernosa’ está se programando para dizer que é a partir de março. E daqui para lá, se passarmos dois meses sem chuva, a nossa região vai sofrer muito. A região do Vale do Jaguaribe sofreu muito com o impacto da estiagem”, complementa.
Já o secretário de agricultura e pecuária de Alto Santo, Júnior Cabó, confirma que o problema atinge boa parte da bacia hidrográfica do rio Jaguaribe. “A região do médio e baixo do Jaguaribe está passando, toda, por esse problema, porque em 2025 choveu nos dois primeiros meses do ano e não choveu mais. Os produtores não tiveram safra para alimentar o rebanho e com a demora da chuva em 2026, estão morrendo muitos animais”, ressalta.
“Aqui no caso o município (de Alto Santo) decretou calamidade pública por estiagem. Estamos tendo algumas comunidades abastecidas pela Defesa Civil, a gestão está ajudando com algumas cestas básicas, alguma coisa para os produtores. Solicitamos à (Superintendência de Obras Hidráulicas) Sohidra, a perfuração de poços. Tem alguns poços para serem implantados, justamente por conta dessa seca”, afirma.
A Sohidra confirma que a região é uma das que mais têm demandado perfuração de poços para o abastecimento de água. Ao todo, somando as três regiões que compõem o Vale do Jaguaribe, nada menos que 125 poços foram perfurados no ano passado, perdendo apenas para a bacia do Banabuiú, em que 127 poços foram perfurados. Vale lembrar, inclusive, que parte da bacia do Banabuiú também inclui territórios em municípios da região jaguaribana.
O superintendente da Sohidra, Marco Bica, explica que tem recebido solicitações de perfuração de poços de todo o Estado, mas destacando que regiões como o Sertão Central, o Sertão de Crateús e alguns municípios do Cariri como áreas com grande procura. “A gente tenta priorizar e manter um critério de atender localidades com pelo menos cinco famílias. E a gente procura não perfurar um poço dentro de um raio de pelo menos 500 metros um do outro”, explica.
Por sua vez, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, alerta para a necessidade de que o produtor rural aprenda técnicas de convivência com a seca. ”Nós não brigamos com a seca porque ela vai vir. Então, é preciso conscientizar os produtores rurais que eles precisam preservar comida para o gado”, disse.
Ele destaca, por exemplo, a instalação de 497 unidades de forragem para a alimentação animal que a entidade implantou e projeta para esse ano mais 2 mil unidades. “Queremos que o produtor rural se prepare para possíveis secas. A seca é um fenômeno que vai vir. Ou hoje, ou no outro ano”, enfatiza Amílcar.
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33 municípios do Ceará estão em situação de emergência
O Ceará tem 33 municípios com reconhecimentos vigentes do Governo Federal de situação de emergência, sendo 21 de estiagem e 12 de seca, conforme o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), do dia 18 de janeiro de 2026.
No quadro considerado mais prolongado, o de seca, concentram-se as microrregiões do Sertão de Quixeramobim, com quatro cidades, do Vale do Jaguaribe, com três, sendo duas do Baixo Jaguaribe e uma do Médio, e a do Sertão de Inhamuns, com duas localidades. O restante com uma cidade fica nas microrregiões do Sertão de Senador Pompeu, da Serra do Pereiro e do Sertão de Crateús.
Enquadradas no período mais curto de chuvas abaixo da média, a estiagem, destacam-se as microrregiões do Sertão de Senador Pompeu, com cinco cidades, do Sertão de Inhamuns e da Chapada do Araripe, ambas com três municípios, além do Sertão de Quixeramobim e de Canindé, cada uma com duas localidades. As regiões com registros também se estendem por Serra do Pereiro, Fortaleza, Santa Quitéria, Uruburetama, Baixo Jaguaribe e Sertão de Crateús.
Segundo o Mapa do Monitor de Secas do Brasil com dados consolidados de dezembro de 2025, da Agência Nacional de Águas (ANA), devido às anomalias negativas de precipitação e piora dos indicadores, houve avanço das secas moderada e grave no Norte do Ceará. A entidade aponta melhora dos indicadores no Oeste e recuo da seca grave, classificando os impactos entre curto e longo prazo.
No Nordeste, houve avanço da seca extrema, sobretudo em partes do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco e da Bahia. Observou-se a expansão da seca fraca e moderada em Alagoas, Sergipe e Bahia e recuo das secas grave no Maranhão, Piauí e Bahia, e da extrema no Piauí. (Beatriz Cavalcante)
Lista dos municípios
Vale do Jaguaribe corrobora com 2,47% dos impostos do Ceará
Polo agrícola e pecuário do Ceará, o Vale do Jaguaribe, com 15 municípios, 15.018 em km², ou 10,1% no território estadual, corrobora com 2,47% dos impostos arrecadados localmente. Esse percentual é abaixo apenas da Grande Fortaleza (80%), do Cariri (4,66%) e do Sertão de Sobral (2,63%), conforme dados do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece).
Adicionalmente, a região tem participação no PIB do Estado de 9,47%, atrás somente da Grande Fortaleza, com 17,96%. Os municípios de Limoeiro do Norte (20%), Morada Nova (17,6%), Russas (quase 16%) e Quixeré (8,77%) são os com os maiores índices no PIB da região.
Os 15 municípios que compõem a região têm ainda uma das maiores participações no Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária estadual, com 12,3%, a terceira maior participação. (Beatriz Cavalcante)
Composição da região