O início de 2026 traz um cenário de atenção, mas também de reorganização, para o orçamento das famílias em Fortaleza.
Pesquisa do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento do Ceará (IPDC), da Fecomércio-CE, aponta que o percentual de consumidores endividados na Capital caiu para 67,6% em janeiro de 2026, uma redução de 2 pontos percentuais em relação a dezembro.
Na comparação com o início de 2025, quando o índice era de 74,4%, os dados sugerem uma tendência gradual de ajuste no orçamento das famílias fortalezenses.
Apesar do recuo no endividamento total, o comprometimento da renda ainda é significativo. Em média, os consumidores de Fortaleza destinam 34,5% da renda familiar ao pagamento de dívidas, com valor médio de débito de R$ 1.749.
O cartão de crédito segue como o principal instrumento de endividamento, utilizado por 72,5% dos entrevistados, o que reforça a dependência do crédito parcelado no dia a dia das famílias.
Outro ponto de atenção é o comportamento das contas em atraso. Mesmo com a queda no número total de endividados, houve aumento de 0,4 ponto percentual nas dívidas vencidas, que alcançaram 19,6% em janeiro.
Já a inadimplência potencial — consumidores que afirmam não ter condições de pagar suas dívidas — ficou em 9,7%, indicando que parte do alívio observado ainda é frágil.
Para a diretora institucional da Fecomércio-Ce, Cláudia Brilhante, os dados revelam um consumidor mais atento ao orçamento, ainda que os desafios persistam. “Há um movimento claro de priorização do pagamento das dívidas e de compras à vista, o que ajuda a explicar a queda no endividamento. Por outro lado, o uso excessivo do cartão de crédito continua sendo um entrave importante”, avalia.
Conforme ela, o planejamento financeiro tem avançado, mas nem sempre é executado de forma efetiva. A pesquisa mostra que 79,3% dos consumidores realizam orçamento mensal e acompanham seus gastos, porém uma parcela significativa ainda não consegue cumprir esse planejamento. “Não basta mapear as despesas. É preciso respeitar os limites do orçamento, especialmente em períodos como o verão, quando os gastos aumentam dentro e fora de casa”, afirma.
O cenário observado em Fortaleza se insere em um contexto nacional de maior pressão sobre o orçamento das famílias. Levantamento da Serasa, realizado em parceria com o Instituto Opinion Box, revela que 77% dos brasileiros percebem aumento dos gastos durante o verão. Mais da metade dos entrevistados (54%) afirma já ter se endividado em razão das despesas típicas da estação.
De acordo com a pesquisa, 42% dos brasileiros avaliam que os gastos deste verão serão maiores do que os do ano passado. A principal pressão vem das despesas fixas, especialmente a conta de energia elétrica, citada por 24% dos consumidores como a categoria que mais aumentou no período.
Também aparecem entre os principais vilões do orçamento os gastos com saúde (14%), conta de água (14%), alimentação fora de casa (13%) e lazer e passeios (10%).
O levantamento mostra que, mesmo com planejamento financeiro declarado por parte dos consumidores, o uso do crédito segue como fator de risco.
Embora Pix e transferências bancárias liderem as formas de pagamento para despesas extras, o cartão de crédito parcelado é utilizado por cerca de 25% dos entrevistados, o que tende a empurrar parte desses gastos para os meses seguintes e prolongar o comprometimento da renda.
O contraste entre o cenário nacional e os dados de Fortaleza indica que, embora haja sinais de melhora local, o contexto exige cautela. Para especialistas, o momento pede atenção redobrada ao uso do crédito, sobretudo do cartão parcelado, que pode transformar despesas sazonais em um problema de longo prazo.
Para o comércio, o período segue favorável, impulsionado por liquidações e aumento da intenção de compra. Ainda assim, a Fecomércio destaca que a concessão de crédito responsável, alinhada à capacidade de pagamento das famílias, será fundamental para evitar um novo ciclo de inadimplência ao longo de 2026.
O período mais quente do ano concentra uma série de fatores que pressionam as finanças das famílias e elevam o risco de endividamento. Entre os principais motivos estão:
O uso mais intenso de ar-condicionado, ventiladores e chuveiros elétricos eleva a conta de energia. No verão de 2026, 24% dos brasileiros apontaram a luz como a despesa que mais aumentou, segundo a Serasa.
Férias, viagens, passeios e encontros sociais ampliam despesas com alimentação fora do lar, lazer e transporte, muitas vezes não previstas no orçamento mensal.
Itens típicos do período, como roupas de verão, protetor solar, medicamentos e cuidados com a saúde, tendem a encarecer e se acumulam em curto espaço de tempo.
Para dar conta dos gastos extras, muitos consumidores recorrem ao cartão de crédito parcelado, o que empurra despesas do verão para os meses seguintes e compromete a renda futura.
Embora parte dos consumidores declare se organizar financeiramente, a execução do orçamento ainda é um desafio, especialmente quando os gastos aumentam simultaneamente dentro e fora de casa.