O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano, a despeito das pressões políticas.
A primeira reunião do ano marcou a quinta vez consecutiva de manutenção do índice, que está no mesmo patamar desde junho do ano passado. De setembro de 2024 a junho de 2025, a taxa chegou a subir sete vezes seguidas e não foi mais alterada, mesmo com a melhora da inflação.
Na decisão, o Copom considerou que “o ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica”.
Também sinalizou o início dos cortes de juros para a próxima reunião. “O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, afirma a decisão.
De acordo com o presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Wandemberg Almeida, a manutenção da taxa aconteceu, justamente, por conta de se ter terminado o ano passado com a inflação dentro da meta, como consequência esperada das elevações e posteriores manutenções da Selic em patamar elevado.
“Isso faz com que o próprio Banco Central passe, digamos, um atestado de que ele está querendo começar o ano com a inflação baixa e equilibrada. Então o Banco Central quer passar, logo na sua primeira reunião, para o mercado, principalmente, de que está atento às variações, e que está atento ao comportamento e aos cenários da economia”, explica Wandemberg.
“O ano começou agora e existe uma preocupação muito grande em se manter a economia um pouco mais equilibrada. Principalmente, em relação ao dragão que é a inflação. E como terminou com um ano de 2025 positivo, com a inflação na meta, agora é o momento de poder se avaliar o começo do ano para poder ver o que pode fazer no decorrer dele, com a possibilidade de queda nas próximas reuniões”, acrescenta o presidente do Corecon-CE.
Para o fim do ano, ele prevê a Selic fechando em algo entre 12,5% e 13% e avalia que esses patamares ainda elevados têm relação também com uma meta de inflação inadequada. “E aí nós temos um grande problema: a meta de inflação não condiz com o nosso País. Eu tenho uma meta hoje de 3% de inflação, isso é totalmente fora da realidade da nossa economia. E aí a gente acaba penalizando o setor produtivo e as famílias, na hora de pegar crédito, de consumir, de investir, de inovar, por conta dessa meta fora da realidade”, critica.
Já o economista e conselheiro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais do Brasil (Apimec Brasil), Ricardo Coimbra, pontua que o mercado acha que os dados e as projeções para a inflação, mesmo com a expectativa do Focus desta semana, seriam um indicativo de que, em março, você teria uma trajetória mais tranquila para você gerar a redução da taxa Selic.
“Ou seja, de que todos os diretores do Banco Central estariam em linha com esse cenário”.
Ele afirma que caso tivesse sido feito um corte de 0,25% na taxa Selic já em janeiro, a decisão poderia soar como uma pressão política do ano eleitoral. “Para alguns, antecipar esse processo seria atender a necessidade do governo de dizer que já está reduzindo a taxa de juros e que a inflação está sob controle”, analisa Coimbra.
O economista acrescenta que com a manutenção da taxa nesse patamar até março, o custo do crédito, principalmente para aquele indivíduo que está precisando captar alguma linha de crédito, acaba ficando mais caro não só para pessoa física como para pessoas jurídicas. “No setor produtivo, você retrai os investimentos”.
“Já o indivíduo que tem dinheiro sobrando, ele gosta porque a taxa de juros vai continuar em patamar elevado e o rendimento dele também vai ser mais elevado. Ele aplica numa renda fixa vai ter uma taxa em um patamar mais elevado por mais tempo”, exemplifica.