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Exclusiva com Vojvoda: campanha do Fortaleza, experiência no Brasil e muito mais

Com pés no chão apesar do bom momento do time, técnico argentino se permite continuar sonhando e batalhando por uma campanha história, mas reconhece que será difícil manter o nível
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Argentino Juan Pablo Vojvoda levou o Fortaleza à terceira colocação na Série A
 (Foto: Aurelio Alves)
Foto: Aurelio Alves Argentino Juan Pablo Vojvoda levou o Fortaleza à terceira colocação na Série A

O desempenho do Fortaleza na Série A do Campeonato Brasileiro tem chamado a atenção do Brasil para o trabalho dele, mas antes mesmo desse início — já quase na metade da competição — avassalador, ele já tinha ganhado o coração dos torcedores do Leão

Juan Pablo Vojvoda chegou ao Pici e rapidamente entregou o que a massa tricolor pedia: coragem para jogar. Intenso e agressivo, o Fortaleza virou rolo compressor, sendo derrotado apenas duas vezes em 20 jogos desde que ele assumiu — e para times do naipe de Flamengo-RJ e Athletico-PR, ambos como visitante.

Em casa, no entanto, o Leão tem sido implacável com os adversários, sem olhar para a camisa que eles estão vestindo. E esse desempenho tem muito do trabalho incansável do argentino, que de tão focado no trabalho resolveu morar no Pici.

Em meia hora de entrevista exclusiva com O POVO, "El duque" discutiu o trabalho atual, a experiência dele no futebol brasileiro, a saudade da família e comentou alguns fatos curiosos.

O POVO - Que Fortaleza é esse que é o terceiro colocado da Série A e está no G-6 desde o início da competição?

Vojvoda - O Fortaleza tem algo muito especial, que é conservar sua humildade, conservar o trabalho, o dia a dia e conservar os objetivos pertos, como a próxima partida. Não temos que nos desviar do caminho que estamos fazendo nesse momento. Nosso caminho tem que ser de trabalho, de responsabilidade. Sabemos que somos uma boa equipe, que está respaldada por uma instituição muito organizada e isso também conta ao momento esportivo do clube. A respeito estritamente da parte esportiva, temos bons jogadores, o que é importante, porém eles tem que estar com o compromisso importante a nível de grupo.

O POVO - Até onde esse Fortaleza pode chegar?

Vojvoda - Como treinador, como torcedor também e como gente que trabalha no clube, sempre é bom colocar objetivos realistas. Somos uma equipe que tem que conservar essa maneira de trabalhar, sem deixar de lado os sonhos e ir em busca disso, mas conservando nossa realidade. Começamos muito bem, quando houver momentos difíceis vamos necessitar do apoio do torcedor, da imprensa local e defender isso. Fortaleza é uma instituição muito grande, as pessoas demonstram cada vez que eu saio (às ruas), então a nossa responsabilidade também é muito grande.

O POVO - É possível fazer um paralelo do Fortaleza na Série A com o Unión La Calera vice-campeão do Chile?

Vojvoda - É muito difícil fazer essa comparação no futebol, porque são dois países diferentes. Institucionalmente, de forma geral, são muito parecidas enquanto organização de instituição, dos objetivos, de conseguir uma linha de jogo, por isso o Fortaleza foi buscar o Vojvoda. Fortaleza analisou minhas equipes antes de ir me buscar. Eu reconheço que foi muito difícil trabalhar no La Calera em um ano de pandemia e sustentar o momento como uma equipe que não é considerada grande no Chile.

Nosso objetivo no Fortaleza é consolidar uma ideia de jogo, uma maneira de trabalhar, de jogar cada partida. Os jogos não são iguais. O jogo contra o Bragantino foi muito difícil, mas muito diferente do jogo do São Paulo, que foi diferente do jogo contra a Chapecoense. Então nós devemos ser uma equipe que se adapta ao jogo que estamos fazendo, mas repito, o fundamental para minha missão é manter ou sustentar uma linha e jogo, um funcionamento, uma ideia, mais que sistema tático, de 4-3-3, 4-2-3-1, 5-3-2, isso é mais para mim, somente para que eu ocupe minha cabeça, o principal é que o jogador se sinta confortável e que o torcedor se sinta representado pelo time que veste a camisa do Fortaleza

O POVO - O que o Fortaleza tem além da intensidade como diferencial?

Vojvoda - É um time que deve ser inteligente para fazer o que o jogo indica. Muitas vezes indica pausa, não tanto intensidade. Outras vezes necessita de intensidade e agressividade com bola e, sem bola, ter organização. Preciso de jogadores, principalmente, que interpretem o momento do jogo. O Fortaleza já está muito visado pelos adversários, então será um desafio para nós sustentar isso com as dificuldades que os adversários vão apresentar.

O POVO - O que você agregou no Fortaleza com suas outras experiências como técnico?

Vojvoda - Eu gosto da palavra que você usa, agregar. Eu não quero trocar nada. Os jogadores do Fortaleza têm muito potencial, muita organização, venho agregar e não mudar muitas coisas. Eu adaptei uma ideia de jogo às coisas boas que o jogador brasileiro tem na primeira instância (naturalmente). O jogador brasileiro tem muita qualidade, tem o principal que se deve ter, que é gana de jogar, o espírito do jogo de rua, jogar futebol por jogar (por paixão).

Nossa responsabilidade é organização e motivação e acreditar que o Fortaleza pode lutar, sim, e vencer equipes com pressupostos maiores. É um jogo e nem sempre ganha quem tem as melhores cartas, muitas vezes ganha quem é mais inteligente para jogar com essas cartas ou para se adaptar ao jogo.

O POVO - É verdade que você ligou para o Fragapane para pegar informações do Fortaleza antes de aceitar o convite?

Vojvoda - Quando o Fortaleza foi até mim, teve que receber informação sobre Vojvoda e eu também quando vou a um clube quero ter informação (sobre o clube). Fragapane havia jogado no Fortaleza, é um jogador que não dirigi, mas conheço do futebol argentino. Conversei com ele para perguntar sobre aspectos gerais do clube. Fragapane não jogou muito no Fortaleza, poderia ter falado regular ou ruim, mas foi o contrário. O jogador que não joga e fala bem da instituição onde esteve, isso diz muito da própria instituição. Além da parte esportiva está o aspecto humano, do dia a dia, e essas informações para mim são muito valiosas

O POVO - Em um vídeo nas redes sociais do Fortaleza, Wellington Paulista revelou que treinou muito a formação com três zagueiros antes de lançar a campo. Você já queria jogar com essa formação desde que chegou?

Vojvoda - Primeiro, quando chego a um clube, observo os jogadores, as características (deles) e a cultura do clube. Se é um clube que tem a gana de seguir crescendo ou se é um clube que só quer manter sua posição na zona de conforto. Cheguei aqui e notei que queriam seguir progredindo no futebol brasileiro. Quanto ao sistema, tinha recebido informações do Cifec (Centro de Inteligência do clube, voltado a prospecção de talentos) e assistido muitas partidas. No próprio treino, provar (testar), ensaiar, vai se observando, mas não ponho muito foco no sistema de três zagueiros.

Por exemplo, Tinga, muitas vezes, se você para o jogo em uma determinada jogada, ele está jogando como um lateral-direito, Benevenuto como um zagueiro pela direita, Titi como zagueiro pela esquerda e Crispim de lateral-esquerdo. Em outro minuto, vai estar Tinga como zagueiro central, Benevenuto como zagueiro pela esquerda e Titi como lateral-esquerdo. É futebol, necessita de soluções para situações de jogo e muitas vezes isso é mais importante que um esquema tático.

Muitas vezes eu mesmo ou os jornalistas precisam dizer "esta equipe joga com três zagueiros", mas é futebol, quando você jogava na época de criança, primeiro queria jogar, entende? Primeiro eu jogo, depois decido onde jogo. E vai resolvendo situações do jogo. O jogador brasileiro tem muito disso, de resolver situações que se apresentam dentro do mesmo jogo.

O POVO - Como você avalia o nível da Série A e os treinadores das equipes que a disputam?

Vojvoda - Nível do Brasileirão é muito alto, competitivo; o futebol brasileiro tem uma boa competição. A tabela da Libertadores mostra isso, muitos times brasileiros na fase final. A estrutura do futebol brasileiro é muito boa, os estádios são muito apropriados para jogar futebol. E quanto ao nível de jogo, há equipes que me entusiasmam ao ver.

O Bragantino é uma equipe que, apesar de ter bons jogadores, um pressuposto alto, a ideia de jogo é muito boa. Gostei da intensidade do Atlético-GO, gostei da versatilidade do sistema tático do Athletico-PR. Não quero esquecer nenhuma, tem boas equipes no Brasil. O Flamengo tem uma equipe muito competitiva, jogadores individuais que são bons de ver jogar porque são a essência do futebol brasileiro. O Palmeiras também tem marcado (jogado) um nível alto, tanto no Brasileirão, quanto na Libertadores também.

O POVO - Vojvoda, até pela campanha do Fortaleza, muitos holofotes estão virados para você, mas essa é apenas a terceira entrevista que você concede, a primeira para um veículo local. Como é sua relação com a imprensa? Você acha que o excesso de exposição pode tirar o foco ou é questão de ser mais reservado mesmo?

Vojvoda - Não, não tenho problema. Muitas vezes estou com muitos jogos, não tenho o tempo necessário para poder atender, porque se estou com você, não quero conversar por dois ou três minutos e responder por responder. Quero sentar, falar, ter uma troca e, para isso, necessito de tempo. Compreendo que vocês precisam de informação para passar ao torcedor, mas eu preciso também de tempo prudencial para transmitir o que acredito, de maneira pausada. Meu português não é bom e quero fazer entrevistas bem feitas e tendo tempo para poder dedicar a vocês. E sim, sempre estou muito atento à imprensa argentina.

O POVO - Como é seu dia a dia no clube, já que você mora lá e por que decidiu residir no Pici?

Vojvoda - Rotina normal de trabalho. Treinador é um profissional como qualquer outra, mas que tem muita repercussão por causa do futebol. A decisão de morar no Pici nos primeiros meses; não sei se vou morar aqui mais para frente; mas, nos primeiros meses, eu precisava estar muito focado no meu trabalho, porque venho de um país diferente, precisava estar continuamente com informação e conhecer por dentro o clube. Também estou consciente que preciso conhecer a cidade, Fortaleza é muito bonita e quero conhecer também fora do Pici. Haverá o momento, mas não pensem que Vojvoda está sofrendo, não, ao contrário, estou muito feliz e muito focado no trabalho do dia a dia.

O POVO - Como está seu aprendizado do português? E sua família, virá morar com você ou visitar?

Vojvoda - Meu português está melhorando, pelo que sinto, mas agora muito pouco. No primeiro momento melhorou bastante, mas (agora) o que segue melhorando é o entendimento a vocês. Quando vocês falam, compreendo e isso é muito importante para mim. Quanto à minha família, a pandemia dificulta a vinda, mas estamos prontos, pode ser possível que minha esposa e meus filhos venham para Fortaleza passar o primeiro mês e logo decidimos como seguir tudo isso.

O POVO - Desde que você chegou, não houve contato ainda com a torcida no estádio, mas nas ruas, você tem sentido o carinho deles? E como foi aquele episódio em que tiraram uma foto sua no portão do Pici?

Vojvoda - Toda vez que saio do Pici, sinto o calor das pessoas, dos torcedores, pedindo fotos, me sinto muito querido e sou muito agradecido por esse carinho. E quanto à situação do portão, não era minha voz (risos). Em espanhol, portão é "portón", e (no áudio) dizia "portone", então foi muito engraçado, muito bom; divertida a situação. Eu tinha que comprar no supermercado coisas de higiene. Saí, voltei em 30 minutos, estava fechado o portão e abriram, nada de mais. Uma situação muito normal, mas se utilizaram de uma maneira boa, encaixou bem.

O POVO - Como você pretende encaixar os reforços que chegaram recentemente no time?

Vojvoda - Eles (Edinho, Angel Ramírez e Valentín Depietri) terão que ganhar seus espaços em cada treino, como todos os jogadores do Fortaleza. Todos têm os mesmos direitos e mesmas obrigações. Posso dizer que estou plenamente focado em meu elenco nesse momento e considero os jogadores que tenho como muito comprometidos com o projeto do Fortaleza.

O POVO - Fique à vontade para deixar alguma mensagem para os torcedores.

Vojvoda - Agradeço o apoio para com a equipe. O Fortaleza é uma equipe importante e cada vez que saio às ruas as pessoas me mostram isso. Tranquilidade, é ir partida a (próxima) partida, é chegar ao próximo jogo contra o CRB com a máxima responsabilidade com a qual nós enfrentamos cada jogo.

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