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Água de coco, superfamília e 10 anos de um AVC: histórias invisíveis do Challenge Fortaleza
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Água de coco, superfamília e 10 anos de um AVC: histórias invisíveis do Challenge Fortaleza

O Challenge Fortaleza começou nesta quinta, 28, com a Expo Feira, e terá as provas entre sábado, 30, e domingo, 31. A prova contará com profissionais e amadores
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Cristiano Barreto é vendedor de coco e triatleta e se prepara para participar do Challenge Fortaleza (Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA Cristiano Barreto é vendedor de coco e triatleta e se prepara para participar do Challenge Fortaleza

Na orla de Fortaleza, a Beira Mar se transfigura: é calçadão, relaxamento, local de trabalho, avenida de esperanças e, no domingo, 31, receberá um desafio dos grandes. Quando o Challenge Family assumir o ambiente pela primeira vez na cidade, 2 mil atletas e uma multidão de espectadores terão, ao lado, trajetórias menos anunciadas: as de quem corre, pedala e nada por motivações que vêm da vida e do passado.

Uma parte estará no Sprint, uma prova reduzida. Outra, na principal, o Half Distance, pelo desafio — ou apenas para o momento durar mais.

Nas vésperas da prova de triatlo do Challenge, o Esportes O POVO ouviu uma família que reconstrói memórias de amor ao esporte em uma competição de afeto, um vendedor de coco que já parte da linha de chegada e um mecânico-cantor que transforma a modalidade em fantasia e completa, no dia da competição, 10 anos de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) superado.

Desafio em família, como a prova sugere

Entre as histórias, está a da estudante de psicologia Sofia Albuquerque, de 18 anos, que cresceu assistindo ao pai, Cláudio, contar façanhas do tempo em que o triatlo era feito de sunga, regata e improviso. Ele foi o primeiro do Norte e Nordeste a completar o lendário Ironman de Kona, nos anos 1990. Sua família respira esporte, tudo vira discussão do assunto.

Da memória surgiu um projeto que virou tradição própria: a família Trifamily. A mãe, Roseane, que hoje compartilha a profissão de dentista com Cláudio, aprendeu a nadar só para participar da competição de afeto. O pai voltou a pedalar após duas décadas. E Sofia assumiu a corrida, transformando a rotina em encontros de treino, camisas personalizadas e torcida na orla pelo revezamento.

“Meu pai foi atrás da bicicleta, que hoje é mais moderna. Quando subiu pela primeira vez, ficou impressionado. Reacendeu um fogo nele que estava se apagando. Ele chegou em casa, depois do primeiro pedal dele, enlouquecido por andar no pelotão, por escutar o barulho da roda da bicicleta girando”, conta.

A Trifamily vai disputar a Half Distance, maior prova do evento, mas em formato de revezamento, como funciona o encaixe deles. Na vida, o esporte ensinou a seguir da mesma forma, e mudou a relação. A convivência aumentou, as conversas fluem melhor e tudo se complementa no dia a dia.

Coco é duro na queda

Tem triatleta que pedala 28 km todas as manhãs para fazer entregas, vai à mesma praia onde compete, mas dessa vez pilotando um carrinho de coco — e com a mesma energia com que encara o pelotão.

Cristiano Barreto Maia, 50, vendedor de coco, trabalha em uma banca bem ao lado do local em que estará a linha de chegada do Challenge Fortaleza. Ele pedala nas manhãs até o Centro, onde também faz entregas; e segue caminho até Marquinho do Coco, seu segundo trabalho. O uso do ônibus ficou para trás na rotina, pois “de bicicleta é mais prazeroso e rápido”.

Mergulha no mar quando a vida permite, para treinar e para espairecer. Se sente no quintal de casa. A inscrição no Challenge era que parecia distante. Mesmo trabalhando perto da linha de chegada, a de partida era incerta, até que amigos, que sempre passam pela sua banca, resolveram retribuir e bancaram sua disputa.

Para ele, triatlo é exercício físico e mental: “Competir é quando a mente se torna mais forte que o corpo”. Aproveitava até mesmo eventos em que ia a trabalho, por exemplo, quando fazia expediente como Luizinho, mascote do Mercado São Luiz, e ia de fantasia.

A barraquinha em que trabalha estava ali em outras provas, fazendo parte de uma cronologia íntima do evento, contada em goles de água doce. Agora é ele quem vai precisar de um refresco após fazer a prova de Sprint, na qual vai disputar com sede de se provar.

Melodia de parabéns após 10 anos de um AVC

Há também quem transforme cada giro de roda numa canção. E cante, entre as provas, parabéns para si. Francisco de Assis Leite, 69, hoje é mecânico de bicicletas e compositor de marchinhas que embalam provas locais e até nacionais. Afinal, já correu uma São Silvestre por ganhar um concurso de músicas na rádio.

Sempre foi de muitos amigos. Fez sua vida de ferramentas e aplausos em botecos, fantasiou-se de Thor em uma prova e já gravou letras que falam de suor, dor e esperança. Hoje, é avô de trigêmeos e diz ter superados os vícios.

Há dez anos, sofreu um AVC, momento que define como o pior da sua vida, mas conta que o esporte lhe “devolveu à sociedade”, após a recuperação. “Vou completar a maior distância, o Half, para demorar a acabar. Me sinto acolhido. E vai ser no mesmo dia em que completo dez anos do meu AVC. Para mim, é celebração e gratidão. Eu ressuscitei”, relata.

Assis, conforme é conhecido por grande parte dos praticantes de triatlo do Ceará, valoriza muito seu trabalho atual. Afinal, estava desempregado, e agora faz manutenções em bicicletas, juntando suas duas paixões.

Conta ainda que o convite para o serviço surgiu de um amigo, há três meses, para cuidar de muitas bicicletas que estarão nesse estilo de provas e que já estava sem economias, sem saber o que fazer. O mecânico montou a própria bicicleta para a competição, de acordo com seu orçamento curto e conhecimento amplo. Inclusive, seu sonho é voltar a estudar ainda neste ano.

Agora, se vê bem, feliz, e transformado pelo esporte, como define, e em uma de suas composições, diz: "eu não sei por onde vou, pode até não dar em nada, vou seguir a multidão no horizonte dessa estrada [...] onde as pernas me levarem, vou seguir meu coração".

Challenge Fortaleza abre com retirada de kits e aquece expectativa para provas de triatlo e corrida

A largada foi dada no Challenge Fortaleza. Nesta quinta-feira, 28, os atletas e competidores do maior circuito europeu de triatlo de longa distância puderam fazer a retirada dos seus kits de disputa na Expo Feira, no Aterro da Praia de Iracema, onde também tiveram a oportunidade de interagir com outros competidores, tirar dúvidas com a organização do evento e adquirir produtos e acessórios necessários para uma boa performance.

Nos grupos de atletas e competidores que passaram pelo evento, o início simbólico do Challenge Family transpirou ansiedade pelas provas, fosse a corrida de 7 quilômetros, que ocorrerá no sábado, 30, ou o triatlo, que contará com as fases Half Distance (a principal prova) e Sprint.

Entre os muitos competidores do Half estará pela terceira vez na Challenge Family a cearense Lorena Teixeira Dias, que já figurou entre a quarta e segunda colocação da competição nas edições de Maceió (AL). Em Fortaleza, a gerente comercial e triatleta de 65 anos espera alcançar o topo do pódio.

“Vou para meu terceiro Mundial esse ano em Marbella, na Espanha. Nesse Challenge, minha expectativa é baixar o tempo do ano passado. A meta é o topo. (risos) Com certeza”, acentuou ela.

Já o advogado goiano Marcílio Ferreira, recém chegado a Fortaleza, destacou como uma das maiores dificuldades para a competição o calor, que exige alta resistência, mas tem uma expectativa de, junto da namorada e influencer Bia Oliveda, fazer uma boa prova.

“Uma expectativa de muito calor, pois aqui é uma cidade muito quente. Mas a gente vem de um ciclo muito bom de treinamentos. Aqui exige um pouco mais de resistência, mas vamos tentar fazer uma prova bem feita”, frisou.

“Espero me divertir na minha cidade, pois eu não moro mais aqui, moro em Goiânia atualmente. Participar do Challenge é uma oportunidade de curtir a prova e estar com meus amigos”, comemorou ela.

Serão 1.200 competidores no sábado, nas corridas de 7 km — Challenge 7K — e o Challenge Junior, para crianças de 4 a 14 anos. No domingo, 400 competidores disputam a principal prova, o Half Distance, que terá 1,9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21 km de corrida, enquanto outros 300 participam do Sprint, também uma prova de triatlo, mas com distâncias reduzidas.

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